Subversa

Um livro de tantas histórias… | Natanael Otávio


— Vô, conta uma história de bruxa?
— Não conto mais história de bruxa. Só de fantasma.
— Então, conta uma de fantasma?
E o vô me contou a mesma história que contava quando eu era criança, dessa vez, trocando bruxa por fantasma.
— Um dia eu estava andando a cavalo, quando senti alguma coisa montar na garupa. O trote do cavalo começou a ficar lento como se a coisa pesasse uma tonelada. Sabe o que era, meu neto? Um fantasma!
— Engraçado, pois, a mãe me contou a mesma história dizendo que uma assombração foi quem pegou carona no cavalo do vô.
— Não conto mais história de assombração. Só de fantasma.
Percebi que ao mudar os personagens meu avô tentava pelo menos garantir a fé do ouvinte no enredo que contava. No tempo da minha mãe, bruxa era menos expressivo que assombração; hoje, fantasma é mais expressivo que bruxa.
Sempre que meu avô contava suas histórias, alguns diziam: “É bobo quem acredita”.
Eu não nunca pensei assim. Elas simplesmente existem. E meu avô era um livro de tantas histórias…
As vezes sinto a imaginação pesar tal qual o fantasma na garupa do seu cavalo, como se ela quisesse se libertar para o mundo, dar espaço para outras histórias surgirem, dialogar com as pessoas só para ver quem acredita nelas ou não, assim como fazia o meu avô.


Natanael Otávio | Bastos, Brasil

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Bernardete Rigoleto Tátero 16 de dezembro de 2019 em 20:42

    Singelo, emocionante. Realmente nos transporta ao passado…

    • Natanael Otávio 17 de dezembro de 2019 em 19:57

      Obrigado, Berna! Fico feliz que gostou do conto. Um grande abraço!

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