Subversa

DA EXPLICAÇÃO DO MUNDO (OU QUASE) | Pedro Belo Clara

 

Nota Introdutória:

As estações são como as rosas: defraudam as fantasias dos mais incautos e recompensam a audácia de ser gentil. Só pela doçura se conquistam umas e se colhem outras.

Ambas têm o brilho das coisas breves. Seja a sua efémera aparição celebrada em hinos de louvor ou chorada em lamentos tecidos nas bainhas do vento, é de sua natureza definhar – uma ordem suprema a que nada que pise
ou sobrevoe a terra poderá escapar.

E quem diz rosas dirá lírios, tão frágeis na sua subtil presença. Para quê chamá-los à prosa, dirão os mais distraídos? Por em quatro anos se ter cultivado um canteiro que era a explosão sua, um manancial de cores e formas, mas todos gémeos em aroma e essência. Deixe-se o canteiro numa curva da estrada. É agora coisa de estação passada.

Algo reergue-se após a inevitável dormência, tal como não há renascimento sem morte. Chegou o tempo, então, de parar o labor floral, sondar os trilhos que se abrem e escrever um novo rumo. Mesmo sem levantar o pé da encruzilhada. Quem aceita o convite de, na graça duma sombra fresca ou no encosto da fonte, escutar as coisas que o vento conta?


 

Aconteceu num tempo onde as palavras

eram o sonho do silêncio.

 

As pedras mais gastas ainda hoje

sussurram a história a musgos

e caracóis de visita demorada.

 

Houvera um pássaro ferido de amor.

Fora a sua derradeira canção

o derrame do inebriante vinho

que do coração fizera as delícias.

 

O corpo tombara em valsa,

e assim a rega se principiou.

Por sua graça nasceriam flores,

poemas tão breves erguidos

para lembrar como de amores caídos

pode um coração cintilar.

 

O resto da história conta-se

num punhado de vento vadio.

 

Quem perguntou porque rubras

são as papoilas dos caminhos vazios?


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

3 Comentários

  1. Pedro Marques 14 de julho de 2020 em 07:34

    Cheguei a esta página pelo lírio do poema. Tudo apreciei ler. Também deste da explicação do mundo. De tudo, guardo o sabor e singeleza do lírio no fascínio da sua simbologia na simplicidade e brevidade da sua passagem.
    Os meus parabéns, com o incentivo de seguir em frente.
    Sempre que possível, farei uma visita

  2. Pedro Marques 14 de julho de 2020 em 07:35

    Cheguei a esta página pelo lírio do poema. Tudo apreciei ler. Também deste da explicação do mundo. De tudo, guardo o sabor e singeleza do lírio no fascínio da sua simbologia na simplicidade e brevidade da sua passagem.
    Os meus parabéns, com o incentivo de seguir em frente.
    Sempre que possível, farei uma visita

    • Pedro Belo 2 de agosto de 2020 em 19:45

      Serão todas bem-vindas, meu caro – assim possa.
      Grato pela leitura e pelas palavras que aqui deixou.
      Forte abraço.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367