Subversa

As mãos soltas de um poema honesto | Fabíola Waykamp


“Bóreas”, John William Waterhouse, 1904.

Deixo sentir o sangue
quente correr pelas veias
todo corpo aquece

Um calor demorado
um calor de longe
um calor de há muito 

Deixo lembrar de as sensações
esquecediças no corpo tenso
na pele que só água
do banho podia molhar

Nem mesmo a chuva
tinha passagem liberada
para respingar na pele
e escorrer pela linha
do corpo o momento
repentino do toque

Deixo sentir o que escorre
sinto vertigem e queimação na pele
parece ensaio para
alguma loucura futura

Ou talvez seja somente eu
querendo amor enquanto
ainda me dou tempo
febril, porém,
antes de qualquer movimento:
honesta 

Tu me impeles o calor e a poesia
tudo me arde depois de ti
e eu não zango nem fujo

Acontece de um tudo
e desse tudo quero
mais do que sonho:
quero o viver
que deixei de lado
para seguir, sem mais

Com as mãos para de
trás das costas
carregando tudo
e me livrando de nada

Quero os braços pendidos
as mãos soltas
para poder tocar e segurar
as bolhas de sabão

Com que me fazes delirar
antes de o sono
abafar meus ouvidos
com suas mãos de continuidade

Tudo continua, sempre
nem tudo
permanece igual

Não corro mais
em direção contrária
ao canto do vento

Não uso aspas
nem ponto final


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa e acaba de publicar “Ensaio sobre a Solidão”, pela Editora Penalux. | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR | Clique aqui para ler mais textos da Fabíola.

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367