Subversa

Um casal em crise | Silvia Gerschman

 

Aguardava no bar onde combinaram que ele chegasse, olhou o relógio, mecanicamente, ainda não eram sete da tarde, restava meia hora de espera e já estava impaciente.

Marcaram na saída do trabalho era mais impessoal do que se encontrarem para conversar em casa. Depois de tudo, ambos sabiam que não seria agradável, para isso era melhor um lugar neutro.

O viu sair do metrô, a saída da escada era frente ao bar, o observou como se nunca o tivesse visto calça esporte da Richards, camisa combinando e bem passada, sem gravata, pasta em mãos. Ainda que com uma vestimenta juvenil via-se tão envelhecido, rosto preocupado, olhar ausente e subindo as escadas com dificuldade, como quem anda pela rua com medo.

Chegou, sentou na cadeira já preparada para sua chegada, se cumprimentaram com um beijo de amigos. Escolheu o que desejava e chamou o moço, uma água sem gás, um café duplo e um sanduíche de presunto cru no pão francês. Começaram conversando de generalidades o dia de trabalho e os problemas de sempre os salários  atrasados na Universidade, os problemas com os colegas, os dias difíceis com a política no Brasil e o governador do estado sob impeachment. Os 80 tiros desse dia que o exército despejou, em Angra dos Reis, sobre uma família de população negra do subúrbio, apenas porque suspeitou que eram bandidos.

Enfim, o Rio de Janeiro é lindo… lancharam e começaram a tratar da sua própria família “sui generis” fazia 17 anos que estavam juntos, mas apenas os fins de semana, sem filhos de ambos, apenas a família de Raquel filha dela. Os 17 anos cansaram os dois e já ambos não desfrutavam mais de estarem juntos. A primeira coisa que os separou foi a situação desigual entre eles enquanto ela mantinha seu salário desvalorizado, fazia oitoanos que não recebia aumento, como todo pesquisador-professor universitário o salário é baixo para uma dedicação completa e sem horário. É todo dia e o fim de semana também.

A situação de Roberto que trabalhava num Instituto muito prestigioso da Universidade vivia sob a ameaça de ser fechado. Se bem isso não aconteceu durante 40 anos e, até a data, essa ameaça continua existindo. Isso fazia com que Roberto vivesse como se todo dia fosse ficar sem trabalho, o que fazia dele uma pessoa extremamente neurótica, a ameaça tocava os pontos frágeis da sua saúde mental.

Ele tinha tomado a decisão que não viajaria mais, não lhe interessava viajar, conhecer outros lugares apenas se interessava por ficar em casa lendo, ver um jogo de futebol na TV, o Jornal Nacional e, às vezes, um filme ou canal 50. Não escrevia sobre o conhecimento que acumulava e vez por outra fazia algumas pesquisas teóricas sobre temas que lhe interessavam. Seu saber o tornava um erudito, suas aulas excelentes, seu discurso bastante  articulado e a sua memória o acompanhava bem. Mas não escrevia uma palavra e quando o fazia era um sofrimento para ele e para Nanda que o acompanhava lendo o que ele às vezes escrevia.

A conversa que motivou o encontro trazia a ela um gosto amargo de café com açúcar carente do movimento de agitar a colherzinha no seu interior. No momento em que aproximava o café aos lábios sentia a falta da conversa que se desenvolvia apenas dentro de si mesma, faltava um interlocutor ainda que existisse alguém sentado frente a ela. Pois é o interlocutor no bar do centro da cidade, tinha decidido não conversar mais nada, além de ter enunciado os conteúdos de tudo que não queria mais fazer.  De resto, o pensamento dele era um mistério para ela.

Assim sentados e mudos, vez por outra olhavam pela janela à espera de que alguma coisa acontecesse fora da mesa que estavam sentados.  Mas o Paço Imperial permanecia na calçada frente à janela do bar, do lado esquerdo e o Palácio da Assembleia, também mudo, do lado direito. As pessoas que passavam pela calçada eram um desfile incessante de quase bonecos que iam e voltavam, pareciam ter muita pressa e não se falavam entre si.

Todos mudos pareciam reproduzir o silêncio do casal e como nos filmes mudos a tragédia, o desinteresse e a solidão transparecia nos rostos da multidão em movimento. Chegavam no sinal, paravam, aguardavam a troca e continuavam a atravessar a rua. Nanda que não conseguia mais suportar o silêncio disse: que você acha de andarmos um pouco, proponho vermos a exposição de Wei Wei, a uns passos, e ouvirmos a guia um mocinho trans estudante de arte da UFRJ, muito bem informada e interessada na obra do artista chinês? Ainda que já vi, faço questão de ver novamente e não acrescentou mais nada, apenas pensou sem se pronunciar- se dessa vez ele aceitaria sua proposta.

