Subversa

Às vezes, esôfago | Astronauta de Pulôver Azul Neon

Ilustração de Lila Bitten

Ilustração de Lila Bitten

às vezes me pego naufragando
cultivando velhos hábitos
televisão ligada para dormir
porta aberta para escovar os dentes
naquela espera ingênua de que venhas
dividir a pia o creme dental a água a saliva comigo

com frequência alguém relembra teu nome
é tão comum que chego a sentir raiva
em toda parte em todo sorriso infantil
na saída da escola na fila do banco
sinto raiva da falta de criatividade dessas mães
mas não sinto raiva de ti

às vezes me pego falando sozinha
ouvindo minha própria voz
nem eco nem assonância resposta alguma: reluto
mas a verdade é que não existe mais
dicotomias nem morfema zero –
para onde foram todos aqueles traços e gestos?

a caridade das freiras tem sido artigo raro
no mercado só me resta o outro lado
para lá de lá onde abriga toda tua ausência
abandonar os livretos e as regras gerais da língua
primeiro passo

de resto, preciso perder o costume
da solidão compartilhada
admitir que tenho sido bem mais dinâmica
representativa e harmônica quando sou
toda minha sem pausas lapsos e freios frouxos
para aventuras em pistas escorregadias

tenho hoje as mãos soltas pendendo flores
plenas em sua desnatureza arredia
a felicidade triste do meu esôfago
voltou a redigir poemas
de fato, aqui estou


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa| FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR

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