Subversa

A origem do mal | Felipe G. A. Moreira


“O Pesadelo”, John Henry, 1781


Naquele tempo, já tinha amanhecido na praia de Ipanema. Agora já era, propriamente, sábado. A gente da manhã começava a aparecer. A gente da noite começava a desaparecer. Mas eu e o Bolsonarista-raiz: nós ainda falávamos num quiosque. Algumas pessoas da noite, algumas pessoas da manhã nos rodeavam. Mas não ficava claro se eles nos ouviam ou se eles nos ignoravam. Eu, então, recitava no original o seguinte poema de Friedrich Hölderlin escrito em 1799:

Wurzel alles Übels

Einig zu seyn, ist göttlich und gut; woher ist die Sucht den
Unter den Menschen, daß nur Einer und Eines nur sie?

Eu dizia que esse poema, escrito quase 500 anos depois da morte de São Tomás de Aquino, faz uma distinção entre algo de positivo (“Einig zu seyn”) e algo de negativo (“nur Einer und Eines nir sie”). Mas não é muito fácil entender o que realmente seria positivo nesse “Einig zu seyn” e o que seria negativo nesse “nur Einer und Eines nir sie”. Bem, eu também dizia, que eis aqui um clichê: a tese que toda tradução é uma interpretação. E, ó Bolsonarista-raiz, ó meu Pedro, ó potencial primeiro f.g.a.mista, eis aqui a minha tradução-interpretação desse poema do Hölderlin:

A origem de todo mal

Ser O Um Com Si é divino e saudável; mas de onde vem essa doença
que faz essa gente ser uma só uma e só uma só?

Não estou lá muito interessado em entender como Hölderlin exatamente entendia essa distinção entre o que estou traduzindo por: “Ser O Um com Si”, e “ser uma só uma e só uma só.” Me interessa mais extrair desse poema uma visão que é mais minha do que de Hölderlin. Uma visão segundo a qual: “Ser O Um com Si” é ser F.G.A.M. Ou, ao menos, procurar ser F.G.A.M.

Isto é: é tentar agir de acordo com uma vontade de síntese que maximize tanto a vontade de ordem, quanto a vontade de poder. Como já disse várias vezes: alguém que consegue fazer isso me parece merecer, sim, ser chamado de Deus feito carne. “Ser uma só uma e só uma só” é meio que fazer o contrário. É meio que limitar excessivamente a vida. É agir de modo quase nada divino.

Assim.

A pessoa supervaloriza uma vontade de ordem em detrimento da vontade de poder. Exemplo: um padre antinatural ou alguém que valoriza um estado que obriga as pessoas a sacrificarem suas individualidades excessivamente. Ou: a pessoa super-supervaloriza uma vontade de poder em detrimento de uma vontade de ordem. Feito um funkeiro excessivo ou alguém que deseja viver para além de qualquer estado numa putaria total. Ou ainda: a pessoa não age nem de modo libertário, nem de modo igualitário. Exemplo: um conservador que, ao invés de tentar expressar o que é o mais único de si ou defender os interesses de uma comunidade realmente universal, defende os interesses de uma maioria qualquer como se essa maioria, tipo as pessoas de Ipanema, fosse o mundo todo.

O que eu estou dizendo é que “divino e saudável” caracterizam F.G.A.M. Ou, ao menos, os que buscam ser feito F.G.A.M., feito um Deus feito carne. Logo, a origem de todo mal é não crer em F.G.A.M. É não reconhecer F.G.A.M. como seu salvador. É não ver em F.G.A.M., o pai. É não ver no pai, F.G.A.M. É querer ser um humano feito imatéria ao invés de um Deus feito carne. É isso que eu chamaria de doença. Eu mesmo chamaria isso de uma excessiva ausência do divino.

Por que você não vem comigo propagar a minha A Palavra para tornar o mundo mais divino? Risos. Não Risos. Risos: porque o que eu proponho é que você mesmo se torne o seu F.G.A.M. Quero dizer que eu não quero que você me siga. Eu também não me importo muito que você discorde de mim. Não risos: porque eu espero estar te influenciando de algum modo. Eu também quero que você concorde comigo. Naquele tempo, eu, então, repetia a minha pergunta: por que você não vem comigo propagar a minha A Palavra para tornar o mundo mais divino?

