Subversa

Cenário II | Giovane Adriano dos Santos


“Às vezes, sim, prefiro o estilo indireto ao silêncio costumeiro: atribuo a palavra à personagem, mas não a significação, a significação jamais; pois o que ela, criatura, está a dizer por minhas mãos escreve-se, de facto, pelos olhos dos leitores”.

O Parágrafo das Ausências

“Fuga”, Georges Valmier (1920).


Se, desatreladas das figurações que os idiomas permitem, as laudas dos livros postos sobre a escrivaninha conjugassem verbo à maneira que o faz todo aquele que se escora em palavras, elas, as páginas, teriam visado a que Deolindo não se demorasse na tarefa de olhar pela janela, reivindicando para si mesmas os minutos passados e os não transcorridos ainda, estes e aqueles representados pela rapidez com que a casa sombreava o quintal. Naquele instante, o espectador não intuía nenhuma novidade: longe dali, as sombras nascidas das ausências das luzes citadinas não desempenhavam funções de relógios, e a certeza de que ‘a casa sombreava o quintal’ não se oferecia, a despeito da boa intenção que lhe servira de molde, ao melhor estilo para sugerir que o quintal era sombreado pela casa; esses substantivos, ineficientes à conjugação de todos os verbos, pulavam da voz ativa para a passiva e iam embaraçando os fios da mente que os pensava. O homem, não houvesse lido em Belo Horizonte páginas vindas da Europa, mais precisamente da França, talvez não raciocinasse de tal modo, nem sugerisse que, na verdade, às coisas inanimadas como uma casa é dada a possibilidade de agir somente no interior das frases – o que, a rigor, não é agir: a casa é, mas não faz.

Quando se afastou da janela, deu de mão às laudas que tanto o fizeram pensar sobre determinados arranjos da língua e dedicou-se a apreciá-las, ele soube: na primeira metade do século XIX, Eschwege, aquele a quem Goethe leu e elogiou, esteve na vila de São João Batista – muito antes, portanto, de o povoado carregar o nome de Morro do Ferro – e na de Oliveira.  Em seguida, valendo-se da lógica que supunha ter aprendido na capital mineira, Deolindo conjecturava que se Goethe, grande poeta da Alemanha, houver lido todos os escritos de Eschwege, Goethe soube da existência desses lugares. O que ele pretendia com essa suposição? Fazer elogio àquilo que está afastado no tempo e no espaço? Se sim, é o caso de perdoá-lo: a aspiração por distâncias fê-lo ler Goethe – o que é muito bom – e, demais, conhecer sobre memórias às quais o palimpsesto assiste. Tudo isso decorria da curiosidade acerca do passado e nada mais, talvez. Algo relevante, é certo, aquele morador de Minas Gerais sabia há tempos: a importância atribuída a uma pessoa não poderia ser dada pela nacionalidade, língua, sotaque…; muitas coisas em comum – boas e ruins – tornavam todos os viventes moradores de uma só casa, ainda que estivessem em lugares distintos. Não seria interessante Deolindo contar todas essas coisas em um romance histórico? Invocaria de um rio local musas que o ajudassem a escrever? Qual romance, porém, não é de algum modo histórico? O que aconteceria se aos esforços narrativos do então proprietário da fazenda a história do lugar fosse submetida?

Não se esquecia de refletir a respeito dos muros; estes existiam em toda parte, eram feitos com o emprego de diversas técnicas e constituíam-se de muitos tipos de materiais, havendo, inclusive, os muros que se negavam a serem vistos. Os desta qualidade, Deolindo concluía, os desta qualidade eram elaborados principalmente nos moldes férreos da indiferença e, depois, já inventados, existiam dentro de cidades, escolas, casas e não discorriam sobre os lugares em que se abrigavam melhor, porque muros também são, mas não agem. Daí a pouco, sua visão estava invadida pelos muros reais que contornavam as terras e pelas heras que se descansavam sobre eles há muitos e muitos anos, como se não fossem iniciadas por rígido ‘H’, episódio suficientemente valioso para que o homem percebesse que havia acontecimentos que podiam ser vistos, tocados, ouvidos e, a despeito desses fatos aos quais os sentidos remetiam toda pessoa, eventos também se articulavam nos porões da materialidade e, apesar disso, estes não se tornavam menos verdadeiros que aqueloutros. Apegado a essa ideia e acariciando a textura de sua própria voz, ele lia alto e comentava os excertos nos quais sintaxes esmeradas punham-se ao palco, escreviam, contracenavam…

Dali da sala, munido de palavras, ao erguer a cabeça e pausar a leitura, ele avistava entre os galhos da paineira a estradinha de chão batido responsável por levar os primeiros inventos da modernidade à fazenda. Enquanto permanecia a suspensão, a trégua que não possuía razões evidentes, todo o mais que havia no local dava continuidade ao tropel – ritmado ou não – dos passos cotidianos: a água caminhava por sobre a areia; o pássaro cantava e construía; o vento abanava a bruma… De hora em hora, passava alguém por ali, quase sempre a cavalo, perguntava se a cidade mais próxima situava-se distante e ouvia como resposta que, para encontrá-la algumas léguas adiante da Forquilha, bastaria cruzar a ponte ou costear o rio até onde as águas minguassem e, depois de atravessá-las, seguir no rumo a que o sol todas as tardes ia descansar. Era impossível que a alguns o vento abrisse as páginas das porteiras e a outros as dos livros, dissimulando critérios que, quaisquer que fossem, apresentavam-se com folhas e frutos à vista de qualquer um, mas que estavam encobertos e arraigados em solo supostamente despretensioso, de modo a resguardar os porquês e as necessárias aparências das coisas. Cenário, ocorrência inútil é o cenário, se não houver narrativa que o apoie, apresente, colora e tire-o as cores, inserindo na eventual contradança de letras os fios com que são forjados os palimpsestos.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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