Subversa

Trilhos | Giovana Proença


Toda semana o mascate vinha. Maleta de couro na mão esquerda, de certo era canhoto. Chegava da capital pelo trem, paletó grafite e um chapéu preto, usado para cumprimentar quem passava. Era um homem sorridente, os produtos se vendiam sozinhos por seu jeito brincalhão. Batia nas casas da vila sem fazer distinções. Vender um só batonzinho mixuruca ou um colar de pérolas, não importava. Acho que ele gostava mesmo era de trocar conversa, sentar nos sofás e tomar um cafézinho passado na hora… Quanto café deve ter tomado! Lá na vila a gente produzia muito café sabe, meu pai era quem dizia.

O mascate… Poderia te dizer o nome dele, mas a verdade é que eu nunca soube. Estranho pensar nisso. Para nós ele era simplesmente o mascate. Nunca deixou de passar em casa, mesmo quando corríamos mais de mês sem comprar nada. Toda semana, a maleta na mão esquerda – tenho certeza que era na mão esquerda, usava um relógio de ouro tão bonito. Batia à porta, mamãe abria. Ele tirava o chapéu em cumprimento e sorria para nós, as crianças. Ah, quer saber quantos anos eu tinha? Uns dez.

Um dia ele me deu um chocolate. Estava, como boa menina, acompanhando até a porta. Deve ter percebido minha fome, éramos muitos lá em casa. Eu disse éramos? Que horrível, somos! Estamos todos vivos ainda… Então, ele me deu um chocolate, desses que vendiam no armazém. Eu ficava um tempão olhando os chocolates no armazém, os doces no baleiro. Baleiro é uma coisa tão bonita, né? Mas o seu Antônio do armazém não vendia mais por caderneta para mamãe. Acho que o homem desistiu do fiado por nossa causa. Que barra de chocolate bonita! Guardei a embalagem vermelha, naquele dia ele disse que eu era uma menina muito das espertas, veja só!

Eu imaginava ele indo e vindo pelos trilhos que levavam até a capital, o chapéu escondendo metade do rosto. Já esteve em São Paulo? Hum, parece que todo mundo já. Dormíamos todos no chão num cômodo só e quando todos adormeciam, eu ficava sonhando acordada em comprar todas as coisas da maleta! Eu, de óculos escuros, igual à atriz que vi uma vez num filme que projetaram no cinema da praça, pegando o trem para a capital. Eu conseguia ver todo meu futuro iluminado na escuridão daquele quartinho.

O ponto alto foi o dia que anunciou o pó de arroz. Fiquei encantada. A marca se chamava lady, mas eu falava ladi. Meus olhos brilharam. Sem saber, ele anunciava minha vida de moça. Não tínhamos dinheiro, claro. Minhas esperanças alçaram voo quando, antes de ir embora, colocou o embrulho na minha mão, acenando com o chapéu. A criança ficou ali, na porta. A moça nasceu na frente de um espelhinho, se maquiando. Eu era uma dessas modelos de revista.

Meu pai trabalhava na plantação de café. Naquele dia minha mãe pediu, como quem ordena, para eu correr até a fazenda dar um recado. Não lembro qual, mas devia ser algo que ela fazia parecer mais importante do que realmente era. Fui, o fôlego castigado pela velocidade, e perdi a visita do mascate. Na volta, encontrei com ele já de saída da vila. Cumprimentou com o chapéu como sempre. Perguntei se estava indo embora. Confirmou. Não conseguindo conter a curiosidade, quis saber como era São Paulo. Não sei se ele se apiedou do meu brilho sonhador, mas disse que poderia ir com ele, se quisesse.

Um raio de empolgação me atingiu. Eu seria a filha do mascate! Andaríamos pelas largas ruas de São Paulo, como as dos filmes! Imaginei os automóveis cortando as vias. O movimento dos passantes, as fábricas! A ideia queimava cada uma das minhas veias. Um pai que era dono de todo aquele estoque de maquiagens com o ‘lady’ gravado na embalagem! Não podia acreditar em minha sorte. Eu ardia em contentamento.

Ele me guiava pela mão direita, enquanto levava a maleta na esquerda. Caminhávamos em passos curtos para a estação de trem. De longe, via às oblíquas a Companhia Ferroviária. Passei as mãos pelos tijolos da coluna como quem afaga todas as promessas e esperanças. O trem ainda não estava ali para cumprir seu papel no meu filme. Me imaginava sentada, dando um último olhar a vila que ficava longe. Ninguém para quem acenar, nem para correr atrás do trem. Esperamos na profunda paz, ele com a maleta, tirando o chapéu para cumprimentar quem passava. Eu, pulando em êxtase.

