Subversa

Adequada solidão | Astronauta de Pulôver Azul Neon

Ilustração de Lila Bitten

Ilustração de Lila Bitten


até então, eu nunca tinha tido a experiência nítida da adequação. eu era uma criança sociável, até que de fácil acesso, embora eu preservasse em minha natureza a urgência da solidão. a solidão é amiga complacente, resistente a todo tipo de estranhamento, de falta de encaixe, de silêncio proverbial. a solidão é um abrigo sustentável e orgânico, do tipo condizente que elimina ausências conflitantes e extingue qualquer e demasiado nó sufocador presente nas relações. até então, como eu dizia, a inadequação era o meu tema predileto. mas ninguém do meu meio, do meu convívio social falava sobre inadequação. coisa passageira, bobagem de gente à toa. vá estudar, menina. estudei. e pela minha exigência de expurgação cristalina de todas as minhas reivindicações humanas, comecei a estudar o ser humano. deixei as anotações de lado, na época, muito provavelmente estava iniciando as aulas de alfabetização. minha palavra favorita, no entanto, era saber ler “pessoa”. saber pronunciar e reconhecer a grafia o ideograma “pessoa”. e pela solidão insurgente e transgressora, de mim para comigo mesma, eu observei, auscultei pessoas. primeiro, os da minha casa. pai, mãe e irmãs. depois, os professores e colegas de aula, minha turma do jazz, das aulas de inglês, as coleguinhas do vôlei, meu professor de música e seus dedos gordinhos e macios que faziam imenso carinho nas teclas do piano enquanto sorria em sonata para me confortar. podia ouvir qualquer manifestação ruidosa dentro de cada uma dessas pessoas. ouvia dentro. mas ouvida dentro mesmo, sem metáfora. nada de alma. era dentro. cada órgão. os pelos dos braços quando o vento batia e os arrepiavam, tem barulho ali e eu, de longe, dentro da minha cabine de comando imaginária, percebia tudo. conveniente, até então, mergulhada em tudo sem precisar me preocupar em me reconhecer nisto ou naquilo outro. mergulhava sem pressa de voltar à superfície. /abismo é meu ponto forte, pena que não tem categoria para isso nos currículos profissionais./ meu pai rangia lentamente os dentes quando algo lhe preocupava no trabalho, enquanto disfarçava a desimportância do caos lendo as notícias antes do almoço. minha mãe deixava bater as portas dos armários sutilmente ou cantarolava enquanto preparava o almoço para mostrar que não ligava para o tanto quanto se sentia insatisfeita e chateada com determinada situação daquelas manhãs de dezembro. minhas irmãs, universos à parte. cada uma em um eixo desorientado da juventude e dos desejos das maçãs. cada uma para um lado, bendizentes amaldiçoavam orgulhos na hora do café, depois dormiam juntas, no mesmo quarto, as luzes apagadas e as risadas confidenciosas atravessando a madrugada. eu, no meio disso tudo. registrava cada movimento com minha câmera invisível, e decorava para mim um papel que queria seguir. um pouco de cada um. e nada de nenhum deles. a inadequação é um pré-requisito da adolescência. ninguém vai descordar de mim, tenho certeza. mas cada criatura vive em sua intensidade emocional a inadequação. eu, mantive-me cada vez mais solitária em minhas observações. percebo hoje, nunca mencionei o desejo de me aventurar nas entrelinhas da direção cinematográfica, por exemplo. e continuo sem intenção. mas, de longe, eu coordenava cada movimento alheio e aleatório e cravava uma crítica na trajetória do destino. mudava a cena e, sem nem imaginar a necessidade disso futuramente, transfigurava as pessoas e mudava o foco para uma câmera seguinte. a ilusão romântica de um mundo ideal. diga-me aí, como foi que isso aconteceu? aquela coisa que a gente aprende ao longo dos anos, os dois lados da história. a compaixão. e eu encenava a roteirização pródiga. era, enfim, à parte de tudo. eu não era alguém. não exercia função alguma além da especulação infantil do querer saber até do que  não se pode aguentar. e eu sabia. não como funcionava um aparelho eletrônico. nunca imaginei que se eu abrisse a televisão iriam pular as pessoas ali de dentro. nada disso. minha curiosidade era estritamente científica na mais pura classificação humana. sempre foi. hoje, ainda valido minha inadequação. minha curiosidade primeira não me rendeu emprego algum, nada posso ser em justaposição daquilo que lhes convêm. o que vejo, é útil apenas para mim. não salva vidas à beira da morte, não alimenta os famintos de guerra alguma, não tem contribuição qualquer no imposto de renda. e, mesmo assim, mais de vinte e cinco anos depois de tudo o que me lembro, sigo sentada no canto da sala, no escuro do palco, observando pessoas, ouvindo de longe cada ruído orgânico entre suas membranas, ouvindo a dança das cadeiras das plaquetas, o crispar dos pelos atrás das coxas emotivas. até então, eu não havia entendido que isso, de insignificante e metaforizante de se consumir, ainda é um jeito provisório de se viver nesses tempos ásperos e ególatras, dentro dessa solidão reconhecida que ninguém ousa justificar nos jornais da manhã nem mesmo de sobrepor hipóteses e defendê-las em orgulhosas discussões acadêmicas. bendita sejas reconhecida, devastadora inadequação.


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR

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