Subversa

A cidade reinventada | Giovane Adriano dos Santos

para Clifford R. Shaw

Este que segue pela avenida, olhos atentos, é afeito à leitura; não lhe tem faltado tempo, interesse e textos. A jovem, que lhe segura a mão e o conduz a olhares regularmente feitos a si própria, indaga sobre as palavras de um brasileiro chegadas a Chicago; por ali, sabiam, ainda que por interpostas pessoas, mas sabiam, que outra vez verteram ao Inglês literário texto de Machado de Assis. Fizeram-se publicar aos jornais notícias de que um certo livro, vindo de longe, dava-se ao conhecimento vário e exalava aroma novidadeiro, repercutia mazelas e belezas para, ao fim,
submeter tudo quanto seu narrador quis aos seus próprios desmandos narrativos.
O pior daquelas páginas, verdade ainda hoje pujante: há pessoas a quem as instâncias do saber atestam pergaminho, mas não saber – porque este não podem dizer as instituições. Ironia maior é que o autor, por muitos conhecido nos países europeus, vai agora (e novamente) ao norte deste continente, neste instante em que relações também feitas conhecer pelo mundo todo evocam das páginas machadianas; em muito sentido, materialmente ao menos, antes o texto não evocasse atualidade. Não sei se é o que falam precisamente; a cena que se repercute não permite supor
diálogos – e quem os supõe, quando não os alcança por completo? -, porque a beleza urbana, ainda
não acessível a todos, é certo, remete à história da cidade.
Noutras épocas, não muito distantes no tempo, quem apeasse da bicicleta à beira do lago, ou aquele que à margem das águas fosse caminhando e reduzisse o passo, poderia notar, como no texto de antigas lavras e de eloquentes imagens, o azul próximo refletir o céu, o verde das árvores cujos nomes me escapam, por não conhecê-los dos escritos de botânica ou dos dicionários, e vão tremeluzindo, as vegetações, ao vento, aos olhos, ao dia que se confessa nascente graças ao sol que rompe e aquece as horas matinais.
À noite, é outro o vigor luzente; faróis despontam por toda parte, letreiros sorridentes convidam também ao riso. E o lago, o lago agora repercute a lua e as luzes dos postes que o costeiam; ao dia radiante, ignorados, quase ninguém perceberia que os cristais espaçadamente colocados à beira da água, assim como os bancos próximos à pista de correr, às vezes vazios à luz solar, ao entardecer é certo que se enchem de gente a sorrir, a falar, a ler, a olhar o azul lacustre envolto na água coberta de noite que o vento vai balançando levemente. Nas ruas amplas, há espaço
a todos.
Na cidade, venta muito e forte; diante do Michigan, o rapaz lê The Posthumous Memoirs of Bras Cubas. A mulher lhe pergunta algo, e ela também lê, e comenta, e relê, mas meus ouvidos não alcançaram as falas todas, ao que se ouvissem a cidade silenciaria diante da escritura, sem silepses ou outras figuras, aguardando resposta, emenda ou reparos. Nitidamente, sem ruídos quaisquer, as únicas palavras que ouvi foram the newspapers.

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