Subversa

Umbo | Luciana Tiscoski (Florianópolis, SC, Brasil)

Ilustração: Marilia Moser

Ilustração: Marilia Moser


Mulher de sombras. Sempre o preto e o branco e o cinza, matizes dessa Berlim de espaços vazios em mim. Palhaço, busco sua sede. Eu só quero retratar sua sede, Mirtza, sua sede de viver, era o que eu repetia nesse dia enquanto ela, impassível, fumava seu cigarro e olhava com atenção perscrutante as sombras que a fumaça fazia na parede esburacada e suja. Eu ali de braços pendidos, a câmera na mão esquerda, à espera, inerte e desejoso da sede de Mirtza. Eu, o palhaço fotógrafo, esquecia no decorrer das horas o que fui antes de ser esse que perseguia a mulher de sombras. E no instante presente, tudo o que sei é Mirtza. Sei que torço para que o cigarro se demore, para que cada tragada leve alguns longos minutos no trajeto da fumaça desde a passagem em seu batom escuro até os pulmões e atravesse queimando seu pesco tão branco, tão liso, e que depois retorne pela garganta dela, já nutrida e transformada em formas dançantes na parede. Mirtza é imagem, é toda uma Berlim que morre, uma Berlim que exala fúnebres poeiras, Mirtza é toda vida em meio à morte, ela teima em seguir de perto o caos que se instaura desde agora, ela insiste na contaminação, quer estar em todos os momentos desse início fim de século, a guerra, a fome, a sede de Mirtza não cessa. Se ao menos eu pudesse retratá-la e então na imagem revelada eu pudesse demorar meus dedos no trajeto dessa fumaça e percorrer seus dedos, lábios, as paredes de dentro da cavidade bucal, dentes e língua, garganta e peito… talvez assim apaziguasse minha vontade dessas sombras em Mirtza, era só o que me nutria agora que todo o resto estava incerto e à volta só se via desespero e morte. Acabou o cigarro, última baforada, ela já não olha a parede e a fumaça nela. Joga a guimba no chão, apaga a brasa com o verniz negro e opaco de seu sapato de muitas caminhadas nas ruas de Berlim. Essa cidade é Mirtza na medida em que pode a qualquer momento se transformar em outra coisa, é potência, é vazia e crua, sombra em ruínas. Mas ela, em sombras, vencerá a morte dessas ruínas, Mirtza vence todos os tempos e desastres porque chega antes da morte em qualquer lugar. Agora seus sapatos já caminham acelerados pisando a calçada e iniciando o traçado de seus passos negros em movimentos felinos, quase fera, quase mulher, ela fere com o salto os ouvidos que passam desajustados pelos barulhos de uma guerra finda e outra anunciada, a mesma, sempre a mesma última guerra. Eu palhaço, sigo atrás e miro além de Mirtza, os olhos agressivos que atravessam a bela figura em preto e branco de Mirtza e param em mim, o palhaço de colorido cinzento e triste.

Kurfürstendamm, minha rua espelho, prisma solarizado de cinza, luz cinza dessa rua que em mim explode em alegria contida. Eu Mirtza, que aprisiono cores… o palhaço ainda no meu encalço. Segue meus passos com a câmera na mão. Lindo e triste, colorido desbotado, boca pra baixo, que palhaço tem serventia aqui na minha Kurfürstendamm? Esse palhaço tem sua razão de viver, quer captar minhas cores, quer colorir-se do meu feminino, mas preciso em algum momento lhe dizer que não há canais abertos para que as cores saiam, não há canais abertos para o meu feminino, tudo espraia-se apenas dos muros pra dentro, os muros em mim são ainda mais fortificados e vigiados que esses que nos separam de outros seres, outros lugares, outras memórias, outros… Palhaço, triste figura. Esbarro em pessoas que tem nos olhos umas perdas irreparáveis… perderam os próprios olhos, nutrem-se dessa neblina de sons, de medos, plantam em frestas das calçadas mortas umas flores do mal, talvez sem cheiro, não chego nunca muito perto delas, porque meu nariz está sempre cheirando alturas onde a podridão é ainda mais intensa. E nessa noite, eu Mirtza, por gratidão à vida, deitarei meu corpo todo branco violeta ao lado do corpo de um grande rato branco pardo, alemão por acidente, como por acidente ter nascido assim tão de papel, tão de nada revestido, tão de nada preenchida a farda que esconde o corpo gordo branco pardo. E algo se dará da união de uns pedaços de seu corpo aos meus pedaços, umas peles roçarão, uns líquidos se misturarão e deve haver alguma espécie de fusão que do nada e da explosão de cores faça com que o canal verta por outras vias alguma coisa que se chame amor? Sei que o palhaço da triste figura estará rondando e tentando me proteger desse encontro com o risco do abismo, esse palhaço que não sabe ser, no fundo, muito maior que eu… e como eu suportaria, se ele capturasse minha alma, deitar novamente com o corpo abjeto do homem de farda? Ele será testemunha hoje à noite uma vez mais dessa minha grande tentativa de fé nos fétidos canais carnais, e que a minha sombra ressurja em arco-íris junto aos fogos noturnos e aos vagalumes e às mil rajadas de morte que cairão dos céus em breve anunciando pesadelos de alguns muitos séculos por vir. Mas eu permanecerei, porque tenho sede de ser pervivente apesar de tudo que pra fora não se realiza.

