Subversa

Cativos do infinito: o amor em Duras | Carla Carbatti



Quisera propor um esboço teórico do amor em Marguerite Duras. Mas, hesito, visto que as questões teóricas estendem armadilhas: nos forçam ao saber e suas respostas. Da frase dita, então, fiquemos  somente com o querer. Iniciemos, pois, com esse gesto. No entanto, estejamos atentos, cuidemos para não cairmos no domínio da vontade, do poder; digamos, assim, quer-se-me (e nesse ‘se’ operam as impulsões desejantes fazendo-nos intuir que é para o exterior onde devemos nos dirigir); isto é, algo, alheio ao meu arbítrio, afirma seu tremor em mim. Comecemos com essa perturbação, esse desamparo. Desde aí é possível escutar Duras sussurrar: Donde pode nascer o amor? Talvez de uma súbita falha do universo, talvez de um erro, nunca de um ato de vontade. Fora do domínio da vontade, o amor é algo que nos acontece. Não tenho escolha, se amo, devo procurar Duras nessas fraturas da superfície, chamá-la de desmesura, de distância, e percorrê-la sem ânimo de fundação. Assim, o encontro dá lugar a conexões com o infinito, a inundações de afetos. Desabe ou gozo, de todas as formas uma excitação, uma convocação ao fora, um extralimite. A falha é um excesso.

Começar nessa fenda, nesse meio, no entremeio; o amor, diz Anne Carson (2015), fica sempre no meio, entre uma visão súbita e um ponto cego. Atravessar esses dois espaços enlaçando-os, porém fazendo visível a(s) diferença(s), é a cinesia erótica. Que sei de Duras? Afetos marítimos, ritmos desejantes, rasgos de dor, sopros de solidão. Que não sei de Duras? De que maneira esses afetos, ritmos, rasgos e sopros me transfiguram. Escrevo essas mutações, esses entrelaçamentos, esses nascimentos: regueiros de intensidades: superfície viajada e viagem ao mesmo tempo: esse tecido amoroso.

Com as mãos, com os dedos, com uma energia física abro o livro, L amour. Estão ali três figuras: um homem (o viajante), de pé,  que olha com o extravio dos olhos; um homem que caminha como a mudança da luz; e uma mulher grávida, sentada, esperando de olhos fechados formando um triângulo, um triângulo dinâmico: devido a que o homem caminha, constantemente, com uma lentidão regular, o triângulo se deforma, se reforma, sem romper-se. Aqui está a estrutura instável e triangular do amor em Duras. Mas vejam, se essas figuras – figuras em sentido barthesiano (1997), qual seja, a energia do enamorado fazendo seu trabalho; ou ainda, o abalar do corpo; de outro modo, a figura amorosa é ao mesmo tempo força coagulada e o estéril, o engendrado, o inconsumível, portanto, sem figura, em transfiguração – estão conjugadas pelas tênues linhas de força que as coordenam formando um arranjo triangular, estão ao mesmo tempo separadas pelas lonjuras que as mediam: o mar, a noite, a luz, o silêncio-grito. Em outras palavras, o amor envolve um conflito de limite entre tentar alcançar e não capturar.

Chamarei a esse  vivo e paradoxo confronto de tensão. Num espaço tensionado tudo é passagem, densidades vibrantes, enigmas partejantes, já que o desejo não pode ser acomodado, compreendido. Não por acaso os quatro elementos que cruzam e entrecruzam o texto, o espaço, são o mar (o incessante, zona de intensidade contínua); o grito (que ocupa o vazio, que lacera a luz promovendo uma demora que torna visível a história); a luz (que está sempre variando de intensidade, ora cambiante, ora detida, ora iluminante); e a noite (que se apresenta como um roer incessante na matéria escura, como uma extensão ilimitada).  Assim, um movimento luminoso, um ponto sem repouso alimentam o abismo de sal. Por isso Marguerite diz que essas três figuras rodeiam S. Thala – estranha cidade de areia e vento que parece ser formada ao sabor das atividades dos amantes – sem penetrá-la. Por isso, além do cais, outra cidade, muito mais além, inacessível, outra cidade, azul, que começa a salpicar-se de luzes elétricas. Depois de outra cidade, outra mais: a mesma.

Cuidemos para não aceitarmos facilmente que quando ela diz que é a mesma cidade, esteja indicando a tendência amorosa de desfazer o triângulo convertendo-o em uma figura de dois lados espelhados e complementários, portanto, em um campo totalizante e unitário. Ela está indicando justo o contrário, que a estrutura triangular não pode ser desfeita, uma vez que é ela que sustenta a experiência tensora, ou seja, a diferença que possibilita o fluxo erótico. O tensor é o esforço de uma forma que está se fazendo e, no entanto, não se completa, persiste como força (e aqui evoco a noção nietzschiana de força, como engendramento de uma diferença) e movimento.

