Subversa

AMANHECENDO | Pedro Belo Clara

Entrar na manhã assim,

devagarinho,

como devagarinho se toca

o sorriso das mulheres,

o cetim das alvas flores

– sem pressa de entregar o corpo

à neblina fina,

tão fina

– o outro rosto do linho estival;

 

entrar na luz ainda frágil

como se entra em cascata etérea

e perder a memória

no silêncio dos trevos sonolentos,

na dócil candura

dum miosótis solitário;

 

entrar com cada passo

em forma de beijo à terra reservado,

libertos da espessura dos sonhos

que a noite plantou.

 

Que cada gesto que faças

seja dança de mariposa.

Então, só então, fecharás os olhos

deixando o coração ver

– só ele compreenderá

esse esplendor que recomeça

sem mancha de cansaço,

como se nunca antes

houvesse nascido.

 

Ao canto do primeiro melro

seremos papoilas

ondulando nos caprichos pueris

das mais frescas brisas.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

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