Hoje ela será resgatada para sempre, terei Mirtza inteira em minha mão esquerda, em minhas retinas tensas, ainda que muda, ainda que em sombras, captarei sua alma, seu sumo, seu imo. E revestirei todas as ruínas dessa cidade e todos os monumentos e as demais barbáries em cimento e ferro edificadas com a imagem em sombra e luz de Mirtza, todos saberão que apesar da guerra, há uma intensa, indizível, infinita outra explosão de coisas muito mais vida por acontecer bem diante de seus olhos mortos.

O rum está queimando em minha garganta, agora já queima o estômago, queima meu corpo inteiro. O café está vazio de cores, mas há uns rostos esfaimados de qualquer tom, qualquer mínima euforia, qualquer mínima calmaria. No rádio toca Marion Harris cantando a melancolia de St Louis Blues e alguns ciganos de New York dançam dentro de mim, ciganos negros saem em fumaças densas da garganta americana e loura de Marion Harris. Aqui no café da Kurfürstendamm meu corpo já todo se prepara para o sacrifício. O corpo fardado já se aproxima, lento e pesado. No canto, às escuras, por detrás de fumaças e notas de St Louis Blues, o palhaço me lança todos os olhares de uma coleção de desejos, quer captar minha sede de rum, de blues, de ciganos negros em New York, mas algo corta o fio de seu sonho em mim, o corpo gordo branco de papel atravessa nosso canal de imagens, rompe nossa harmonia melodiosa.

Hoje num café em Berlim, ainda pode ser lida a prosaica notícia de um acontecido ali naquele mesmo café há exatos 86 anos. Conta-se na folha amarelada do jornal antigo emoldurado na parede, que um fotógrafo palhaço investiu como louco contra um oficial da polícia nazista munido apenas de uma garrafa de rum quebrada. O palhaço, munido também de uma câmera, registrou por acidente alguns instantes desse infortúnio. As fotos amareladas e emolduradas no café de Berlim, da rua Kurfürstendamm, revelam cenas em que o próprio palhaço jaz quase morto, ensanguentado e algo feliz nos braços magros e brancos de uma moça em trajes negros e ar doente. Pela notícia, esta moça, sem documentos nem voz, muda e pálida, talvez demente, teria sido o estopim causador da discórdia. A câmera teria disparado desde o chão, o que acarreta nas imagens uma surreal impressão de algumas sombras esbranquiçadas como se fossem fumaças fantasmas saindo dos corpos do palhaço e da moça cinzenta. A notícia jocosa conta ainda que uma das fotos do casal inusitado formado pelo palhaço e a suposta prostituta teria por muito tempo estampado ruínas e demais paredes daquela cidade, com certeza coladas pelas mãos de revoltosos que tomaram o palhaço morto por herói por ter se rebelado contra o poder totalitário de um representante da milícia nazista.


LUCIANA TISCOSKI é professora, jornalista e escritora. Mestre em Literatura Brasileira e Doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Tem diversos artigos, ensaios acadêmicos e resenhas publicados em periódicos especializados na área de Literatura. Dedica-se atualmente às aulas de Filosofia e Sociologia que ministra no ensino médio e à pesquisa de Pós-Doutorado em Filosofia. | LUTIS02@GMAIL.COM

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Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Adriano Reis 2 de dezembro de 2016 em 11:41

    Que agradável técnica literária de prosa poética da autora, que conduz e contextualiza seu conto com pinceladas de poesia líquida, que flui até um final inusitado, criativo e, claro, poético.

  2. Thiago Domingues 2 de dezembro de 2016 em 22:53

    Li e reli o conto e fiquei maravilhado! Fantástico! ???❤

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