Subversa

Torquato | Fernanda Paz

 

Era um dia comum na vida de Torquato.

Chegava cedo na firma.

Sempre às sete ou sete e vinte, porque vez ou outra o ônibus das seis e meia passava lotado e não parava no ponto. Assim, ele tinha que pegar o próximo e atrasava vinte minutos.

Às nove e quarenta e cinco, Torquato tirava da bolsa um saquinho de biscoitos de polvilho que sua mãe fazia, esse era o seu lanche.

O relógio de Torquato era pesado, mas não tão pesado como o da firma. Parece que os ponteiros não se moviam. Talvez porque Torquato olhava muito  ou pelo simples fato do relógio ficar pendurado na parede em frente à sua mesa.

Meio-dia Torquato arrumava os papéis, desligava o computador e saía para almoçar no self-service da esquina. Comida à vontade com direito a dois pedaços de carne sem aumentar o preço. A comida não era tão boa, meio sem sal e sem tempero. Torquato escolhera o lugar pelo preço.

Escolher pelo preço não se resumia apenas ao almoço, mas a quase tudo na vida de Torquato. Ou tudo? Sempre ficava imaginando em como seria poder escolher algo do cardápio porque realmente desejava comer ou beber.  Adorava cervejas e as melhores eram as mais caras. Juntando um dinheiro, vez ou outra conseguia tomar duas ou três, um porre nunca, só das mais baratas.

Uma da tarde Torquato já estava de volta à mesa. De olho no relógio.

Lembrava de como era bom ser criança. Brincar pela rua sem ter que contar o tempo. Acordar tarde. Criança não tem que pensar sobre o tempo, nem sobre dinheiro. Poderia ter um botão na vida que te permitisse ver como seria o futuro e, dependendo disso, optar a continuar sendo criança. Torquato apertaria esse botão e vendo tudo isso sem sombra de dúvida optaria em ficar retido na ingênua liberdade da infância.

Com muita luta o relógio chegava às seis da tarde.

Torquato arrumava os papéis na mesa, desligava o computador, pegava sua bolsa e ia à parada de ônibus. O ônibus das seis e quinze era sempre lotado. Ia espremido como uma sardinha em lata, ninguém pedia para segurar sua bolsa.

Torquato bocejava a viagem inteira. Quarenta minutos ou mais.

Sete anos.

Torquato começou na firma aos vinte, assim que se formou.

Já somavam sete anos.

Em casa, só o tempo de preparar algo para comer, tomar um banho e dormir. Talvez uma cerveja. Mas comecinho de mês sempre era aperreado.

Era nove de novembro. Dia seguinte seria dez.

Seu aniversario de vinte e oito anos.

Mais um ano.

Mais um dia.

Mais uma hora.

Mais um minuto.

Mais um segundo.

Torquato insone, relógio marcou três da madrugada.

Levantou-se da cama, foi até a cozinha levando um colchonete que comprou para acampar, mas nunca acampou.

Acamparia essa noite.

Na cozinha.

Arrumou o colchonete com travesseiro, lençol e tudo.

Talvez agora conseguisse dormir o sono dos justos.

Antes de deitar ligou o gás.


Fernanda Paz | Escritora, Artista Visual, Produtora e Professora. Graduada em Artes Visuais e Especialista em educação infantil pela Universidade Federal do Piauí. Atuou em curtas-metragens e montagens teatrais; Publicações: O Buraco e Outras Histórias (Editora Multifoco) e Olhos de vidro (Editora Quimera). Insta: @nandapazss Blog: https://fernandapazs.wixsite.com/lapsos

 

 

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. elimacuxi 15 de janeiro de 2021 em 15:46

    Que pedrada!

  2. Ana Paula Vilela 23 de janeiro de 2021 em 11:09

    Lindíssimo. Escrita fluida que foi me levando junto a essa rotina cunzenta de Torquato. E que final impactante!

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