Subversa

Despertar | Pedro Belo Clara

“Sunset”, Paul Klee, 1930.


Já o mais amável dos convites fora feito, esse de dar à luz entrada num largo oceano de escuridão dormente. Para trás a quietude em que reverberam os desejos mais íntimos, ainda sem corpo onde vibrar; a vigília vespertina diante da placidez do teu vulto, em auras de ninfa entregue ao imenso mistério do seu silêncio; os volteios emudecidos das primeiras carícias tão cegas de leveza e sentido.

Os rostos davam-se a um surdo esplendor, como se pela prima vez viessem à luz beijar o seu profundo calor – e as primeiras brisas iam de nós lavando o sal da noite. O sol amanhecia no rosto de cada rosa, assim sonolentas ainda, abrindo-se debaixo da velha janela de verdes portadas ao leite da manhã. Uma abelha, pesada após a elas professar o seu amor, lembrava um túrgido seio, prenhe dum néctar capaz de despertar vida no mais árido peito.

De súbito, uma carriça desajeitada despertava as hortênsias do seu sono de orvalho. Ecoando pelo pinhal, ele próprio ondulando em leves murmúrios, o ascendente coro das estrelinhas dava a prova do seu primeiro ensaio, como se a grande canção se não iniciasse sem o seu delicado prelúdio. E logo as breves harmonias dos irrequietos chapins se anunciavam em leve esplendor, e logo os melros vinham às fontes perguntar pelos frutos mais doces.

Nenhuma palavra cabe nas águas que sabíamos correr em nós, quando ao dia os olhos se devolviam. Nessa mudez feita dança pausada tudo era certo e justo e belo, toda a pergunta perdia razão. Que restava senão o mergulho nessa imensidão em surdina chamando pelos nossos nomes secretos?

Houve um tempo em que cria a tua boca a entrada de tais abismos, o teu olhar quente de terra em cio as gargantas imensas por onde tombaria sem apelo. Mas vieram outras inquietações sem raiz, outras madrugadas que serviram de espelho ao rosto – e assim esquecíamos os corpos na sua jovial maturidade.

Antes de ser estrela o fogo arde por si mesmo, antes de ser música o silêncio cintila. Não há nome para a luz que tudo cinge no alto dum êxtase sereno e feliz.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

 

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Sulamita FerreiraTeixeira 14 de julho de 2019 em 14:10

    Bravo
    Arrebatador
    Parabéns, poeta.

    • Pedro BC 14 de julho de 2019 em 19:35

      Muito obrigado pelas suas palavras, Sulamita. Apraz-me saber que gostou do que leu.
      Beijos e boa semana.
      Até breve.

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