Subversa

Crônica | Giovane Adriano dos Santos


“Reencontro”, Maria Bonomi.

A propósito de leituras recentes, inventei frase da qual Ernest Renan, segundo penso, não discordaria: la médiocrité existe. Mais, nous ne parlons pas la langue de l’absurde.

Certa ocasião, ao notar Austregésimo falando a um jovem, que lhe indagava sobre o horário dos ônibus – e a rodoviária erma como nunca a vi –, fiquei assustado. Conversavam alto, muito alto e, com isso, dispensavam-me de idênticos esforços; reparei na curva das palavras justificadoras, pus destaque às feições dos números de minutos, tracei na mente o percurso futuro, evitando as curvas, por causa da cinetose que me aflige. Se, algumas vezes, os dizeres mal chegavam aos meus ouvidos, ora pela prosódia novidadeira e ora pelo que eu julgava neologismos, significações e sons corretos eram por mim inventados. Os invento – para não dizer em pretérito perfeito –, porque recebi instruções linguísticas, pus-me a exercitar semânticas e pragmáticas aos moldes proferidos em cursos de licenciatura; agora, se não ponho bem aos vocábulos as precisões que eles formulam, e pelas quais protestam sempre e sempre as palavras, serve o fruto dos meus estudos abandonados para o riso dos leitores e para que eu tenha letras a publicar. Sendo verdade que as lições idas deixaram rastros, cuidei de não apagá-los quando os ventos bradavam sobre areias desérticas; vali-me dos ensinamentos para corrigir textos variados e ganhar algum dinheiro ao tempo universitário posterior.

Antes de adiantar o passo, registro algumas ressalvas úteis ao desenrolar da cena que ia ficando perdida da vista, posta ao escanteio do campo de palavras prestes a serem imagem. Compreendi que os interlocutores haviam sido vizinhos, conheceram-se nos respiros finais do século anterior, quando os anos restantes da fatia histórica soerguiam-se apoiados nos cotovelos das novidades. Austregésimo viera de São Paulo por ocasião de casar-se em Minas Gerais, trabalhou em companhia asfáltica e no transporte ferroviário, viu escoar minério por dias e dias. E, nesta unidade da federação, em mil novecentos e tanto – alguns motores rugiam quando eu desejava de saber a data com exatidão – domiciliou-se em Itabira do Mato Dentro, onde conheceu ainda pequenininho o rapaz que hoje chega ao guichê e que ontem mesmo corria descalço por sobre ruas calçadas a pedras e boas estórias. Há alguns tempos, asseguravam os dois, conscientes de que não se ouviram através de dez ou doze anos, o costume da região mandava que as pessoas se visitassem bastante em certas passagens: nascimentos, mudanças de casa e doenças uniam pessoas a refletir sobre contentamentos e tristezas.

– De primeiro, eu lembro que o povo conversava mais. Sobrava tempo. Sem rádio, televisão. E o celular então, a sua pergunta foi por causa dele, não foi?

– Sim. Aqui – apontou para o aparelho que tinha à mão – diz que o ônibus para Itabira já passou. Se for verdade, não chego em casa hoje, não. E tenho que chegar hoje, porque senão o final de semana prolongado fica à-toa, por conta de viajar.

Teve solucionado o problema, quando sobre o fogo da pressa viva caiu a água da informação verídica e, se não o foi, da informação atualizada. Contente, ouviu que o esforço desempenhado até ali não seria em vão e que seria muito provável que as notícias egressas do aplicativo estivessem desencontradas daquelas postas à caneta na cartolina que tinha diante de si, à beira do rosto que ia desmanchando aos poucos os sinais de frustração. Fui espectador das falas por um tempo que me forneceria entre cinco e seis páginas que, depois, corrigidas dos excessos e apagadas dos dizeres sem importância, talvez não prestassem para nada. Em seguida, omiti o nome que li ao crachá, inventei ‘Austregésimo’ por dois motivos pouco exatos: primeiro, não posso lhe pagar por direitos autorais – e inexiste personagem que faça estes reclamos de quem a criou e a pôs respiro exato; segundo, é o caso de lembrar que eu disse que emendaria as palavras para dar-lhes sentido. Esta foi uma das emendas.

Nenhuma outra invenção há neste textinho. É quase biográfico dizer que o rapaz estudava Engenharia em renomada instituição do país e que, concluídos aqui os créditos que lhe dariam o título e os ares de bacharel, ansiava viajar pelo mundo a elaborar edifícios e a colecionar títulos acadêmicos. Nas horas vagas, inspirado pelo gesto conterrâneo, escrevia versos livres e deixava-os soltos pela vastidão de cidadezinha qualquer. Dividia a Língua camoniana (e toda outra, como pude notar) em três aspectos únicos e aí punha merecida correção às ideias de Jakobson: a força motriz, a energia cinética e a matéria. Associava o primeiro aos objetivos dos escritores e dos falantes em geral, reparava em que cada palavra do idioma seria capaz de gerar movimento – senão se alheava a condição mesma de palavra. Postos ao baile, cuidou de reparar que os vocábulos provocavam diferentes ânimos, havendo as enunciações que poderiam conduzir seus responsáveis à glória, ao anonimato, à desimportância, às láureas. Ao fim, arrematou que cada expressão falava de coisa diversa de si mesma e que, sendo palavras fora de contexto, nenhuma seria mais importante que outra: os termos, eles seriam diferentes apenas na forma.

Não estou autorizado a enunciar sobre os pensamentos do rapaz. Se o estivesse, informaria que é assíduo frequentador de páginas em que se leem conselhos de um burro; a personagem de Monteiro Lobato é, antes de tudo, hábil a muitos quefazeres atuais; vez ou outra – leiam ‘quase sempre’, eu mesmo tomo nota às falas ruminantes e recomponho o passo pendente a cair a este àquele lado. Haja vista que os motores alardeados se contam em muitos cavalos e zeros burros, não é de causar espanto a ninguém que a sintaxe tradicional fosse invertida ao som dos automóveis que havia. É assim que ponho sentido e abrangência para o livro que salta à abertura da pastinha que o jovem leva próximo à outra mão, presa, a bolsa, entre o antebraço e o lado esquerdo do tronco. Certamente, não carrega pesos, desvencilha-se de bagagens inúteis e de objetos inessenciais, em virtude do pouco tempo permanecido de férias. Em último ensejo, e por exceção, como antigo estudante de Letras, admito que ali estejam escrituras mais abrangentes, feitios legitimamente dignos a ensejar(em) a perfeita, a perfeitíssima, dicção do burro-falante.

À noite, tomarei os textos pelas mãos acolhedoras e me instruirei em fonéticas raras: primeiro, repararei na sibilância de consoantes fricativas vastas. Em seguida, havendo tempo, ensaio sobre outros sons e dou razão às vogais médias, nutrindo o ensejo de me especializar em expressões cosmopolitas, conduzindo a caneta à raiz exata de cada termo. Neste instante, aproximam-se automóveis; contentem-se com o ponto final. Não é grafo de desprezo; é pressa de seguir a cadência.

Noto que Monteiro Lobato inventou a personagem; mas, a língua dos burros ainda carece de gramática que a normatize. Diante da ausência, concluo, me perco em dizeres.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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