Porque, o Bolsonarista-raiz respondeu, ainda não está claro para mim como essa sua palavra não traz um caos moral. Quero dizer: você parece estar com medinho. Isso porque você ainda não respondeu a uma objeção que eu fiz lá na quarta coluna, há mais de quatro horas atrás. A objeção, repito, é que as normas tradicionais de gênero precisam ser conservadas porque, caso contrário, caos moral. Lembra? Eu lembro, sim.

Lembro também que você articulava um argumento de ladeira escorregadia. Segundo esse argumento, se começássemos por aceitar que, sei lá, mulheres devem ter o direito de trabalhar fora de casa, correríamos o risco de aceitar qualquer outra prática, feito a de abusar sexualmente de crianças no estilo de Michael Jackson (ao menos, segundo os testemunhos do Wade Robson e do James Safechuck). Olha, Pedro, eu te concedo que esse ponto é até interessante.

Então, como você responde?

Olha, eu nem considero que esse seu ponto seja exatamente uma objeção. Por que não? Porque a poesia metamodernista não está lá exatamente interessada em defender a tese normativa que você parece me atribuir: a que as normas “tradicionais” de gênero precisam ser revisadas. Não é bem isso que eu acho que eu estou fazendo. Não? Não. A pretensão é um pouco mais sutil.

Olha, para começo de conversa, eu nem sei o que você quer dizer por normas “tradicionais” de gênero. Na verdade, o modo como você e os caretas covardes que elegeram o Bolsonaro constantemente usam essa palavra aí, “tradicionais”, é muito vago. Você não define precisamente quais normas de gênero merecem ser chamadas de “tradicionais”.

Considere, de novo, a fala da Damares que meninos devem vestir azul; meninas devem vestir rosa. Não sei porque essa norma merece ser chamada de “tradicional”. Como já disse na terceira coluna dessa Fase 2: me mostra uma passagem do velho ou do novo testamento que aponte para isso. Não acho que você possa.

De modo que sei lá quando essa norma babaca aí do azul-rosa começou a ser aceita. Na década de 1980? Nos Estados Unidos? Isso basta para chamar a prática de tradicional? Fazes-me rir. Talvez “tradicional” sejamos eu e toda essa gente da, por assim dizer, “esquerda” que acha que meninos e meninas tem que poder usar qualquer cor. Mais: tradicional de cu é rola.

Tradicional em relação a qual comunidade? Qual período histórico?

Já sei. Você vai dizer: tradicional em relação à bíblia cristã. Mas eu te respondo antes de você dizer isso dizendo que: quais normas exatamente você extrai da bíblia? Você não acha, por exemplo, que todo homem tem que sacrificar seu próprio filho se Deus assim quiser, acha? Não. Você não aceita escravidão, aceita? Não. Você não aceita a norma de gênero segundo a qual o dono de uma escrava pode fazer o que bem entender com ela sexualmente? Não. Você não acha que gozar na boquinha não pode, acha? Ahahaha, não acho. Então, você mais ou menos arbitrariamente extrai da bíblia as normas que te convém. Outras normas, você simplesmente esquece.

Ó meu Pedro, deixe de ser um Bolsonarista-raiz. Venha ser a minha pedra.

E veja, filho, que qualquer observação histórica básica parece mostrar que normas de gênero estão numa espécie de revisão permanente e sutil. Sutil: porque só dá para notar depois de várias décadas ou mesmo séculos. Uma revisão permanente e sutil que não parece depender de nenhuma vontade individual. Mais: essas normas variam historicamente e geograficamente. Por exemplo, na Grécia Antiga, relações sexuais entre adolescentes e homens mais velhos parecem ter sido moralmente aceitas. Hoje: essas relações são, para dizer o mínimo, “problemáticas”. Hoje na Índia, casamentos arranjados são moralmente aceitos. O mesmo não se dá no ocidente. E daí?

