Subversa

dizer nomes e nomear chuvas | Fabíola Weykamp


“Noite de verão”, Harald Sohlberg, 1899.


talvez não seja tarde

para dizer que a chuva

que caía sobre teu rosto

naquela tarde

que mais parecia noite

fosse o que hoje sabemos

sem dizer

porque não importa o

hiato que exista

entre aquela chuva

e a chuva que caiu em pelotas

hoje à tarde

sem dizer ao que não se diz

e sem tocar na garganta o que não se escuta

talvez e

em meio a impossibilidade

do passado e a improbabilidade do futuro

dizer nomes e nomear chuvas

o passatempo preferido dos que

entrelaçam os dedos quando

os pés que conseguem tocar o chão

fazem o movimento do embalo nos joelhos

e os dois corpos são lançados

com certa rapidez e liberdade para frente

e para trás e outra vez para frente

e tantas vezes mais para trás e para frente

falar sobre isso num dia de chuva

que mais pareceu noite

talvez não seja novidade

e talvez venha acompanhado

de muitos talvez quando se sabe

que não há nenhum talvez a mais

nesse hiato nesse tempo

que nem mesmo o gato

mais impaciente resolveu deixar para trás

tem tanta coisa ainda que vem

e vem de frente

como a vez em que estava na rua

atravessou a rua e um passou

pelo outro

ninguém se reconheceu

ninguém lembrou daquela chuva

e da rede e dos pés de pêndulo no verão

quando não havia férias, mas

se reservava um tempo

para olhar o fim de tarde

no telhado

ninguém nem lembrou

ninguém morreu

ninguém sequer existia nesse tempo

isso foi antes

muito antes daquela chuva

daquele telhado alaranjando de sol

e antes mesmo do gato

que não fazia questão de muita coisa

ninguém se reconheceu

talvez até tenham deixado

os braços se encostarem

quando um passava para lá

e o outro para cá da rua

para cá de onde não se lembra nada

a não ser a chuva que não fazia nesse dia

embora fosse inverno e houvesse sol

talvez o mesmo sol dos outros dias

em que o telhado da casa tinge de laranja

e o gato passeia pela areia da rua

sem fazer questão se é noite ou dia

ou talvez tenha chovido muito

por isso encostaram-se os casacos molhados

mas na pressa da chuva um respingo a mais

um respingo a menos

de onde veio não importa

não faz muita questão

como o gato

que agora cruza o telhado na madrugada

e não se sabe se é ladrão ou praga

mas diz a voz dentro do escuro

que é o gato da vizinha que brinca de ignorar a lua

no telhado laranja que fica marrom à noite

quando tudo aquieta

menos o gato menos a memória da chuva

a luz no escuro da noite que pode ser

apenas a lembrança do que não existe

como esse dia de chuva e àquele também

quando, na realidade, talvez seja tarde para dizer

talvez seja tarde para deixar nos pés

o peso das mãos entrelaçadas que já foram

e dobrar os joelhos e soltar com violência

o corpo que vai para frente e para trás

repetidas vezes até que se adormeça

sem contar a palavra

porque talvez seja tarde

e sendo tarde

não há o que se dizer

no mais, ninguém nem mesmo morreu

não há o que se dizer


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa e acaba de publicar “Ensaio sobre a Solidão”, pela Editora Penalux. | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR | Clique aqui para ler mais textos da Fabíola.

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