Subversa

Assim falou o Bolsonarista-Raiz | Felipe G. A. Moreira


“Máscara”, Ron Mueck, 1997

Uma objeção tradicional aos diálogos de Platão é: os interlocutores de Sócrates quase não falam. Quando eles falam, eles só dizem banalidades ou concordam com Sócrates.

Eles dizem: “oh, sim, Sócrates. Oh, Sócrates, me diga mais. É incrível, Sócrates, você está tão certo sobre tudo. Sério, Sócrates, como você consegue ser tão incrível?”

Acho essa objeção pertinente. Mais importante: não quero que me façam esse tipo de objeção. Logo, nessa coluna, eu vou atribuir ao Bolsonarista-raiz uma visão um pouco mais sofisticada e, por assim dizer, `neo-tomasiana`. Eu vou responder aos pontos conservadores colocados aqui nas próximas colunas. Mas não nessa.

Nessa coluna: naquele tempo, num bar em Ipanema lá depois das 3 da manhã falava o Bolsonarista-raiz. Assim.

Primeiro, vai te fuder uma vez.

Considere esse teu próprio poema ready-made: Mr. Catra. Você fez esse poema a partir de uma coletânea de versos do Mr. Catra. Considere vários critérios tradicionais para se ajuizar sobre poemas. Estou pensando em critérios que você mesmo comentou na sua coluna sobre o Antonio Carlos Secchin: acordo com o belo, acordo com o sublime, acordo com o choque. Considere mesmo um critério não tradicional que você também comentou: acordo com a autoconsciência.

Esse teu `poema` aí, Mr. Catra, ou qualquer letra de funk, viola todos esses critérios. Logo, mesmo se eu te conceder que essas letras são poesia, elas não têm valor estético. Logo, insinuar, como você fez na última coluna, que essa merda aí importa e diz algo que importa que a poesia das escrituras não diz é, sim, de cair o cu da bunda. Você é um tombador dos cus das bundas todas! Rá! E, por favor, não me venha com aquele papinho furado que só porque é coisa de preto, pobre, favelado tem valor. Não me venha com o mimimi, gu gu dá dá, buá buá, de cotas estéticas.

Eu vou dizer é que… Peraí, o Bolsonarista-raiz me interrompe. Nisso, ele diz que. Eu quero falar mais! Eu quero dizer mesmo que, segundo, vai te fuder uma segunda vez com mais força ainda. Isso porque as normas tradicionais de gênero precisam ser aceitas, caso contrário, caos moral. Em outras palavras, eu tenho um argumento de `ladeira escorregadia`. Esse aqui.

Você começa aceitando que a mulher pode trabalhar fora de casa. Você aceita que ela não precisa mais cuidar das crianças. Okay, lacração. Mas, aí, você aceita que a mulher não precisa servir ao marido. Porque, para tanto, sei lá, ela precisaria se sacrificar como Sarai-Sara virtuosamente fez e isso meio que é coisa de “otária”, para falar como Mc Carol. Okay, lacração. Mas, aí, você aceita que a mulher pode ter relações sexuais com outras mulheres. Okay, lacração. Mas, aí, aonde você para?

E se a mulher trair o marido? Se ela tenta humilhar o marido publicamente? Se ela plagia e publica poeminha para tentar humilhar o marido? Pra dizer que o marido tem que se suicidar? Se ela difama o marido? Se ela quer envenenar a comida do marido porque ele, sei lá, não aceitou alguma coisa que ela disse? Isso também é okay? Isso é lacração? Eu diria que não.

Eu diria que essa, propriamente falando, vagabunda… E, olha, que se fodam os politicamente corretos! Porque o nome desse tipo de mulher é vagabunda, piranha, cadela, porca, traíra, puta, vaca… Ela tem mais é que se foder mesmo. Ela tem que ser punida e não venerada. Enfim, e se a mulher matar o marido? Isso é okay também? Se a mulher quiser estuprar crianças? Isso é lacração? Veja lá a Mc Carol falando que vai tirar a virgindade de meninos de 15 anos. Eu digo que isso é crime, um dos piores. Logo, para evitar descer a ladeira escorregadia, não devemos atenuar as normas tradicionais de gênero. Caso contrário: caos moral.

E, no caos moral, todo mundo está na doença; homens femininos doentes, mulheres machinhas doentes, etc. É isso aí que a poesia metamodernista está propondo?! Um Parque onde literalmente tudo é permitido? Mc Melody fazendo pornô light é legal? Eu prefiro ficar com a poesia das escrituras. Eu prefiro as poesias medievais de Dante e de São Tomás de Aquino. Mais recentemente: eu fico com a poesia de Bruno Tolentino.

Posso falar agora? Não. Porque eu quero dizer ainda que, terceiro, vai te fuder com força total pela terceira vez.

Eu te conheço desde o útero. Você pode bancar o `queer` com os viadinhos de Letras. Mas eu te conheço. O que você procura é uma mulher feito Sarai-Sara. E nem vem que não tem. Você é tão `queer` quanto um estuprador de jovenzinhas em flor! Mais importante, considere: “não te aproximarás dum homem como se fosse mulher, porque é uma abominação” (Levítico 18:22).

Você sente que isso é o caso tão fortemente quanto eu. Eu sei. E todo homem que sente isso, procura Sarai-Sara. Todo homem que não sente isso é uma abominação. E Sarai-Sara é a mulher ideal. Ela está lá para você. Ela se sacrifica por você. Eu diria mesmo que uma mulher tem mais ou menos valor tanto quanto ela mais ou menos participa numa espécie de Ideia de Sarai-Sara. Você mesmo. Você mesmo, no fundo, crê nisso. Teu pau crê nisso. Isso é o teu natural.

