Subversa

[CORRENTEZAS] Incendiar é preciso | Henrique Grimaldi Figueiredo


Henrique Grimaldi Figueredo

Fotografia: acervo da revista

Existe no humano antropologizado certa vontade enciclopédica. Diz-se antropologizado, pois não parece coincidir com um estado primeiro do ser-selvagem – quanto categoria mental – essa ânsia ordenadora de fechamento das coisas em conceitos. Não intenta-se promover aqui um rebatimento ou desprezo pelas conceituações, afinal, serão elas que no contexto da construção de um Eu-simbólico permitirão o ser-homem, ser-artístico, como editável. Entretanto, há certa perniciosidade nas clausuras axiomáticas, aquelas que cerram a existência em padrões indiscutíveis, irrevogáveis.

As imagens sofrem deste mal. Tendemos a trata-las em modo de rasura. Como se não existisse nada para-além-do-ver, esgotando uma possível arqueologia do visível. Talvez esse desejo categorizador advenha da crença no valor documental do que é patente, exposto, de um real que negamos – por conforto – ser editado. Sim, há uma medida histórica nas imagens, algo de edificador para o pensamento e para as genealogias humanas. Mas perdura um tanto-do-ver que orbita adiante, que encolhe-se sob. E é este “sob” que nos interessa.

Ao promover uma epistemologia do visível, o filósofo francês Didi-Huberman devolve uma pertinente sensualidade à imagem, ao ser-imagem como ser-discursivo: nos pontos de tangenciamento entre o real e sua imagem, INCÊNDIO! Ao discorrer sobre a imagem poética, Rainer M. Rilke, assume existir por esta ardência: “Se arde, é que é verdadeira”. Ao idílio de Rilke, adita-se Walter Benjamin, “A verdade […] não aparece no desvelo, mas sim em um processo que poderíamos designar analogicamente como o incêndio do véu […], um incêndio da obra, onde a forma alcança seu grau maior de luz”.

É neste fogo, nesta faísca de ignição, que as imagens falam. E as imagens falam de formas distintas e enigmáticas, um diálogo obscuro mas ligeiramente potente. Se para Rancière a estética existe como medida política, há algo de alentador nas imagens: imagens todas, de origens diversas; não existe um lugar mais legítimo que outro, o visível se produz como exigência do pensar. Portanto, verifica-se certa intranquilidade nas imagens, deve-se ler o seu “sob”, permitir o incêndio. São estas, as IMAGENS INCENDIÁRIAS, as responsáveis pela ativação de corpos de passagem, corpos em construção de guerrilha, corpos-políticos inquietos, resistentes.

Traumas, silêncios, medidas insociáveis de solidão… No diálogo pré-verbal da imagem, naquilo que insiste num pós-ver, há uma combinação meta-processual de ativação que desestabiliza – felizmente – as coordenadas do sujeito e o investe de um calor outro, de uma ignição do sensível. Viagem: da imagem no sujeito, do sujeito no viver, do viver na imagem. RE-TRO-A-LI-MEN-TA-ÇÃO. [Assim,]

No abrasamento da imagem: a demissão do sujeito; o incontornável e incapturável: ao incendiar o mundo, esgarça-se o cotidiano, promove-se a micro-revolução. Das imagens incendiárias nascem politicas incendiárias, uma espécie de [re]conceito de tudo que se assenta e que pretende-se ordenador do homem. É ser incivilizável, é existir por uma desobediência plural. À era dos agenciamentos pacíficos sobrepõem-se o lugar do devir-piromaníaco: incendiar é preciso. Como escreveu Blanchot, “se ver era o fogo, exigia a plenitude do fogo; e se ver era o contágio da loucura, desejava ardentemente essa loucura.”


HENRIQUE GRIMALDI FIGUEIREDO | arquiteto, possui formação livre em museologia e curadoria pela CSM – London College of Arts. Encontra-se mestrando em Artes, Cultura e Linguagens pela Universidade Federal de Juiz de Fora e trabalha como curador independente com projetos assinados no Brasil e exterior.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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