Subversa

As Pessoas do Drama (H.G. Cancela) vêm no fim | Cláudia Capela Ferreira


“A Avenida no Parque Saint-Cloud”, Henri Rousseau (1908)


Não há narradores honestos, ou, antes, a honestidade de um texto convoca unicamente a voz que o narra. Como tal, a imagem e a palavra que possa, afinada ou rombamente, assemelhar-se à perceção desse fenómeno – querendo, chamemos-lhe real – é, parcialmente, a apreensiva aproximação ou antecipação do toque de um objeto de desejo.

Se o mundo é violento desde que o é, violento e mundo, nada há de novo sob o sol desde a Bíblia, a Antígona que vimos adivinhar no livro de H. G. Cancela, As Pessoas do Drama (2017, Relógio D´Água), não é verdadeiramente uma atualização ou releitura da tragédia senão enquanto validação de um pressuposto de reiteração convicta era após era. A repetição e frequente simulação de representação (e uma representação é-o só ou mestria de fazer mundo?), essa mesma a verdadeira tragédia a que o comum, por melhores intenções que possa ambicionar, não pode escapar, subvertendo em grande medida o papel que lhe fora registado à nascença nessa categoria de homiziado. De facto, se as ruínas do grande império romano efetivam grandeza, jorra delas o sangue derramado no afilamento e doma da mesma. A ruína não convoca liminarmente a cultura sem que a esta lhe seja ilegível um princípio dúbio e duplo de negociação de perdas paralelas ao aparente cercear de um estado selvático. Na verdade, uma palavra é-o e o seu contrário. Ora, esta capacidade repressivamente reorganizacional, umbilical, centrífuga, opera num sistema de decalque involuntário – ou não – circular e trangeracional. O sangue é, em grande medida, um líquido espesso à laia de ruína e veneno. O que há, portanto, de selvagem na construção de um estado (maiusculizado, se quisermos) sobre o anterior?

Não me parece que a obra em leitura de H. G. Cancela revalide um princípio de fundo anarquizante enquanto sistema, embora dele ou da centelha do caos não deixe de se filtrar a partícula mínima fundacional do formato humano. Neste caso, o princípio humanista parece desvelar-se questionável pelas suas derivações iluministas ou cartesianas totalizantes. Ainda assim, é fundamental a representação, qualquer coisa que, se não totaliza, adverte.

Um homem planta uma cerca. Protege-se ou protege os demais de si mesmo? Um rebanho, volvidos os meses, vem sedentarizar o homem desconhecido que recebe um monte por herança, sem que possamos para já percebê-lo, além ler-lhe de uma misoginia nada latente e toda gloriosamente saboreada e por isso consciente, formatadora de uma mudez autoimposta na medida em que nada do que se possa dizer circunscreve totalmente a noção de si. Este rebanho é protegido, aparentemente, pelos atilados cães, move-se em surdina, como um corpo, potencial matéria fecal em decomposição breve. Esta metáfora bastava, embora talvez de forma maniqueísta, para firmar luz sobre o arremesso constante para a perceção do mundo e da pessoa, dramatis, quanto à máscara de cão, lobo ou ovelha, no caso, cabra. A ordem ou o bem, a organização, assenta, no mais das vezes, num princípio de oposição de vontade hierárquica cujos dentes não deixam de arremedar insólitas fraquezas traduzíveis por meio da violência.

Ora, este homem, o que narra, faz-se agressor consciente, como declara, culpabilizando o seu carneiro sacrificial pela violência agida sobre o seu corpo. Isto é, entre a realidade, a sua vivência factual, e uma imagem, que pode ser uma memória sugestionada amplamente pela visão de um filme, o narrador alcança o estado de prazer, ou, em vias de, antepõe a trama, sem que nos apercebamos inteiramente dela, embora a sugestão da memória, a par do olhar, nos delegue com alguma razoabilidade o ponto de partida para o que se segue. De facto, esta interposição da imagem entre o palpável, a matéria, e a idelização, a antecipação; enfim, a fantasia crismada nos olhos, seja ficcional, seja recordada, – num duplo movimento, de futuro, ou de passado como recobro – funciona como excitante voyeurista do que foi, terá sido, ou vier a ser(?). A questão parece difícil: estamos condenados, conscientemente, à repetição daninha das perversões voluntárias?

A objetificação da mulher, prefigurada essencialmente na personagem Laura Sperelli (nome de bispo e de pasta; tal como Arborio, o sobrenome de outra personagem, a onomástica é gastronomicamente paródica, como se a personagem o fosse sempre só) evidencia, a par das demais por continuidade, especialmente na figura da mãe daquela, um exercício contínuo de enraivecida violência sobre a mesma. De uma forma geral, é a figura feminina, na extensão da declinação linguística e simbólica na figura da mãe, da filha e da amante, que impulsiona o drama. Quero com isto referir-me ao facto de, neste livro, auscultando a história, a mulher aparece implicada num resultado que lhe é quase inteiramente externo. Não se fazem subalternas, mas a raiz da sua mácula – a haver uma, e esta mácula é inteiramente civilizacional –, coloca-as num patamar de cegueira, incapazes de se referir claramente ao seu objeto de protesto. Balbuciam sem saber de quê. Secretamente, nota-se, por parte dos homens do livro de Cancela, a fome, essa necessidade de fazer dobrar o pescoço e deixar, avisadamente (e o trágico decorre dessa noção de não se impedir os dentes atempadamente) cravar e absorver o sangue como, enfim, os cães passam a fazer aos úberes das cabras e às crias. Não havendo verdadeiramente lugar para a redenção, a não ser talvez se a cria for masculina ou a caminho de uma dubiedade nomeada, se possa combalidamente cercear a sofreguidão do apetite.

