Subversa

A concepção de fé de Michel Houellebecq | Felipe G. A. Moreira


“Maria Madalena” (1515) Leonardo da Vinci.

Quase meio dia. Praia de Ipanema. Sábado. Eu mais o Bolsonarista-raiz. Nós tínhamos saído do mar. Nós nos sentamos na areia. A areia estava abarrotada de gente. Eu dizia que, nessa Fase 2 das minhas colunas na Subversa, eu quero ignorar o século XX. Porque eu já falei demais sobre esse século. Porque o século XX foi o século da poesia modernista. Porque eu já falei demais sobre esse tipo de poesia.

Porque o que me interessa é pensar sobre quem se interessa sobre o que eu vou chamar de um problema niilista contemporâneo: a saber, o que fazer quando você não crê na norma e, ao mesmo tempo, você não crê na subversão da norma? Eu acho que ter esse problema é, de fato, ser um poeta contemporâneo. Ou, ao menos, começar a ser.

Daí, no fundo, eu nem acho que os poetas do reconhecimento e os modernistas fracassados sejam bem contemporâneos. Essa gente vive no século XX, no século XIX. Essa gente não se interessa pelo problema niilista contemporâneo. Essa gente é burra esquecida demais para viver na época que eu vivo. Ahahaha! O Bolsonarista-raiz riu. E eu disse que, olha, me deixe explicar um pouco mais o que é esse problema niilista contemporâneo. Me deixe explicar também por que ele só surge para alguém que meio que crê em F.G.A.M. e na sua A Palavra metamodernista.

Assim.

Pense, por exemplo, em algumas normas que São Tomás de Aquino crê. Tipo: “relações sexuais devem se dar somente com intuito reprodutivo e entre cônjuges (ou, para colocar nos termos do seu juiz favorito, ‘conjes’)”. Tipo: “não devemos beber a ponto de sair da consciência nunca”. Tipo: “devemos ir à Igreja”, etc.

Subversões dessas normas são descritas, por exemplo, em praticamente todos os poemas de Charles Bukowski. E, nisso, que ele subverte essas normas, ele parece crer em outras normas modernistas. Tipo: “devemos ter todo tipo de relação sexual”. Tipo: “devemos beber de cair, de vomitar, direto”. Tipo: “devemos crer que Igreja de cu é rola”. Ahahaah! Entende? Sim. Entende que tem algo meio, sei lá, “simplista” em Bukowski no que ele parece crer que seguir essas normas (contra as normas de São Tomás) é meio que A Solução. Sim. Como se bastasse isso… ser um modernista, tomar as normas do modernismo como imperativos e, aí, pronto, tá tudo resolvido. Exatamente. Talvez isso tenha funcionado para o próprio Bukowski. Mas hoje? Ainda? Exatamente. Daí, eu diria mesmo que você começa a virar um contemporâneo, você começa a crer na A Palavra de F.G.A.M. quando você deixa de crer tanto nas normas de Bukowski quanto nas normas de São Tomás. Tipo: você descrê no casamento e na subversão do casamento. Você descrê na sobriedade e no alcoolismo. Você descrê na Igreja e na subversão da Igreja, etc.

Aí, você quase que se torna um metamodernista você também, ainda que só exista um poeta metamodernista, F.G.A.M., e Ele vai ter que morrer para salvar a todos nós. Como sempre: risos. Não risos. Quero dizer: aí, você se confronta com o problema niilista contemporâneo. Eu me interesso por poetas que abordam emotivamente esse problema; os únicos realmente contemporâneos.

E alguém faz isso além de você mesmo? Bem, eu acho que o Michel Houellebecq e o Frederick Seidel abordam emotivamente esse problema meio que em todas as suas obras. Eu diria mesmo que o problema niilista contemporâneo é O Problema da Obra desses poetas. Mas eu nem tenho como legitimar esse último ponto aqui agora. Eu vou falar um pouco sobre o Seidel na próxima coluna.

Por hora, o que me importa é pensar sobre um poema sem título ou sobre um trecho de um poema mais longo do Houellebecq. Esse poema sem título ou trecho de poema que, na minha tradução, começa com “Ser um pequeno cão branco que corre sem cansar”. Talvez esse poema faça parte de um poema mais longo: o “week-end prolongé en zone 6” (“fim de semana prolongado na zona 6”) que apareceu numa coletânea de poemas do Houellebecq em 2013, a Configuration du dernier rivage (“Configuração da última margem”). Eu sei lá. Eu não estou interessado em dissertar sobre os critérios para individuar um poema. Quero dizer: eu não estou interessado em mostrar se esse trecho acima sobre o “cão branco” é um poema por si só ou um trecho de um poema mais longo.