A batida do galopar de cavalos é algo que me provoca arrepios até hoje, sabe? Foi o som da ruína de todos meus sonhos de menina. Lembro imagens difusas. Meu pai e seus companheiros da plantação. Todos eles para cima de meu salvador. A maleta aberta no chão, o conteúdo caindo pelo trilho. O chapéu voou para perto de mim, eu o agarrei. “Ele não ia me fazer mal! Estava me levando para São Paulo, eu seria…”  Acho que é isso que eu gostaria de poder dizer naquele momento. Feliz, completaria a frase?  Não sei, assim como desconheço quem me viu desmaiar em meio a algazarra.

Quando abri os olhos, estava no chão de casa. “Eu seria a filha do mascate! Andaríamos pelas largas ruas de São Paulo, como as dos filmes! Imaginei os automóveis cortando as vias. O movimento dos passantes, as fábricas!”, clamava em meus delírios febris. Mamãe colocava panos molhados em minha testa.” Precisamos de um médico” “Bem sabe que não podemos arcar” “Sorte que o seu Antônio do armazém viu a menina de mãos dadas com o mascate” “Sabíamos que ele ia e vinha da estação de trem”. Ouvia as vozes confundindo-se em minha tontura aturdida.

Os dias febris foram substituídos pelas semanas de mudez. Nenhuma palavra era  pronunciada por mim. O apetite me fugia como os pardais que cantavam nas árvores. Não levantava por nada, os dias decorridos passavam todos iguais enquanto eu encarava o teto. O médico finalmente veio, decretou que eu morreria em um mês.

Como pode ver, não morri. Prossegui em meus muros invisíveis. Um fato me arrancou de meu estado. A fábrica seria instalada na cidade ao lado de nossa pequena vila. Os trabalhadores afoitos por trocar os trabalhos no campo se amontoavam nos portões da construção, em busca de oportunidade de trabalho. Entre eles, meu pai. Vestiu um terno remendado, a melhor roupa que tinha. Fez a barba com a navalha usando o tanque que ficava fora de casa. Virei a cabeça para ver o resultado e meus olhos foram para chapéu preto em sua cabeça. Foi o estopim. Meus gritos de criança no auge de sua potência ressoaram em alto e bom tom por toda a vila. Atirei o pó de arroz, polvilhando de branco o chão de terra batida.

Foi o dia em que os gritos começaram. Continuava absorta em não existir, quando rasgavam a calmaria. Nada podia fazer para impedir. Apenas deixava meu corpo irromper aos gritos. De noite, de dia. Quem mais sofreu foi mamãe. Nessa época nos mudamos para a cidade, meu pai estava enfim livre das enxadas, conseguiu o emprego na fábrica. A estação ferroviária de lá era tão bonita… Eles se incomodavam com meus gritos. Tinham medo de eu arrebentar a garganta. Será que isso é possível? Mandaram chamar um doutor diferente, médico de cidade é sempre cheio de pose. Desculpa a sinceridade. Chamou meus pais num canto depois de me examinar, sussurrou agitado muitas atribulações. Papai se deixou cair no sofá quando o doutor saiu, mamãe veio afagar meus cabelos. Os dois com olhar vazio de abatido.

Que pílula é essa? Para mim? Ah, obrigada. Estava até esquecendo… Continuando, fui tirada de vez do meu estado. Em todos os sentidos. Viemos para Minas. Dei um último olhar para a vila que ficava longe. Ninguém para quem acenar, nem para correr atrás do trem. Já não gritava mais, mal tinha forças para piscar. Mamãe me dava o remédio e eu tomava em meio a goles d’água sem vontade. Vim parar aqui, a maleta de couro igual a do mascate na mão direita do meu pai. Ele é destro. Cada um me deu um beijo no topo da cabeça e foi isso. Não, não os vi desde então.

Melhor encerramos por aqui, já me sinto sonolenta. Tá certo, mas vai ser a última pergunta que respondo. Se foi o médico da cidade que convenceu meus pais a me trazer? Não sei, não sei… Acho que decidiriam no dia que me joguei nos trilhos, uma bobagem, queria alcançar o trem… Eu não te contei? Que esquecimento! Já disse que a estação era muito bonita?

Transcrito de consulta. Paciente 52. Idade por volta dos 15 anos, comunicativa, acometida por lapsos desconexos e  crises nervosas. Alguns delírios de grandeza.

Recomendação: eletrochoque.

                                                                                                                          Barbacena, 1940.


Giovana Proença | Taubaté, SP | giiproenca_12@hotmail.com

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