A disposição trígona aponta para seu fora e corre sobre essa linha, sobre essa membrana libidinal que não cessa de inventar-se e borrar-se. Poderíamos dizer que, paradoxalmente, o amante é cativo do infinito: O viajante sentou em frente a uma janela aberta em uma habitação. Se encontra aprisionado em um volume de luz elétrica. Não se vê o que há além da janela desse lado do hotel. Se o desejo não tem medida (janela aberta), não tem igualmente limite; entretanto, faz com que o amante se situe no limiar (janela); e o limite do espaço, dirá Merleau-Ponty (2013), se constitui vibrando, é na borla que vibra a contingência, campos anônimos dos sentidos e da Natureza; ou como dirá Barthes, o corpo do enamorado é todo ele arrastado, inundado de Natureza. É aqui onde o limite do corpo e os cataclismos do pensamento se emaranham (e como não lembrar Deleuze quando diz que o amor é a violência que força a pensar). Amar é arrastar o pensamento às correntezas do impensável. O amor é um delírio, é sair dos sulcos, das marcas, dos trilhos; o amante, por sua vez, não tem referência. Lembremos que os personagens de Duras vagueiam na superfície de um abismo de sal. São quais-quer pulsando nesse ponto cego, fértil. A perspectiva individual perde lugar, já que o amor é a comunhão do desconhecido e do indeterminado (por isso, mesmo no ilimitado de uma janela aberta, o amante não vê nada além, ele crepita na beira, na entrada de um mundo incipiente, diante do qual o horizonte se abre: aí é preso e exorbitado). Reparemos ainda que seus personagens, sem nome, não são individuados, quase não têm história, têm, mais bem, funções: ver, caminhar, esperar [a esperança, nos indica Blanchot (2005), diz a possibilidade disso que se escapa do possível]; são processos que se produzem no espaço, que produzem espaços e suas relações são eventos que movimentam constantemente a tessitura de S.Thala; são, enfim, singularidades que ao expressarem a força, a energia, a intensidade de suas ações, ocasionam intersubjetividades sem sujeitos:

O homem que caminha mostra ao seu redor a totalidade, o mar, a praia, a cidade azul, a branca capital, diz:

– Isto é S. Thala, até o rio.

Seu movimento se detém. Depois, seu movimento se repete, mostra de novo, mas com mais precisão, ao que parece, a totalidade, o mar, a praia, a cidade azul, a branca, depois também outras, outras mais: a mesma: e acrescenta:

– Depois do rio também é S. Thala.

Deleuze diz que o amado, uma vez que está implicado, envolvido por signos, afetos que nos são desconhecidos, exprime uma pluralidade de mundos possíveis (a cidade azul, a branca, depois também outras, outras mais) que o amante quer explicar (tenhamos em conta o sentido etimológico da palavra explicare, tirar as pregas, as dobras; ou seja, desfazer as pregas, desdobrar). Mas, segue Deleuze, não é possível explicar esses signos e afetos que implicam o amado sem desaguar em mundos que se formam em nós. Explicar os signos e afetos do amado, dessa forma, nos exige implicá-los em algo embrionário, desconhecido em nós. A explicação é um movimento oscilante entre dobramento e desdobramento, sombra e luz, desabrochamento e abrochadura. Duras traduz essa dinâmica através das agitações que recorrem as águas. Desse modo, não só S. Thala se faz, desfaz e refaz nas turbulências das desembocaduras, nos desgarrões de água, nas misturas das forças da água ou no brusco ascenso do sal ao sonho; provocando variações matéricas nos amantes:

A tormenta afundou seus rasgos; A tormenta enegreceu seus olhos; De repente, com ele, o iodo do mar, o sal, o fulgor azul dos olhos em pleno dia, da noite plena.

Como uma visibilidade se forma a partir de uma turvação (uma inarticulação que torna possível as articulações):

Um grito foi proferido e se escutou no espaço inteiro, ocupou o espaço. (…). A história começa. Começou antes do caminhar pela margem do mar, antes do grito, do gesto, do movimento do mar, do movimento da luz. Mas agora se faz visível.

O espaço, quer dizer, aquilo que conecta e separa os amantes, como vimos, é um roer incessante, uma variação intensa constante, uma uma extensão ilimitada; passagem daquilo que antecede para aquilo que sucede: como a eletricidade ao longo do fio. Eros, comenta novamente Carson, é uma história na qual interagem o amante, o amado e a diferença entre eles. Para não anular a diferença, senão comunicá-la, é necessário o circuito triangular, onde os três elementos se complicam (complicare: con-: junto; plicare-: dobrar) numa espécie de eletricidade que faz visível as diferenças (dis-: separação múltipla; ferre– levar. Ou seja: pôr à parte, despregar, descomplicar) por meios dos fluxos (implicação-e-explicação; sístole-e-diástole).