Este homem emudecido viaja ao encontro da atriz do filme que o excita, Filippo é o encenador misógino e mitómano, viciado; Victor é um pastor mudo, e como a Mãe e Andrea, virá depois; Laura é uma atriz representando Antígona cega e grávida. A peça, que, eventualmente, poderá vir a ser substituída por uma nova produção de Electra, confronta-nos constantemente com a leitura equivocada do mundo e do palco. Por outro lado, refere-se à noção de culpa e perseguição das gerações; como o que pode o pó da palavra senão ornamentar ou ela mesmo favorecer o ato? Gesto ou iminência do real? São múltiplas as questões e as posições simuladas de resposta num verdadeiro banquete metalinguístico, verdadeiramente fundamental para que se lide com o princípio de duvida que nos leva a acreditar num discurso, seja ele qual for, dentro e fora do teatro, anfiteatro, circo, fórum, templo. A romanização, já decalcando, deixou-nos traços inquebrantáveis dessa imperturbabilidade da palavra, desafeta de qualquer princípio de submissão ou veracidade. Basta-lhe verosimilhança. De Roma a Mérida, de Xanten a Plovdiv, a nossa herança é a da dramatização. Dessa forma, esta irrepreensível mania metalinguística não se baseia num mero exercício de superfluidade literária – às vezes necessária para pensar o mecanismo do texto, ou declinar verbos pelo prazer do som – mas de alcance de um dos pilares do texto. A vida é um jogo cujas falas muito têm de temperança e sinistra intenção. E um texto, pode tê-la? A prescrição da vontade depende da instauração da palavra? De que cegueiras nos ataviamos para consecução do prazer? Quantas cegueiras existem e de que forma umas se sobrepõem placidamente às outras?

Exercício ensaístico, As Pessoas do Drama dramatiza ele próprio o mundo, e, se não oferece vias esconsas unidirecionais, não cessa nem recria, experimenta e deixa-nos a sós com as potenciais conclusões.

Pode uma violação ser também designada de incesto? A ilicitude é o livre-arbítrio ou a moral? A linguagem do corpo obedece cegamente à gramatical? A subversão faz-se do lado interior da palavra, na recusa, ou nunca a linguagem se afeta de forma a verdadeiramente transgredir?

H.G. Cancela parece ter-se decidido a acreditar numa ordem, e fá-lo demonstrativamente quando reserva para o fim a identificação clara do narrador por meio do paratexto, como se se retomasse a vida, se anulasse o texto até aí e confirmasse o trágico verbalmente: encenador que aponta o adereço, evidenciando que talvez não haja nada fora da cercania da palavra. Por mero ludismo ou rebite no equilíbrio da relevância da linguagem e problematização das suas cercaduras e manutenção das personagens? As ações são-nos externas na medida em que o que não lemos e desconhecemos nos subjuga e nos faz agir cegamente. Uma brincadeira desse destino clássico. A identidade, enfim, repetidamente sublimada por via da simulação e impotência, ignorância, (cegueira, mudez) firma-se na ausência de filiação (Laura, Victor, Andrea), logo, no questionamento da possibilidade de viver sem um passado ou ser condicionado pelo desconhecimento ou anagnoris dele. A ancestralidade, a espessura do sangue é o que move Antígona, e repare-se como a subversão dela decalca o respeito de uma lei, no caso de As Pessoas do Drama também o sangue evoca qualquer preliminar identitário sem o qual parece impossível sobreviver e é chave para a solução que, porém adiada, encerra o imbróglio que, na verdade, não chega a existir senão como simulação dele. Na verdade, o incesto não é problema porque não é senão ressentido enquanto domínio das coisas arquetipicamente decalcadas e coletivamente incônscias – matriz do mal e de um mal-estar contínuo humano. O incesto gravita mas não fere, apenas por simbologia paralela. Em não lhe chamando nada, a palavra revoga-se do seu sentido, alastra, pende, ronda; não sendo dita, tudo se evapora e deixa os resquícios de uma solidez outrora impalpável, ainda que substancialmente e dolorosamente percetível: porque sofre a humanidade, a incestuosa fraternidade? De uma forma geral, ou universal (para usar o chavão teórico), algum dia cessa a culpa? Nasceremos sempre com o sinal de Caim?

Na esteira da tradição (se quisermos uma vez mais ater-nos aos palavrões sagrados) introspetiva, H. G. Cancela escreve para pensar, embora conte – bem contado, sublinhe-se – e como pensa, é-lhe necessário, voluntária e conscientemente, parece-me, demonstrar com clareza que a palavra é a matéria do pensamento, logo, reserva-se o direito de sugerir mas, academicamente, concluir a tese ele mesmo com a frase que a desvenda. O irónico é que, e mesmo no âmbito dos códigos e da construção narrativa em que se quer, as dramatis personae de Cancela, elas, as personagens, vêm no fim.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema. 

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