Subversa

Um mar de possibilidades para um náufrago | Breno S. Amorim


Estamos aqui e é como se estivéssemos lá. Como fosse ontem e é já depois de amanhã. Ou nem aqui nem lá, sobrevoando, flutuando num ponto inespecífico. Se fosse gritar, com quais palavras? Um nome para chamar de socorro? Ou nem tanto, apenas um lembrete: se não se importa, estamos aqui. Do contrário, o outro lado, idêntico. Como um náufrago num mar de possibilidades.

Ouço o barulho da casa ao lado: a torneira do banheiro, a água na pia, a batida da porta. Saiu. Não sei seu nome, talvez nem tenha. São cinco horas, tudo escuro ainda. Agora, o som de uma motocicleta que parte. Se volta, é possível. Vou adivinhar? Não vou. Um matador de aluguel, capaz. Ou um padeiro. De qualquer modo, alguém morre. Enquanto durmo ou não durmo. Enquanto penso dormir. Um revólver na cintura, a surpresa de um acontecimento que explode. Ou a mão descansada para o calo novo. Para que não dê tempo de se acostumar com o conforto de uma mão sem calo. Se padeiro, por que não assassino? Profissão de risco? Estourar alguém logo cedo e garantir um mês? Vou adivinhar? Não vou. Sei que levantou, a água na pia, e saiu. Se volta, até quando? É possível que canse. Que seja feliz, é possível. Surpreendido por não haver surpresa. A água no rosto, já aí tudo quanto vale? Não sem o débito quitado. Porque a água na torneira é menos natural do que um corpo aberto no chão. E tem mais. Não lembro.

Depois, o sono. Não escuto quando volta, se volta. Mas deve voltar. Sobretudo porque haverá outra mesma hora e a água na pia, o barulho da moto que parte. Todo dia assim. Alguém que repete e nem percebe? O contrário, talvez? Alguém que se não repete, o que é que faz? O revólver na cintura. Tem de matar alguém. Ou fazer o pão. Cinco horas, tudo escuro ainda. E vou ouvindo enquanto durmo. Ou não durmo, enquanto suponho dormir. Tentar: o momento exato do retorno, se retorna. Quando? É possível que seja dos que partem, e só. Todos os dias? O revólver na cintura. O alvo tem uma história, é possível. E choro em volta de um corpo que, por descuido, é agora saudade. Se fosse gritar, com quais palavras? O revólver agora na mão. Um nome para chamar de socorro? Ou nem tanto, apenas um lembrete: se não se importa, estamos aqui. Ou a mão na massa do pão. O rosto quente do forno.

A torneira do banheiro, a água na pia, a batida da porta – saiu. Será que durmo? Apenas o suficiente ao susto do flagrante – voltou? Não volta. Se volta. O revólver na cintura. Se tem nome, onde deixa? Suponhamos estar aqui. Caso não se importe, à espreita, mudo. Torcer para não dormir. Partiu. O pão, agora lembro. É possível. Fui dizer teu nome e já nem sei o quê. Parecia com o meu, que não tenho. Ainda mais para você, que parte. Ainda mais para você: o revólver na cintura, a mão na massa do pão. Ou. Ainda. Agora, sim, à espreita. Lembrar: não dormir. Partiu. Água na pia, batida de porta. Quem, a vítima? Se não se importa, estamos aqui. Me diz teu nome, aproveitando. Talvez não tenha tempo para abismos. Ou apenas das dezoito às vinte e duas horas, quando volta? Falo do tempo porque sei que tem relógio. Não vou supor que sempre adivinha a exata hora mesma. Não vou supor. Daqui, já te escuto o quanto posso, enquanto não durmo. Se suponho, participo. Não quero interferir, nem ser de sua mão o dedo no gatilho. O espelho é meu, posso inventar a minha imagem. Nem vítima, nem assassino. Fosse possível. Do pão do teu calo, o esquecimento, para que o sabor continue a esconder o suor. Ou a arma na cintura. Lembrar: não dormir. À espreita, enquanto volta, se volta. Partiu.

Breno S. Amorim| Petrolina, PE| breno23_@hotmail.com

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