Você já dizia lá no Parque em 2008 que “ai, como deve ser bom ser amado por uma italiana”. Por “italiana”, você queria dizer uma Sarai-Sara. E todas essas tuas questões com “E.”, depois “T.”, agora “I.”… Está sempre lá nos teus próprios textos, você está sempre falando de uma variação de Sarai-Sara de modo mais ou menos inconsciente. Tem algo de conservador na sua obra que só um leitor mais sofisticado vê.

Você, no fundo, quer uma Sarai-Sara que diga que é tua, a porra dessa minha bucetinha, é tua, é tua… Você é o dono, o mestre, o doutor, o Hegel da minha bucetinha do mundo todo…

Para não dizer. Já dizendo: você nunca foi num baile funk. Você morreria num baile funk. De vulgaridade. Você tem nojo dessas cachorras que `superaram` Sarai-Sara. Você nunca meteria numa Mc Carol da vida. Você nem conseguiria. Quantas arrobas uma puta obesa dessas pesa? Rá! Pelo amor de Deus, você é fã de Radiohead. Você é um amante da ópera! Poesia metamodernista é mais elitista do que poesia de reconhecimento (ou, como eu prefiro colocar, poesia de burguês broxa cansado-esquerda caviar) ou modernista fracassada (ou, como eu prefiro colocar, poesia lacradora pra dizer que não pode chamar macaco de macaco, piranha de piranha, viado de viado…)!  

Quem é que entende o que é poesia metamodernista fora de elite, sério?! Essa porra que você faz é super-elitista!

Você é de Ipanema! Nós estamos na Garcia D’Ávila! Você morou em Miami! Aonde você está morando agora? Bonn? Eu… Foda-se. Você mora fora do país tem quase 10 anos. Você é dessa tal dessa elite branca. Mas eu não sou da elite, caralho! Eu sou classe média! Foda-se. Que seja dessa tal dessa classe média branca!

Não tem como você valorizar macaquice de funkeira! Você não me engana. Você tem tanto nojo de funkeira macaca quanto eu. Ou seja: só um pouquinho. Rá! Glú Glú! Só um pouquinho porque sempre dá pra meter mesmo numa bucetinha de crioula dessas, numa Agar dessas, pelo menos nas mucamas magras, nas Isauras, nas quase brancas. Apesar do cheiro delas. Você sabe como essas macacas cheiram né?! Eu sei que você sabe, porque todo homem que se preza já meteu numa escravinha coisa e tal. Isso faz parte de ser homem. Isso é coisa de português, coisa e tal.

Já sei que vão dizer: você está sendo racista. Okay, pode tirar os termos “escravinha”, “crioula”, “mucama”, “macaca”, etc. Coloca “afrodescendente” na edição final. Rá! Rá! Glú! Glú! No cu pardal! Se você aceitar tirar, eu vou dizer que você é hipócrita. Um poeta do reconhecimento!

Mas… Peraí, o Bolsonarista-Raiz me interrompe, sou eu quem tem que dar uma mijada agora. Ele levanta e diz que. Espera aí. Eu gostaria que, nisso, você pensasse nas `almas delicadas`. Essas que vão ficar ofendidinhas porque você me deixou falar numa coluna inteira. Gente que vai dizer que você está legitimando o `fascismo` como se a minha fala precisasse dessas tuas colunas de merda (que ninguém nem lê quanto mais entende) para ser legitimada.

Como se a minha fala já não estivesse no poder. Como se, em suma, quem me legitimasse não fosse a maioria do povo do Brasil que elegeu Jair O Messias Bolsonaro democraticamente. A maioria mesmo dos macaquitos, coisa e tal… Rá! Ie Ié! Glú! Glú!

E, olha, os viadinhos vão ficar `ofendidinhos` e nem vão entender o que eu disse. Muito menos o plano geral dessas tuas colunas. Me diz depois quem respondeu ao desafio de ler essas colunas. Desafio de cu é rola! Você sabe! A única pessoa que vai ler essa porra até o final com atenção e com espírito escolástico vou ser eu! Os leitores do futuro vão ler! Os filhos, os netos dos poetas do reconhecimento e modernistas fracassados do presente vão ler!

Ahaha! É, vai nessa! Fazeis me rir, doutor! Você sabe muito bem que a maioria das pessoas da `esquerda`, mesmo gente com doutorado, não consegue me responder. Ao menos, não para além do blábláblá, `Lula livre`! Quero dizer: para além das palavras de ordem repetidas com tom autoritário, ou repetindo clichês de autoridades francesas ou alemãs de modo desconexo para enganar os que são piores que vegetais.

Mais: você também sabe como essas `almas delicadas` são democráticas até o momento que o outro aparece. Aí, elas não querem mais dialogar. Aí, elas bloqueiam. Aí, elas agem como um desses viadinhos que você despreza tanto quanto eu. Aí, elas cospem na tua cara e saem correndo.

Mas… Peraí, tenho que mijar… Xo, Xo… Pede outra Franziskaner, aí, para ficar bem `classe média`.


FELIPE G. A. MOREIRA é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Paulo 7 de agosto de 2019 em 09:11

    Realmente nossas contradições nos alertam que há algo de errado dentro de nós. A caminhada é árdua, cheias de espinhos, Mas caminhar com recalcitrantes de espírito o sofrimento é dobrado.

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