Subversa

Azulejos | Tânia Ardito (São Paulo – Porto)

DSCN0477 - CópiaOlhem que lindo este painel de azulejo! – Foi o que a guia acabou de dizer, mas se você estivesse aqui, não estaria prestando atenção ao que foi dito, aliás, como era de costume, você nunca dava ouvidos ao que ninguém dizia, sim ninguém… nem a mim. Realmente, o painel é lindo… todo o lugar… marca o esplendor de uma Era… e, que voltas deram para que esta Era acontecesse… mortes, conspirações… e está inaugurada a Era Manuelina… com a sua nova forma de entender o mundo. Entender… nunca vou conseguir entender… por mais que o tempo passe… não dá para entender… não podia ter sido de outra forma? Com tantas saídas e foi logo justamente escolher essa… queria entender… País do azulejo… alguém falou algo sobre isso… acho que foi a guia novamente… tenho que me juntar ao grupo… você também poderia estar aqui… agora eu ri de mim… provavelmente não estaria prestando atenção a azulejo nenhum… e eu te cutucando o tempo todo… nem prestaria atenção a este painel que é formado por 1384 azulejos e que já mudou várias vezes de endereço para continuar representando a Vida… por que você também não mudou de lugar para preservar a Vida? Escolher ao seu contrário… não entendo… este medo de enfrentar… de se olhar… Cena de caçaa armadilha é montada com um espelho… a onça não resistirá a olhar-se… será isso? Não conseguiu olhar e encarar a si próprio, era tão doloroso… tão vergonhoso… Por isso montou a sua própria armadilha… pensou que desta forma resolveria tudo… país do azulejoaqui há igrejas todas decoradas de azulejos, tirei muitas fotos… um dia te mostro… Queria que estivesse vendo isto… é toda azule… azul… é a sua cor preferida, né? Agora chegamos aos frontais… neles está representada a fauna… pavão… tái um bicho que combina com você… orgulhoso da própria beleza… representa a ressurreição de Cristo… como queria que você ressurgisse… imortalidade… era isso que buscava? A imortalidade… egoísta… sim egoísta! Pensou que desta forma acabaria com a dor… não pensou que a dor assim como a alma é imortal… egoísta… não passou pela sua cabeça que eu sentiria tanta dor? Acho que por isso vim para cá… uma maneira de iludir-me dia após dia… que a dor não existe… que tudo esta tal e qual… iludir-me que se um dia voltar com fotos, postais e presentes… e na ansiedade de contar tudo o que vi… você com o seu ar distraído me perguntaria… e então, comprou o azulejo?

 

 


Tânia Ardito (São Paulo, Brasil) vive na cidade do Porto, é cofundadora e editora do Canal Subversa.

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