Subversa

As horas têxteis II | Giovane Adriano dos Santos


“Se gostássemos dos neologismos, poderíamos definir a teoria do texto como uma hifologia (hyphos é o tecido e a teia da aranha).”

Roland Barthes

 

“sem título”, Roland Barthes, 1974.

 


À frente da casa, o homem se balança na cadeira. O embalo do móvel sobre o assoalho gasto da varanda evoca som amargo, quase ofensivo ao paladar. Os olhos percorrem a escritura e reparam nas vozes que dela ecoam: são lidos e leem. Preposicionado, o objeto direto do fragmento de jornal ensina: ao menino lê o texto! É assim, recíproca, toda leitura. No enredo da pequena crônica que se vai desdobrando, a criança pergunta: “Vírgula? Serve a que as palavras não briguem?”. O escritor errou, porque a expressão inverossímil é encastoada para ecoar em laringes doutas, instruídas aos modos de Verney. Eu, que escrevo mal, porém reparo no modo com que as pessoas se comunicam, teria atribuído ao pequenino: “Vírgula é pras palavras não brigar?”. Talvez indagando assim os leitores se rissem; não do questionamento ou da personagem assaz crível, mas de quem o fez articular pela curiosidade primaveril. Como sei o que está escrito no jornal? Julgo que a crônica é lida, porque eu pus o olhar sobre os cadernos de manhãzinha, antes de caminhar ao supermercado, e reparei bem nas divisões do diário: realmente, a estória do estudante indagando os porquês à Professora de Português inscreve-se bem ali, no canto esquerdo ao qual o leitor direciona o rosto silente; inscreve-se no excerto folhetinesco digno do nome “coluna”.

O jornal à mão do homem é uma escritura. O que há em comum entre ele, texto noticioso, e a palavra “mudança”, que, erma, foi escrita nas laterais do caminhão guiado pela avenida afora? Não há tempo para pensar a respeito desse questionamento, tampouco para tentar dar-lhe termo exato. Uma das rodas dianteiras do automóvel invade a poça d’água, resto da chuva vespertina caída há pouco, que descansa na rua defronte da residência: cessa-se o balanço até agora fomentado pelo toque do pé esquerdo ao chão; alguns parágrafos ainda não lidos são molhados e as letras neles anotadas desfiguram-se ao passo que o líquido escorre; o chão é tingido por gotas escuras; alguns pontos das páginas exibem-se translúcidos, razão por que – há nisto alguma redundância – é possível ler através deles. Ninguém se vale de palavras para explicar o ocorrido. O motorista não sabe que inovou texto; a moça desvia-se das gotículas que vão a seu rumo, anda pacienciosa e entra na padaria da esquina; os olhos que liam soerguem-se timidamente, apoiam-se no horizonte e, como quem procura os motivos e não os pode encontrar, reparam nos arredores e nos papéis borrados. Não darei notícia dos tons daquela pequena prosa de ficção: quase nada acontecia às poucas personagens; o espaço pequeno; impossível depreender muita informação a respeito da época retratada e; seu autor pintou-a, refiro-me outra vez à obra, por meio de períodos curtos. A esses aspectos somaram-se, em contrapartida, a elegância do grande estilo, as abundantes figurações que há muito eu não encontrava em texto feito ao embalo dos acontecimentos urbanos e alguma construção sintática que guardaria raiz nos melhores autores do idioma.

Subitamente, o vestígio de texto é atirado ao resto d’água que não saltou do asfalto: a escritura se desfaz aos poucos e não deixa muitas provas de que existiu; ninguém, absolutamente ninguém, é capaz de afirmar – como antes se poderia fazer sem grande esforço – quais letras foram anotadas na coluna; com isso, inscreve-se, unicamente, que aquele objeto imerso na poça foi um jornal e que há pouco choveu com a intensidade raras vezes percebida neste lugar. Em segundos, o escrito interpretado equipara-se ao lixo, à sobra quase indecifrável do alfabeto, e dá lugar à significação que eu ou a moça que se afastou das gotículas d’água não poderíamos notar em dias de sol brilhante: quando é, afinal, que o texto deixou de ser texto? Contudo, a essa pergunta rejeito, afasto-a de mim; afasto-a, porque não é bem verdade que ela ‘indaga’: quero saber o fim do texto – se o há; se o houve –, mas assumo erroneamente que as letras lançadas ao chão eram, desde logo, texto. Em adição, as regras da narrativa não permitem que eu me coloque como personagem e diga que, ao lançar o folhetim à rua, o leitor realmente pensava que nas páginas não havia texto a ser lido, e sim a ser destruído, uma vez que, para o algoz daquelas palavras, exige-se certo contínuo da escritura, ainda que ela seja literária.

_ Oh! Acabaram com o texto. Fui impedido de ler o final da crônica.

_ Oi?

_ Não falei com você. Isso é culpa…

Quando mais eu andava pela calçada, tanto menos chegavam aos meus ouvidos as queixas que não ouso transcrever, porque não as escutei com esmero os detalhes. Aquela voz septuagenária diluía-se na imensidão citadina e somava-se a reclamos malsoantes: buzinas, sirenas, tropéis confessando pressa. Se outro automóvel fosse guiado ao mesmo rumo do caminhão de mudanças, o folhetim seria tornado completamente irreconhecível: as vozes da escritura do dia anterior silenciariam quase toda a atividade do discurso, porque as folhas eram unicamente suporte a que a linguagem, espelhada, encenasse ela própria suas possibilidades de dizer (d)o mundo. Qualquer resquício linguageiro encontrado por um passante diria a este que ali há(via) um texto: a fala proporcionaria ao leitor compreender que as páginas desfiguradas apresentam, em que pese à destruição promovida pela água,  escritura sujeita à significação. O jornal será apanhado; mas, permanecido ali, ele de outro modo pode ser lido: diz algo a respeito do homem que o jogou, da rua e, convém que eu repita, da chuva vesperal. Não é induvidoso, há tempo para efetuar reparos, que o jornal será colhido, o que se apresenta, a princípio, desimportante: repousando sobre a rua, enfatizo, ele não se põe de costas aos significados. “Eu não posso lhe informar a respeito de todos os acontecimentos da crônica”, diria a linguagem, se ela mesma falasse às pessoas. O fragmento textual não silencia; ao contrário, informa que às vezes o que se tem a dizer é pouco; pouco e seguido da afirmação implícita: “não falo além disso!”, a língua obrigaria a dizer, se ela pudesse comentar seus pontos-finais.

É possível, então, aniquilar um texto? Comentando a respeito das últimas páginas do livro do qual foi transcrita a epígrafe deste escrito, Roland Barthes responde à pergunta sobre a destruição do texto.

Este, diz o francês, não se resume, ou melhor, não se deve resumir, a trabalho pictórico ou visual, porque o texto sempre veicula um sentido, qualquer que seja o conteúdo de que a escritura se constitui. Naturalmente, o ato de lançar o jornal ao chão molhado não destrói o texto; o texto não está preso às páginas: nos próximos dias, após (e se) caminhar até à banca, o leitor poderá notar que, estando à venda os jornais de data remota, talvez a continuidade da crônica esteja lá, anotada em páginas idênticas às descartadas. Pode ocorrer, entretanto, que antes de chegar ao jornaleiro, o homem cesse o passo, sente-se no banco da praça da matriz e ouça de alguém notícias sobre o final do texto – na cidade, há muita conversa sobre literatura, há crítico de arte em cada esquina. Contudo, ainda que isso ocorra, não será pouco prudente ter nas mãos outro exemplar do folhetim: sendo possível, deve-se recorrer ao original.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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