O que me importa é a concepção de fé que esse poema ou trecho de poema sugere: “fé” no sentido de uma capacidade psicológica particular; a de convencer a si mesmo (sei lá como) que um determinado afazer é um fim em si mesmo. Eis a solução do eu-lírico desse poema do Houellebecq para o problema niilista contemporâneo: é preciso ter fé nesse sentido aí de modo que possamos nos engajar em qualquer tipo de afazer com O Extremo Esmero. Qualquer tipo de afazer. Tipo: o afazer de Maria Madalena de seguir Jesus como se ele fosse de fato o Deus feito carne.

Quero dizer que o que importa é ter essa fé aí que eu acho que eu também, desde o Parque, sempre tentei também descrever, expressar e apontar como uma solução para o problema niilista contemporâneo. Uma fé que me faça continuar a escrever essas colunas, a conversar com você, ó Bolsonarista-raiz, por quase 12 horas, como se proceder assim fosse um fim em si mesmo, ao menos, por algum tempo, umas 13 horas. Uma fé que me faça seguir as normas metamodernistas (e.g., a de problematizar as normas de São Tomás e a subversão dessas normas via Bukowski) como se proceder assim fosse um fim em si mesmo. Uma fé que me faça continuar esse processo da sua conversão para Pedro; essa sua transformação no primeiro apóstolo de F.G.A.M. Uma fé, em suma, em F.G.A.M.

E você precisa crer que aquele que me viu, viu F.G.A.M.

Bem, acho que você, de fato, está conseguindo me transformar porque eu estou me convencendo feito um judeu, um romano, virando um cristão. Um poeta do reconhecimento, um modernista fracassado virando um metamodernista, um f.g.a.mista. Mas você ainda não deu uma resposta para a minha terceira objeção que eu formulei já tem mais de oito horas. A objeção é que você é meio hipócrita, ao insinuar que, no âmago, você não deseja uma mulher tradicional como Sarai-Sara.

Já tinha quase esquecido dessa…

Olha, para começo de conversa, você precisa tomar cuidado quando você diz “você”. Como assim? Quero dizer: por “você”, você está se referindo a mim mesmo, Felipe G. A. Moreira, o autor dos poemas metamodernistas ou você está se referindo a algum eu-lírico de algum poema meu?

Olha, se quando você diz que “você é meio hipócrita, ao insinuar que, no âmago, você não deseja uma mulher tradicional como Sarai-Sara, por “você”, você quer dizer eu mesmo autor, eu só diria que vai se fuder! Ahahahaja! Por que? Porque eu qua autor não vou aceitar ser objeto da sua avaliação moral. Não estou te autorizando a fazer esse tipo de avaliação. Isso é coisa de padre, youtuber, gente que propaga dogma no Facebook, etc.

Na verdade, não estou autorizando ninguém que só me lê aqui, nos poemas, em textos filosóficos e/ou no Facebook a me avaliar moralmente. Tenho nojo de quem se autoriza a fazer esse tipo de avaliação a partir de quase nenhuma evidência ou quem se permite ser objeto desse tipo de avaliação. Então, vai se fuder! Achei que você já tinha deixado essa terceira objeção para lá… Bem, eu já meio que tinha, mas eu só queria saber como você iria responder de todo jeito… Tudo bem… Tudo bem, Pedro… Vou te responder mesmo assim dizendo que…

…se quando você diz que “você é meio hipócrita, ao insinuar que, no âmago, você não deseja uma mulher tradicional como Sarai-Sara”, por “você”, você quer dizer algum eu-lírico de algum poema meu, eu só diria que vai se fuder também! Ahahaha! Porra, vai ler os poemas direito! Não há exatamente um único eu-lírico com uma única sexualidade que estaria sendo hipócrita ao fingir que quer uma mulher não tradicional, mas, no âmago, quer uma espécie de Sarai-Sara. Pode até ser que exista algum eu-lírico que tenha essa ambiguidade, mas não todos; tem várias sexualidades muito para além do heterossexualismo. Gente que tenta e fracassa ou é até bem-sucedida em ter fé (nesse sentido acima) em vários tipos de sexualidade muito mais desviantes do que minha (qua autor) mesma.

E, olha, eu até acharia bom se você ou alguém (tem alguém aí? Estou falando sozinho?) conseguisse mostrar que tem algum eu-lírico assim meio hipócrita nos meus poemas. Isso é totalmente metamodernista. O metamodernista está interessado em representar a ambiguidade moral humana. Eu disse, naquele sábado, naquele um pouco depois do meio dia, naquela praia de Ipanema.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). Ele é mestre em filosofia por Boston College, PhD em filosofia pela Universidade de Miami (com intercâmbio na Universidade de Bonn), e defendeu em 2019 a dissertação de doutorado sobre metametafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras. Ele também publicou artigos filosóficos nas revistas Manuscrito, Nietzsche-Studien e Revue philosophique de la France et de l’étranger. No momento, trabalha como Lecturer na Universidade de Miami.

Aqui você pode ler as colunas anteriores do Felipe da FASE 1 e os da FASE 2. O e-mail do autor é: felipegustavomoreira@yahoo.com.br | E este é o seu site pessoal.

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