Subversa

A personagem | Giovane Adriano dos Santos

“Postcard Visit, Buffalo”, (1970) Kenneth Josephson


“Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”

Carlos Drummond


– Não gostei do fim do texto que você publicou em março do ano passado. Terminando, o escrito é…

– Por quê?

– … uma mistificação.

– Tudo bem. É comum que a literatura desgoste a muita gente.

– Não estou falando da literatura como categoria. O que me desagradou foi a parte dos traços impressionistas; é fantasia, imaginação, sonho.

– Mas, de algum modo, é verdade que você vai aos céus, porque…

– De algum modo, sim. Ou seja, de avião. E só.

– Há textos que não são fantasiações?

– Claro que há.

Literários?

– Sim.

– Exemplo?

– Há um texto do Goethe que…

– Quero autor de Língua Portuguesa.

– Pode ser de Portugal?

– Não.

– Moçambique?

– Desconheço. Quero que seja do Machado de Assis. O texto, claro, é você quem escolhe.

– Mas, li pouco dele. Faltei à escola para assistir a um desfile, creio que perdi algumas lições de literatura e gramática.

– O importante é que o leu. Aliás, você parece ter lido tudo o que foi escrito, em todas as línguas, em todos os tempos.

– Sem mistificação, eu já disse. Sejamos pragmáticos.

– Práticos?

– Pragmáticos.

– Você é muito inteligente. É assim desde a escola?

– “Não digo também que era das mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção”. Sabe de quem é essa frase?

– Não me lembro.

– Já que estamos falando do Machado, repara que…

– Nem percebi que você já havia escolhido. Continue, por…

– … o texto é dele. Conto de Escola, especificamente.

– É uma crônica, certo?

– Classificar segundo o gênero literário não é importante agora. Se eu versificar de modo rigoroso uma prosa qualquer, conto ou crônica, por exemplo, mas manter intocados a história e o enredo, o que legitima as categorizações? Acha que alguém define a prosa ou o verso segundo os temas abordados? Exclusivamente pelos temas?

– Penso que não. Você não disse o motivo de não considerar esse texto do Machado mistificação.

– Não te parece evidente?

– Não. Você se lembra que em outro texto, ao falar do Senado, o autor disse que as visões e as retinas podem ser equivalentes para significar a realidade?

– Sim, mas isso não está relacionado ao texto que usei como exemplo. Considero o Conto de Escola registro histórico de um tempo. A palmatória, o giz, o quadro, enfim, todo aquele cenário se põe a testemunhar momento bem diverso deste que vivemos. Com tom de exagero, digo que há quase tudo naquelas páginas: trecho da geografia da cidade, a vestimenta das pessoas, as brincadeiras comuns à época. Apesar disso, o registro maior ali anotado articula-se por meio de relação mercantil, aparente troca insucedida de mercadoria intangível. Tudo isso, a mim me parece, está escrito de modo sutil.

– Como assim?

– O que o pai do narrador dizia ao menino? Lembra?

– Que muitos capitalistas começaram tímidos?

– Quase isso. Começaram ao balcão, dito especificamente, ao balcão.

– Sim. Qual a relação disso com o castigo físico, com o emprego da palmatória?

– Repara: com certeza, ainda mais diante dos olhos de hoje, a escola ali retratada é palco de horror. Não ensina pelo medo; antes, silencia pela estrutura. Nos espantamos com o castigo e, quando lemos o fragmento que narra as pancadas, somos quase capazes de sentir ardentes as mãos, como se espelhássemos, de algum modo, os sentimentos dos estudantes que negociavam. Assim, nos esquecemos de reparar nisto: a causa motriz do castigo é a venda, a comercialização, digamos, da lição de sintaxe. Quando o detentor do conhecimento sobre a regra da gramática põe-se a vendê-la, obtendo insucesso na barganha palavra-dinheiro, vai o castigo às palmas suas e às daquele que pagou pelo ensino.

– Há mais a dizer?

– Sim. Não confunda autor e obra. E mais: os diálogos me convencem somente se houver neles temas políticos.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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