Quando Duras, diz que os amantes estão aprisionados num volume de luz elétrica (no caudal e na carnadura do desejo) ou na espessura de S.Thala, não estaria sugerindo que o amor não tem origem (não se pode dizer onde ele começa – o que seria impor-lhe um fundamento, uma explicação a priori ou exterior às experiências, às disposições das forças em jogo no processo amoroso) nem futuro (o que seria capitalizar – outorgar uma finalidade – suas incalculáveis pulsações)? O amor, insisto, é aquilo que nos acontece, nos remete a im-possíveis que nenhum saber(domínio) pode sediar. O amor é aquilo que não (se) sabe; aquilo que permite saber não saber. Marguerite parece nos levar a essa direção quando menciona que além do rio está a prisão (a verdadeira prisão) de S. Thala:

Há que cruzar o rio, está perto da estação, entre os dois braços.

– O que há ali?

A prisão de S, Thala, seu governo.

O amor se imobiliza, sai de circulação, onde há  uma governança (com seus dispositivos de controle). O amor é anárquico. Não há amor que não seja um combate a toda forma de domínio e unidade, que não seja a alegria da  impermanência e da fragilidade. De modo que, quando o homem que caminha (o desejo), pela primeira vez penetra na espessura de S. Thala (intento de fundação), a mulher (o ponto cego, o inacessível) anuncia que esta noite ele deve prender fogo no centro da cidade. E num gesto aberto, de uma ternura desesperada, ela diz, murmura:

– S. Thala, minha S. Thala.

E voltando-se com o rosto tapado até seu amado, pousa sua cabeça no oco do seu braço, sobre seu coração, como uma delicada semente que tateia a terra escura de uma nova floração. Ambos seguem aí, nesse espaço recém-nascido, o mesmo: oco e palpitação. Seguem as modulações secretas da noite de S. Thala, de suas primeiras chamas. Seguem aí, frente à luz, na noite titubeante, compartilhando o espanto.

O amor é sem saída, é um circuito, um curto-circuito, é correr o risco. Exige, portanto, incomensuralidade e inconclusão. Não se entra no território de outrem, simplesmente deslindamos sua pele perdendo a nossa pelo caminho: o roce produz um lugar intempestivo e anônimo: é esse o lugar que os amantes compartilham. Mas, se não há saída, há, como vimos, conexão entre os territórios desconhecidos dos amantes – exemplificado na bela metáfora do volume elétrico; bem como na criação de uma cidade de areia e vento (uma comunidade imanente), S. Thala -, sem que haja, no entanto, apoderamento; ao contrário, há um percurso incansável por esse espaço-comum-de-nenhum, pelo pathos da distância, para usar a bela expressão de Nietzsche,  sem nunca açambarcá-lo:

– Amor

Os olhos se abrem, olham sem ver, sem reconhecer nada, depois voltam a fechar-se, regressam à escuridão.

É certo que a estrutura triangular encarna o anseio de com-preender o desconhecido (o pulso do desejo). No entanto, como tensão e paradoxo, ela atua como um complexo de resitores: limite e passagem ao mesmo tempo. A relação amorosa, se verdadeiramente se trata de uma relação, necessita de extensões opacas (o outro nunca é totalmente abarcável, qualquer aproximação se dá por lacunas e clivagens, por não-concidência e diferenciação), de resistências que ralentem o fluxo absoluto do desejo. Sem tal resistência, o desejo seria total destruição. Tal resistência, se alimenta dos espasmos (passagem pelas extensões opacas) do desejo. De modo que o desconhecido estende, insaciável e lentamente, seus limites incitando-nos a ir além dos limites [persistir no latejo, sustentar o lampejo do acontecer (-se)], no rastro de um fulgor que não deixa rastro, que se oferece como um instante suspenso de visão (in)s-urgente:

O viajante olha: os olhos, em efeito, se abrem cada vez mais, os párpados se separam e, em um movimento imperceptível devido à sua lentidão, o corpo, todo inteiro, segue os olhos, se volta, se situa em direção a uma luz nascente.


Referências:

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997.

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

CARSON, Anne. Eros: poéticas del deseo. Madrid: Dioptrías, 2015.

DELEUZE, Gilles. Proust y los signos. Barcelona: Anagrama, 2006.

DURAS, Marguerite. L amour. Paris: Gallimard, 1992.

DURAS, Marguerite. El amor. Barcelona: Tusquets, 1999.

DURAS, Marguerite. O amor. Barcelona: Queluz de Baixo (Portugal): Presença, 1999.

MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosacnaify, 2013.


CARLA CARBATTI | lispectorluz@gmail.com

 

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