Subversa

“Velhice” e “O leitor à janela” | Sidnei Xavier dos Santos


Velhice

os avós morrem porque sabem algo

sobre o mundo que ignoramos,

já que somos tolos e apegados

aos penduricalhos da vida, quanto

mais velhos e senis daqui partem

mais certos ficamos que queriam

revelar-nos o enigma quanto a que

nos dedicarmos enquanto vivos,

por isso se agarram até o último sopro

mesmo sem voz e juízo, inertes na cama

com o segredo nos lábios, observados

por quem lhes abriu o mistério, incrédulo

que ainda tentem exercer o livre-arbítrio.


O leitor à janela

leio este livro grosso até o segundo

capítulo não porque canso de lê-lo,

pelo contrário, decerto o leria todo

sem levantar da cadeira a semana

inteira, porém, vou lento até a janela

e olho a rua vazia, a cidade calada,

as entregas que chegam às casas

sem alegria do espanto e estardalhaço,

e o enfado dentro de mim se desloca

das pernas que querem voltar para a rua

ao cérebro que afere o contraste que há

entre o murmúrio penoso escondido

debaixo das portas e a vida assombrosa

e impalpável que leio, chorando, nos livros.


Sidnei Xavier dos Santos | São Paulo, Brasil| (1973) é professor de Literatura e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, autor de Radares da tarde (poemas, Selo Badaró, 1998), Adão desdenha o Paraíso (poemas, Quelônio, 2017), vencedor do Prêmio Nascente USP 2016, e A linha augusta do campo (novela, Quelônio, 2020). | sidneix@hotmail.com

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