Subversa

Um homem sábio | Nayara C. P. Valle


Vai morrer de trabalhar
ele diz
Vai morrer de fome
penso eu
Com os panos de dormir
amarrados à cintura
leva consigo sua casa
cheio de si
e esvaziado
dos outros
Todos os dias assiste
com o olhar demorado
minha hesitante caminhada
meus olhos exaustos
e anuviados
de quem pode suportar
mais um dia, mais um dia
Agora eu sei
Sim, eu sei
Ele sempre esteve ali
mais completo que eu
e ao mesmo tempo
tão ausente de todos
Ele nunca espelhou a multidão
Agora eu sei
ele é um quadro
dentro do quadro
dentro do quadro
Um lembrete decorativo
do unânime mal-estar
diante da vida
Quem sabe
Átropos se mova
com mãos delicadas
e fatais
Quem sabe
verei completa o mundo
como ele:
então meu grito
será potente
e ruirá a Avenida
implodindo o prédio
da repartição – mudo, já sem vida
há tanto tempo
testemunha das passagens
e histórias
de gente tombada
pelo costume ordinário
Ele, o homem-objeto
da paisagem repetida
por onde passo todos os dias
agora é, também, uma sirene ligada
E cada vez que eu olhar
pros seus faróis bruxuleantes
vou me lembrar
de como eles estão mais presentes
mais vivos, mais sábios
que os meus apagados e tão complacentes:
cumprindo todas as ordens
obedecendo ao horário do ponto
assumindo as tarefas dos outros
engolindo o resto das frases
que ninguém espera pra ouvir
vestindo roupas caras
feitas por mulheres escravizadas
em troca da morte prematura
e repetitiva
da qual semanalmente
faço o meu funeral
Sim, todo dia
Agora eu sei
A tesoura afiada
Sim, agora eu sei
Todo dia
ele ri ele goza
a dose diária
de desespero dos que passam
Sua loucura me atravessa
feito um véu de lucidez
Tenho medo, confesso
de entrar nos seus olhos
e me afogar no abismo
das verdades que ele colheu de mim
e que eu apenas suspeito
Eu o odeio
odeio sua miséria
odeio sua fome, odeio
o cheiro úmido dos seus panos
o medo que ele provoca
odeio sua cama dura
sua raiz fincada no asfalto
E tudo dele que odeio
inevitavelmente
me pertence também.


NAYARA C. P. VALLE | Belo Horizonte, Brasil | nayaracpvalle@gmail.com

 

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. BERNARDO 15 de outubro de 2019 em 12:21

    Um retrato potente da impotência frente à miséria cotidiana.

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