Subversa

Depois da noite sem estrelas | Pedro Belo Clara


“Kiss of the Butterfly VI”, (2003), Basil Alkazzi


Caiu sobre nós como nunca antes houvera tombado – com a traição das adagas, com o peso dos metais. Caiu e dum só gesto espalhou a sua agrura, a sua acidez obscura. A espuma da sua praga fermenta agora nas searas de tantos amores, nas vinhas de tantos sonhos, na folhagem de tantos frutos mordidos às escondidas do sol.

A chuva pesa sempre mais quando as cerejeiras estão em flor, mas é no negrume mais absoluto que se bebe todos o segredos da noite. Nesta hora, mais que qualquer angústia é luminoso lembrar os sussurros dos trevos, as lições dos pássaros.

O negro veludo terá de cobrir as esferas celestes para que no peito se acendam estrelas. Mais que nunca sabemos a futilidade da nossa avidez oculta, mais que nunca despimos a nossa vaidade vã à ordem dos ventos bravios – e assim lembramos o que, cegos pelas cores da fantasia, largámos aos poços do olvido.

Não quer-nos mal a dureza do tempo ímpar. Olha, amor, observa as benesses dum olhar sem nuvens, a graça maior do negrume circundante, aberta ao coração que a souber receber: olha como nos comove a brevidade dum céu azul.

Os torcazes espalham-se pelo bosque como nunca antes, ele próprio exalando melodias aumentadas; as joaninhas regressam às altas ervas, as carriças não refreiam a trova por presença indiscreta, já o ribeiro canta com voz mais límpida. A terra prepara-se para nós: saibamos receber com honras sentidas dádiva tamanha.

Todo o instante tem a sua vez, e à semente morta responde uma fresca haste de vida, fervilhando promessas. Em breve, amor, ver-nos-emos nus diante da estrada rumo a um novo amanhecer.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

 

 

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. conceição lima 10 de abril de 2020 em 19:34

    Veio à sucapa, forçou-nos as janelas, invadiu -nos a Vida…O mundo tomba, mas , ( milagre da Vida), a Natureza brota, irrompe e vinga-se: curados os homens, cura-se, a Terra!!OS POETAS choram a Morte, mas celebram a VIDA!!Meu amigo, adorei o seu poema…Adorei essa abordagem poética que faz face às nuvens negras e às “joaninhas”e “carriças”que já nos vão embalando as memórias que só tínhamos da infância…Um beijo muito grande!!

    • Pedro Belo 16 de abril de 2020 em 08:06

      Cara Conceição,
      Muito obrigado pela gentileza da sua leitura e pelo amável comentário que deixou.
      Levei ao coração todas as impressões e sensações deste tempo, e este foi o resultado. Quis, apesar de tudo, partilhar uma mensagem de esperança, pois ela é válida e existe – mora tranquilamente na certeza de que a vida comporta um sem número de ciclos e, graças à sua efemeridade, tudo passa. Também isto passará.
      É um tempo desafiante que apela à transmutação interior (também colectiva) e à transcendência. Que possamos aprender cada lição destes dias para deles sairmos mais conscientes e luminosos.
      Grato, uma vez mais, pela sua inestimável presença.
      Beijos e até breve.

  2. Maria Isilda Monteiro da Silva 11 de abril de 2020 em 07:04

    Um maravilhoso filosofar sobre a situação em que todos nos encontramos, onde não falta a expressão do encanto daquilo que ainda temos e o vislumbrar de um porvir esperançoso.
    Parabéns, grande poeta!
    Um abraço de gratidão por tudo que nos dá a ler.

    Um maravilhoso filosofar sobre a situação em que nos encontramos e uma esperança gloriosa naquilo que de encantador ainda virá… Uma reflexão encantadora que nos preenche o espírito.
    Parabéns, grande poeta!
    Um abraço de bem querer, por nos proporcionar tão belos momentos de leitura.

    • Pedro Belo 16 de abril de 2020 em 08:08

      Fico grato por saber que gostou, cara amiga. Foi isso que, de facto, tentei transmitir. Se pudermos partilhar um pouco da luz que nos habita… então que assim seja. Possa ela iluminar um pouco a noite do nosso semelhante.
      Muito obrigado pela sua visita. Espero que se encontre bem.
      Até breve!

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