Subversa

Urbano | Léo Ottesen (Rio Grande, RS, Brasil)

Ilustração (Grafite e lápis aquarelável): Raysa Ricco Pavão

Ilustração (Grafite e lápis aquarelável): Raysa Ricco Pavão


A cada dia mais nos tornamos a fumaça dos nossos carros. Os laços rompidos entre a realidade material do combustível e a etérea dança da energia. E cada vez mais nos tornamos os passos que deixamos na calçada. Sempre indo. Raramente ficando. E quando ficamos, ficamos nada, é só um momento. Quando ficamos é porque esquecemos de ir. Um deslize, um esquecimento, um agora-é-pra-onde-mesmo-? e então lembramos. E vamos.

Fumaça de cigarro também é a gente. E ainda mais a tosse dos velhos. O pigarro. A distância não-notada entre o prazer e a dor. Somos cada vez mais somas de distâncias e fome de contatos. Voltimeia duas solidões se esbarram e param, atônitas, depois voltam a andar. Esse encontro costuma durar de dois a cinco. Se segundos, meses, anos… aí é você que decide.

Muita gente pode achar triste – e com razão – toda essa melancolia e esses vazios. Eu não. E com razão. A sabedoria maior que consegui descobrindo que as coisas são efêmeras me dá certa tranquilidade. Eu não insisto. Sei com absoluta certeza de alguém-que-sabe que o momento passa, as coisas vão, nada fica, ninguém fica. Pois se ficasse, ora, de que valeriam?

Nós não notamos que o filho da gente cresceu até que alguém repare “como ele tá grande!”. Porque é o filho da gente. Tá sempre ali. Imutável. Infinito. Inquieto. Nós tampouco notaríamos a importância dos acontecimentos se eles durassem. Pois estariam ali por muito tempo.

Portanto, eu abraço a casualidade e os (des)encontros. Abraço até a falta de algo duradouro. Mas abraço essa falta de algo que fique com saudade, não com dor. Nunca dor. Porque aceito que o melhor mesmo é ser rapidinho.

Nós somos a rapidez das coisas que não permanecem. E nós permanecemos. Imutáveis. Infinitos. Inquietos. Insatisfeitos. Eternamente insatisfeitos.


LÉO OTTESEN tem 24 anos, é escritor, poeta e compositor gaúcho. Frequentou a faculdade de Letras – português/francês da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e, atualmente, desenvolve projetos como produtor e agitador cultural. Publicou o livro de poesia “mas enfim” pela ed. Clube de Autores no ano de 2015. Também ministra oficinas de escrita criativa na sua cidade. https://www.facebook.com/leo.ottesen

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