Subversa

Coração voltado ao mar | Pedro Belo Clara


Fotografia nossa.


Éramos mudas testemunhas da suave passagem do vento, o pássaro original. O sol tombava em vagares de pedra sem tempo, mergulhando no seio de indizíveis distâncias. Por sonolências entorpecido, os farrapos da sua luz, rastro que adivinhava um secreto convite dirigido à lua, revelavam os segredos adormecidos no inverso do dia.

A palavra saia-te lenta como rumor de brisa junina por entre altos pinheiros, moldada na prudência de quem teme ferir o intangível corpo dum silêncio fulgindo em cintilações puríssimas. Os tímidos afagos da sombra das palmeiras sobre o lânguido esfriar dos ladrilhos convidava à deambulação da memória.

Tudo era solidão: reluzente, indecifrável. Então, assomavam os esmaecidos espectros da vida degustada: avenidas coloridas na surpresa dos jacarandás, a ascendente vertigem dos céus de turquesa imensa, a eterna canção das águas em cálida dança, o sorriso do branco fulgor duma cidade ao sul.

Mesmo crescendo em nós o brando fogo dos astros, semente germinada sempre na dormência das cegas percepções, um sopro de súbito arrefecido como gládio inesperado cortava o sal anda pregado aos corpos. E ao oiro do instante os olhos se devolviam, lembrados do lugar onde a mais preciosa gema habita.

Os volteios do andorinhão pelo céu de quase veludo e o seu grito nu coroavam um bailado pleno de mistérios. Dois pintassilgos, tão junto ao pulsar do instante em expansão final, acrescentavam melodias à melodia obscura da tarde desfalecida. Nas margens do deslumbre, todo o desejo se afoga na ausência de si mesmo.

Ah, o tanto que se escapulia das mãos que nada queriam… O mais que se não conta, no íntimo o sabíamos, fulgia nas imensidões dum longo silêncio, aquele silêncio de puras fulgências, poisado sobre o mudo assombro das bocas, sobre a paz suprema da encantação dos sentidos.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

3 Comentários

  1. Maria Isilda Monteiro 10 de junho de 2019 em 17:27

    A sua escrita implica uma ginástica mental muito gostosa. Adorei ler. Parabéns pela sua sensibilidade, riqueza de vocabulário e arte em acomodar as palavras.

    • Pedro Belo Clara 13 de junho de 2019 em 16:58

      Muito obrigado pela sua apreciação tão simpática e gentil. Apraz-me saber que gostou daquilo que leu.
      Apenas uma sugestão, se me permite: a ginástica mental não tem de ser muito rigorosa. O segredo, perante tanta imagem e metáfora, está em sentir, em escutar o som de cada linha, ao invés de racionalizar o que se escreve. Verá que ajuda. É claro que não sei se a minha amiga toma tal caminho, apenas digo que sei de vários leitores que o tomam e, por isso, se vêem enredados nas suas próprias voltas.
      Renovo os meus sinceros agradecimentos.
      Até breve.

  2. Maria Luíza 13 de junho de 2019 em 18:56

    Lindo, Pedro!
    Podemos sentir tudo que flui do texto, como uma leitura da alma, sua alma, que deixa transbordar tanto sentimento nos seus escritos. É sempre um prazer!

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