Subversa

A noite me cai sobre os olhos estrelas que já não brilham | Fabíola Weykamp


“Night Sky” (1991), Vija Celmins


todo dia atravesso
uma parte de meu corpo
como quem busca perdão
como quem pede reconhecimento
como quem, ao final, precisa apenas de um abrigo
um jato quente de sangue
espirrando dentro
para fazer algum sentido

não sei como deixei-me
invadir por esse sentimento
quem implantou essa angústia
dentro do meu peito
enquanto eu dormia
e que só aparece aqui
para colocar meu nome de volta na lista?

não sei como deixei-me
dominar pela ausência tamanha
de modo que ela aperte minha garganta
com sua enorme mão peluda
e sinta prazer um prazer sombrio
enquanto eu sufoco
olhando fixo em seus olhos de outrora

tenho de sorrir e cumprir tabela
encontro amigos no bar
e risco uma tarefa em minha agenda

no mercado, acabo desistindo das frutas
porque as maçãs rolam debaixo do balcão

todo dia atravesso
meu corpo por inteiro
medo e ressentimento;
um grito medonho
abafado, sonolento

a noite me cai sobre os olhos
estrelas que já não brilham

deixo-me nocautear um sono pesado
na tentativa infantil de me redimir
de minhas escolhas
— trajeto para a casa de minhas avós —

como se eu tivesse culpa
de ter escolhido a mim
como você escolheu a você que,
aliás, passa muito bem hoje
com suas escolhas de fruta-umbigo
enquanto eu,

nem de longe, aquele deus tem piedade
ou sequer ajuda-me a entender
como para você, tão esguio quanto superficial,
vem fácil e natural o perdão?

você que nunca reza, precisou rezar muito
ou matou no peito esse lance
e os homens a sua volta deram-lhe passagem
enquanto refazem o caminho de casa dos seus avôs?

quantas flores há nas suas estradas!
quantos louros vocês carregam na cestinha!
que jornada incrível a de quem não precisa mudar de caminho
não precisa se preocupar onde pisa
não precisa nada além de caminhar o caminho caminhado

______

todas as estrelas miúdas que não brilham
passam a morar tão dentro de mim
tão fundo em mim
que meu braço vai longe e não alcança
que meu sono tão longo não acorda
que a memória das perturbações de mãos não me sufoca mais
não me sufoca mais


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa e acaba de publicar “Ensaio sobre a Solidão”, pela Editora Penalux. | fabiweykamp@yahoo.com.br | Clique aqui para ler mais textos da Fabíola.

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