Subversa

Cenário | Giovane Adriano dos Santos


“Paisagem de Terchová”, Martin Benka (1936)


Forjadas do cerne de uma antiga árvore, as laudas das porteiras, imitando as dos livros abertos em cima de uma empoeirada escrivaninha, eram balançadas pelo vento, como se ele convidasse as pessoas que chegavam à fazenda a roçar japecangas, lobeiras e quase toda a larga espécie vegetal do lugar. Um convite para colocarem fim a vegetais pequenos e médios, pois os poucos grandes e vistosos, à moda da paineira que fornecia plumas para que os travesseiros fossem tornados aconchegantes, deveriam ficar de pé e conter os vigores do sol, sombreando as reses que só encontravam água longe do desmate, quase dois mil metros adiante da pastagem em formação, onde o rio do qual tiraram ouro há tempos marcava o fim do terreno. Bem encabadas, as foices, geralmente postas sobre os ombros, iam disputando espaço com as alças dos embornais em cujos seios broas de fubá de canjica e biscoitos de polvilho encontravam-se esperando o intervalo à jornada. As cabaças d’água, presas a uma das mãos e alçadas por finas tiras de couro muito bem trançado, eram sacolejadas pela toada matinal.

A robusta vertente que se desprendia do rio e ofuscava as demais, pequenas e com minguada pujança, caminhava por sobre a areia e seguia na direção de um declive não muito acentuado, mas um declive, e era dividida, não se sabe o porquê exato, em duas menores quase idênticas entre si em volumes e feições, formando a imagem que, vista do alto, correspondia ao extenso ípsilon azul, grafado pelos caminhos que águas percorreram vezes sem conta, que, segundo diziam alguns dos antigos moradores daquelas terras, teria sido responsável pelo batismo (antonomásia ou perífrase?) da fazenda a que chamaram forquilha. Ípsilon? Obra de um poeta concretista e afeito a quefazeres das vanguardas? É um artista plástico elegendo a terra como matéria prima? Não sulcassem as águas o hieróglifo sobre os descampados, qual poderia ser o nome daquele torrão? Talvez esse mesmo, se outra for a razão que o ampare, como indica o sussurro de Deolindo, “Já que no terreno existe uma paineira há tempos e que os maiores galhos dela constituem uma forquilha, meu avô deu esse nome à fazenda”.

Após, Deolindo, de pé e sozinho na sala da casa, sorriu e caminhou até à janela que dava para os pastos e, pondo-se a olhá-los, não perguntava a si se não os deveria atingir por sentido diverso da visão, valendo-se do tato, por exemplo, para destrinchar as camadas verdes da lã com que fora feito o tapete – que remetia àqueles tecidos em Arraiolos e Passa Tempo – de cujas beiradas azuis e cristalinas um frescor d’água estumado pelo vento saltava e atingia o rosto contemplativo e anoso. Debruçado no peitoril de madeira, o homem direcionou os olhos às flores vermelhas da árvore que nomeara(?) a fazenda e julgou-as repetitivas, notando que elas sempre vestiam o madeiro por meio de iguais formas, tamanhos e cores: “o que há de novo por aqui?”, pensou. A resposta, como se a natureza lhe tivesse escutado o questionamento íntimo, veio de um joão-de-barro; não do canto da ave, pois este, repetido por séculos e séculos, era incapaz de inaugurar algum saber, mas do gesto arquitetônico com o qual o pássaro, voo após voo, viajando da margem do rio até à árvore, ia fazendo para si mesmo uma morada sobre o galho mais robusto encontrado: uma construção nova, formada, porém, de barro antigo.

O nevoeiro, cortinando tudo o que se lhe pusera à frente, aos lados, acima e abaixo, cobria, é certo, com menor vigor as gramíneas espezinhadas e rentes ao chão e ia aos poucos se afastando das copas das árvores; a cor cinza que o regava oferecia lugar ao azul com o qual o céu gracejava tímido aos olhos do homem, o que era arranjado graças aos esforços postos sobre os pincéis que o vento mergulhara na tinta que, depois espalhada em cima das longas telas da manhã, prevaleceu por longa fração de tempo. É certo que, em se fracassando a aquarela azul e sóbria que espantava o mau tempo, isto é, repleto o céu de nuvens tempestuosas e pouco afeitas ao calor enviado pelo sol àqueles trechos de terra, poderia chover bastante em toda a região, verificada, ademais, a aparência sisuda com que a névoa parecia resistir aos riscos que o vento insculpia com voracidade disfarçada.

E se chovesse? Se chovesse, abarrotados de água o rio e as vertentes dele saídas, a natureza faria desaparecer, ainda que provisoriamente, a letra (ou seria a palavra?) ípsilon, imitando o exemplo de alguém que, no curso do aprendizado das primeiras letras, grafa signo estranho à convenção, o que, em verdade, faz com que não seja grafado signo algum e introduz novidade a um só tempo. E a tal escritura não estaria colocado nenhum empecilho, pois aquele curso d’água não reparou no fato de que, sendo ele idêntico a um ‘Y’, as pessoas jamais o nomearam assim; contudo, ampararam-se na imagem desenhada ali, sobre a terra, para, talvez, alcunhar a fazenda que não se assemelhava a uma forquilha, tampouco a um ‘Y’. Naquela manhã de sábado, sem saber se a neblina anunciava chuva, Deolindo imaginou, “o nome, o nome é imposição útil. Posso dizer as palavras ‘chuva’ e ‘rio’ e não confundi-las, apesar de ambas serem feitas d’água. Compreendi?”.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367