Subversa

A graça é o sol | Pedro Belo Clara


“Sun Spot” (1953), Yayoi Kusama


Não importa, amor, não importa – e por quantas estações não fôramos cegos? Quantas noites à mercê dos mais frios punhais, dos mais agudos espinhos? Tudo para que como as próprias mãos conhecêssemos cada erva de veneno e engano. Saber a ferida, amor, é prever o golpe e não mais tropeçar no que o nevoeiro denso oculta, o nevoeiro das horas mais loucas, do ímpeto mais tolo, do sonho mais doloroso – o bafejo, afinal, dum coração aprisionado em teias de promessas e fantasias.

Lembremos o melro ou a toutinegra ou qualquer outra maravilha de coração de vento e asas palpitantes, cantando ao profundo azul do céu toda a eternidade veranil que em si fez casa, sem janela corrida ou porta fechada, apenas porque outra coisa não poderia ser feita. Então, entre sussurros que nem agitavam a bruma da manhã dizíamos num segredo de apenas nós dois: como poderemos ser assim tão felizes? E por uma simples questão abria-se o caminho que desagua à porta dos jardins do paraíso.

A graça é o sol, devolvendo à terra a agrura de todos os gelos. O mais é apenas assim como um vento limpando o rumo de impurezas, um rumo que mergulha fundo em nós até ao sol para o qual dormíamos. Não é da semente o abrir em árvore? Não é da flor o maturar de fragrâncias, do fruto o saciar do apetite sempre renovado? Assim é do rio saber o mar em si.

Ah, a madrugada das madrugadas… A hora em que tudo se clareia: os filhos da terra passam, o seu fundo permanece. Diante da vivência viva da manhã fresca e pura, todas as noites se despem de sombras. O sol é a graça, amor; o sol somos nós.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Maria Isilda Monteiro 16 de março de 2020 em 16:01

    Belo, enternecedor e profundo este texto poético.

    • Pedro Belo 22 de março de 2020 em 15:07

      Muito obrigado pela sua visita e pelo simpático comentário que deixou. Fico contente que tenha gostado.
      Até breve, cara amiga.

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