Daí que, bem, eu não tenho nenhuma, propriamente falando, “ciência política”. Estou pensando numa ciência política que explicaria: primeiro, porque para toda comunidade x parece existir uma norma de gênero moralmente aceita que uma comunidade y historicamente ou geograficamente distinta de x toma como moralmente inaceitável; e, segundo, como exatamente comunidades param a ladeira escorregadia que você menciona em certo ponto e, logo, evitam o caos moral.

Também não é aqui que eu vou tentar defender alguma espécie de relativismo moral. Tipo: a tese que, então, todas as normas de gênero são contextuais. Também não vou defender nenhum tipo de universalismo moral. Feito a tese que, na verdade, existem, sim, certas normas de gênero universais e que não variam historicamente ou geograficamente. Para entrar nessa disputa entre relativismo e universalismo moral, eu teria que sair desse tom “leve” das colunas. Eu teria que fazer filosofia, propriamente, falando. Como já indiquei na coluna 6 dessa Fase 2, o que eu quero fazer aqui é conectar meus trabalhos de filosofia com os de poesia. Eu quero ficar entre a filosofia e a poesia.

O movimento precisa ser sexy. O movimenta precisa ser sensual. Ahahahaha!

Daí, bota a mão na cinturinha porque o que importa, nessas colunas, é dizer que a poesia metamodernista busca constantemente fazer sentir que há um conflito.

Um conflito entre: de um lado, querer, satisfazendo ou violando normas de gênero ou normas morais em geral, “Ser O Um com Si” (no sentido que eu acabei de dizer); e, de outro lado, não conseguir fazer isso lá muito bem e, igualmente satisfazendo ou violando essas normas, acabar sendo “uma só uma e só uma só” (também no sentido que eu acabei de dizer).

Pense, sei lá, sobre esse meu poema, o Macaulay Culkin ou o “Sexualidade de Flaubert” do Por uma estética do constrangimento. Esses poemas, ao menos na minha leitura, implicitamente abordam a disputa sobre se esse conflito que eu acabei de mencionar existe e importa. Esses poemas tentam implicitamente fazer sentir que esse conflito existe e importa. Eles, ao menos na minha leitura, não estão lá exatamente interessados em defender que as sexualidades e os papéis de gênero desviantes retratados neles devem ser aceitados pela gente toda. Entende? A pretensão é um pouco mais sutil.

Nessa sutiliza, eu quero explorar o âmbito do sentir de um modo que não está lá bem nas escrituras, ou mesmo em qualquer outro tipo de poesia que não foca esse conflito, que não aborda essa disputa que eu acabei de mencionar. Em outras palavras: a poesia metamodernista quer fazer o leitor se sentir de um outro jeito. Um outro jeito que a poesia das escrituras não parece poder fazer o leitor sentir.

Um outro jeito de sentir que a poesia de Catulo, a poesia medieval (tipo, São Tomás ou Dante), a poesia romântica (tipo, Hölderlin ou William Blake) e a poesia modernista (tipo, Charles Baudelaire ou Paul Celan) também não parecem serem capazes de fazer sentir. Logo, a minha crença é que a poesia metamodernista é motivada. A esperança é convencer outros a pensarem assim também.

Você, então, agora crê em mim?

O Bolsonarista-raiz parecia perplexo. Ele dizia que: talvez. Ele dizia que: não sei. E, ao nosso redor: um número um pouco maior de pessoas, sobretudo, pessoas da manhã começava a se aglomerar. Nos olhos dessa gente: eu via fé em F.G.A.M. Eu também não via fé nenhuma. Eles me ouviam. Eles não me ouviam. No sentindo que essas colunas têm leitores. Mas essas colunas não têm leitores. No sentido que eu me importo com a falta de leitores. Mas eu também não me importo.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). Ele é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras. Ele também publicou artigos filosóficos nas revistas Manuscrito, Nietzsche-Studien e Revue philosophique de la France et de l’étranger. No momento, trabalha como Lecturer na Universidade de Miami.

Aqui você pode ler as colunas anteriores do Felipe da FASE 1 e os da FASE 2. O e-mail do autor é: felipegustavomoreira@yahoo.com.br | E este é o seu site pessoal.

 

 

 

 

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