Subversa

A outra vez da crônica: antes da cartografia poética, depois do signo urbano | Francieli Borges [O que o texto faz]


Fotografia: “depois do corte”, do acervo da revista.


O universo das cidades que se cria e desmorona e se levanta e se move é um dos grandes responsáveis pela literatura como projeto, como palavra-sujeito, ainda no século XIX, quando a prosa já não se pretendia história. Dentro dessas esquinas, a discussão sobre legitimidade da palavra em um contexto que se quer prédio, e que também é asfalto, é enorme e tantas vezes árido – jornal e panteão não resolvem-se, então a economia de frases e páginas, em pleno dois mil e dezoito, ainda ganha desconfiança dos puristas de outros gêneros que insistem em ignorar a dimensão da arquitetura no texto, do design no texto, da imagem no texto, enfim, das variáveis sígnicas do texto que não precisam de um rótulo concreto dentro da poesia, mas antes se manifestam em plena forma no caráter provisório e decisivo ao mesmo passo, isto é, na crônica. Provisório já que o conteúdo depende do repertório da atualidade, sempre mutável; decisivo porque exibido em figurações plenas de sentido estético a qualquer tempo.

O despretensioso sabor de ler“num lindo dia de chuva, à falta de uma boa pilha de revistas antigas”, como quis Paulo Mendes Campos, na abertura de Diário da Tarde, confere bem o tom da linguagem cronista, em uma “fusão admirável do útil e do fútil”, como já previa o jovem folhetinista Machado de Assis. E o gênero enxuto, que teve sua glória na primeira metade do século passado, aqui no Brasil, parece ganhar fôlego nessa chegada à maioridade do novo milênio. Uns creditam o fato às redes sociais, ao Kindle, aos Podcasts. Ou então, novamente e escancarado, que os escritores – até aqueles que venceram a corrida por grandes editoras – precisem publicar mais e sempre também em jornais, para garantir o dinheiro do aluguel, assim como aconteceu com os graúdos da crônica brasileira dos anos 1950, os mesmos autores com livros reeditados aos punhados nos últimos anos e no topo das vendas, isto é, Clarice Lispector, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, o próprio Paulo Mendes Campos etc.

Ocorre que a crítica acadêmica, assim como acontecia no século passado, vira os olhos para a crônica a partir do status do jornal. Se na época, era gênero menor pelo meio de veiculação, hoje, da mesma forma, a questão se repente – a justificativa seria que com o número significativo de publicações e postagens que não necessitam do nome de um veículo de notícias para existir e ter força no Facebook ou no Twitter, por exemplo, a ideia de chamar escritores para opinar sobre fatos, um diferencial potencialmente atrativo aos leitores, fez com que tais páginas virassem um punhado de comentários mais ou menos aleatórios. Pior que essa é a ideia que o lirismo estaria prejudicado pela interatividade da atualidade, supostamente sem tempo para observar as pequenas coisas, atestando, em outras palavras, que mesmo a crítica nova está sempre usando bengalas e nunca nasceu com menos de oitenta anos. Assim, se por um lado, são ignorados os temas difíceis dos quais a crônica, em pleno período pós-guerra, debruçou-se inúmeras vezes, e continua atenta nesses últimos anos turbulentos; por outro, também desconhece que as sutilezas das coisas estão por todos os lados, o que falta, às vezes, são os poetas. Ou vá lá, bons ghostwriters.

Oh sempre incompreendida crônica.


*Recentemente foi lançado o Portal da Crônica Brasileira, uma organização conjunta do Instituto Moreira Salles e da Fundação Casa de Rui Barbosa. Ali foram reunidos, por tema e por autores, dezenas de crônicas – a apreciação daquelas páginas motivou essa discussão. Acesso: https://cronicabrasileira.org.br/


FRANCIELI BORGES |  doutoranda em Letras na Universidade Federal de Santa Maria, com tese sobre Graciliano Ramos e Tomás Santa Rosa.

 

 

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