Subversa

Das poéticas alicianas: prelúdio a Maria Velho da Costa | por Cláudia Capela Ferreira


“Bouquet of Roses”, 1879, Henri Fantin-Latour.
French, 1836-1904

11.

Não foi nunca o lugar que tu buscaste, mas a passagem intérmina, minha vida que não descrevo – chamo.

Maria Velho da Costa, Da Rosa Fixa

Ao citado fragmento, ainda assim inteiro, devolvamos a morosidade de um poema que permanece e corrói – a poesia não foi feita para a brevidade da sua dicção, senão para o eco. Ora, Da Rosa Fixa, de 1978, enuncia, fragmentária, movimentos concêntricos, abrindo em flor na amplitude seivosa das palavras. Aforística, lírica, e no gume do eu para o nós/vós, esta obra, desescrita, emula a vida de revés, isto é, forja-a por via ortográfica, via esta que nada mais é do que a amplificação de um som primordial de natureza íntima.

Dois aspetos carecem da nossa atenção e, podendo dedicar-nos ao rigor taxonómico da análise temática, selvática pela sua natureza analítica, sublinhá-los-íamos como peças-chave no rigoroso e poético labirinto aliciano de Maria Velho da Costa: a busca do caminho e não do destino, uma premissa assaz torguiana (cf. “o que importa é partir, não é chegar”), e que aqui, mais do que atentando à convidativa aprendizagem e destreza do sonho na perpetuação do mesmo na hora da despedida do pórtico e consequente abandono de um estado de constância, trata do sentido de perpetuidade da alteração, um eterno retorno a contrapelo, enaltecendo a renovação contínua: a revogabilidade do ser e do mundo de índole camoniana. Neste âmbito, não se limita, pois, o indivíduo, como se convoca ele mesmo para a dança no seio da matéria, nesse axis mundi rotativo, desfixando-o, afinal, não deixando assim de se interrogar o próprio título da obra, e dessa rosa fixa – que fixidez é esta? A rotatividade espacial envolve o sujeito e a esfera prática que o circunda, protege e simultaneamente ameaça, questionando conceitos como identidade, cultura, nação e pertença, num mundo que já em 78 já lucidamente se adivinhava global, mas incoerentemente globalizado, pretensamente igualitário. Neste exercício de agilidade inclui-se igualmente a leitura estanque de género e derivativos sociais, num registo de fluidez exprimível por meio da palavra liberta de engavetamentos de ordem burguesa, moralista.

O segundo sentido prende-se com o apetecível e inquietante prelúdio à dialética intrínseca à poética de Maria Velho da Costa, o binómio ficção/ real, ou palavra/ vida, nesse semblante de operacionalização desta última por meio da anterior. O que vem primeiro, a palavra, ou o ademane?  Adivinha-se a vida na auscultação da sintaxe, brota dela a narrativa que se tem por vida? “A arte não é nada à vida” (cf. Irene ou o Contrato Social) ou, aparentemente, “a arte não é nada a vida”, configura um registo de natureza capacitante, questionando constantemente da autofagia poética que a obra de MVC não deixa de constituir, pelo que de circular e inacabada – intérmina – se revela, como gesto concêntrico de que resulta um traço irremediavelmente infinito. O som cósmico, como medida da mão, convoca-se como garante de um eco, cuja palavra se vai moldando às ondas, reverberando em sentidos opostos.

Esta dualidade, lúdica, há de exponenciar-se e retinir em Missa in Albis, obra em que as vozes múltiplas se revestem do mistério essencial à postulação das grandes perguntas e à manutenção da Poesia, que, mais do que simples lirismo, se evade do significado abrupto e visível. Se a arte não viabiliza a vida ou se com aquela esta se torna suportável, pela negação anterior a autora parece, ironicamente, simplificar, de forma temporária e desconsolada, o confronto perante uma resposta nunca discernível. O lugar fixo é assim categoria de fechamento e, logo, morte prematura, morte fetal; o caminho, por sua vez, enunciação de possibilidade. Porém, e como foi dito anteriormente, este prenúncio do possível não enfatua um propósito liminarmente individual, mas amplamente comunal: é o eu e o nós, a perfectibilidade premonitória e ostensivamente desenhada pela mão, da qual se pretende eco material. Neste sentido, Da Rosa Fixa situa o plano individual no mesmo patamar do social, amplificando de um para múltiplos uns o sentido inaugural de cada repto ressoante, ou não fosse a obra ela mesma um repto e uma resposta à Revolução e à palavra da mesma.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema. 

 

 

 

 

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