Num instante o céu cobriu-se de nuvens, um vento suave pareceu levantar da terra, em minutos o vento foi crescendo mais e mais… O que habitualmente está no chão  papéis, copos de cartão vazios, insetos e bichos pequenos, água, cigarros tudo misturado voava entre as mesas e a correria do povo na rua começava a diminuir, as pessoas buscavam refúgio e ainda bastantes transeuntes permaneciam nela. Fecharam a janela do bar e ficaram observando o que acontecia fora, era notável a velocidade com que crescia o vento e em milésimos de segundos ficaram desconcertados, as pessoas voavam pela rua que nem papéis, parecia que o peso dos corpos tinha se tornado leve se comparado à velocidade que adquiria o vento.

A situação tão bizarra fazia com que confusas e muito assustadas as pessoas estendessem os braços para as outras, tentando se agarrar em algo ou em alguém que ajudasse a parar o voo. Se tivessem imaginado como era voar, jamais teriam desejado usufruir dessa condição. A visão daquilo era chocante tudo ficava suspenso no ar bolsas, chapéus, guarda-chuvas, colares que fugiam dos pescoços das mulheres, crianças que se soltavam da mão dos pais, sapatos que caíam dos pés; os sons começaram a sair das suas bocas e uns conversavam com os outros, perguntavam aos mais próximos como se sentiam; expressavam perante os outros o medo, a sensação incompreensível de que morreriam por uma causa absolutamente desconhecida. Algumas choravam porque tinham temor de cair e estatelar no chão, aquele silêncio chegava-se a ouvir. A multidão silenciosa que enchia as ruas agora transformou-se num murmúrio permanente acima. Todos falavam ao mesmo tempo, riam de nervoso, choravam aterrorizadas, perseguiam os filhos sem conseguir os pegar, gritavam para alertar as suas crianças para não baterem com inúmeros obstáculos que planavam soltos no ar.

Embaixo, Nanda e Roberto, sentados ao abrigo dentro do bar se perguntando como não tinha acontecido com eles…Quase tão inermes como os que navegavam no céu os homens são natureza que não se sabe, em um instante a situação de sobrevivência e de compartilhar a própria ignorância, os tornavam exatamente iguais aos cães e gatos que voavam junto com eles. Agora, homens desarmados da sua consciência e alimentados do seu curto alcance e teimosia, pareciam bichos e nada os diferenciava destes: o presidente de um país estranho, o condutor de aviões, os generais de soldados, os empresários de operários. A condição humana estava exposta pela sua falência, não possuir nada além do corpo e a cabeça do resto, iguais, nada…

Nanda olhou a sua volta, aí estava ele desarmado, as lágrimas caíam dos seus olhos copiosamente, não havia como detê-las. Roberto a olhou detidamente, percebeu que as lágrimas desciam pelo rosto dela e um olhar do desamparo trazia para si a sua tristeza animalesca. Estenderam as suas mãos as seguraram e souberam que nunca as deveriam ter soltado…o gesto os conduziu a compreender que o motivo de tomar-se das mãos  era não se perderem de si mesmos.

O vento começou a amainar, as pessoas iniciaram a descida lentamente como se a lei da gravidade tivesse diminuído, mas não completamente. As crianças pousaram de modo que os pais as reconheceram, seguiram-lhes os adultos e os velhos, cada um a seu tempo ia caindo e alcançando a terra com seus próprios pés se aproximando uns dos outros. Controlavam novamente o movimento dos corpos enquanto isso o dia caía e a noite despontava no horizonte.


Silvia Gerschman | Rio de Janeiro, Brasil | Nascida em Buenos Aires mudou-se para o Rio de Janeiro onde mora desde 1977.  Desde 2015 vem desenvolvendo diversos estudos, romances e contos em Literatura. Publicou Contágios,  Editora 81/2 (2016); Ninhos, Editora Patuá (2019); O Renascimento em Outras Terras, Editora Patuá (2019), A Partitura de Clara, (2020), em fase final Um Lugar ao Norte, Romance.

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Gilda Lima 23 de março de 2021 em 13:11

    Parabéns Silvia! Adorei seu texto. É uma leitura tensa mas cheia de amor. Final feliz !!! 🙋‍♀️

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