Subversa

Tonel de Danaides | Loecy Rosa Damásio (Porto Alegre, RS, Brasil)

Ilustração: Daniela Sá

Porque havia um tonel de Danaides no confim da casa; e não se sabia quem o havia posto lá. Era verdade que à sua chegada o tonel já estava lá e que, apesar do incômodo de sua presença, combinava com a casa. Mas não devia haver um tonel de Danaides em casa; em qualquer que fosse o cômodo; bem o sabia. Não que fosse feio _ negativa que não lhe atribui as características do belo; mas se ao menos contivesse as águas celestiais da mais duradoura tempestade… Pois a sede não cessava. Talvez por causa do tonel. Não; não devia ter um tonel de Danaides em casa, mas não lhe pertencia; não absolutamente. E teria de cavar o confim para desenraizá-lo; mas, se assim o fizesse, a cavação soterraria a casa. O tonel era irremovível. Tinha de aceitar: havia um tonel de Danaides no confim da casa.  Algo na afirmação era inaceitável. Talvez porque insistia que a casa não devia ter um tonel; simplesmente porque ambos ocupavam um espaço comum; e a casa, por mais que tivesse mais cômodos, por mais que houvesse um esforço sobre-humano para expandi-la, continuava limitada por essa ilimitude _ não aparente _ que o tonel irrompia; porque esta era a natureza de seu ofício: esburacar a fonte; e isto lhe parecia injusto, mas teve de confessar que a casa ficaria em ruínas sem o tonel; e já devia estar arruinado quem o deixou lá. Se inclinasse a cabeça às bordas do tonel e se desequilibrasse, haveria o nunca, porque não voltaria para casa; sabia disto, tanto quanto os peixes sabem que devem fugir das garças, jamais saltando à superfície para tomar ar; não, deviam mergulhar e permanecer em mergulho. Simplesmente sabia. Sim, havia um tonel em casa e não podia refutá-lo. O fato era: tinha sede e não podia inclinar-se sobre o tonel. Lá, e ali, em alguma aduela daquela concavidade, podia ouvir as fontes escoarem inesgotáveis; apesar de não _ nunca _ entorná-las no tonel. Mas a sede não lhe incomodava; não tanto quanto o tonel; ainda que julgasse a casa portadora de um tipo raro, e único, de singularidade, se avistada em relação às pluralidades do lugar: intrigava-lhe não poder mudar o tonel de posição. Qualquer que fosse o mais recente cômodo construído devia, por razões matemáticas, contornar o tonel. Não havia corredor na casa livre do cruzamento com o tonel. Mesmo os cômodos dos andares superiores tiveram, num cálculo preciso, suas edificações baseadas no tonel. Não; não se devia ter um tonel de Danaides em casa; bem o sabia; tanto quanto não devia ter uma região movediça no deserto. Mas à sua chegada o tonel já estava lá. E a casa tinha as proporções grafadas no tonel; mas as medidas extrapolavam as leis do confim. A solidez do tonel lhe atribuía a forma externa de um googólgono; o que, naturalmente, resultava imaginar que o abstrato lhe conferisse o disforme interno de um googolplex. Era melhor não pensar naqueles números; ao menos não em termos matemáticos redutores; afinal, a princípio, bem podia ser que o tonel de Danaides já estivesse lá, antes que o arquiteto pudesse calcular as dimensões da casa; mas isto lhe parecia improvável; ainda que a presença do tonel impedisse que probabilidades fossem negadas de prontidão. Não; melhor não pensar naqueles números. Mas, ainda que _ apenas talvez _ o tonel não tivesse qualquer senso, culpava-lhe pela desorientação a que se refere à disposição das janelas e portas da casa; e tudo mais que estivesse lá dentro. Não havia um elemento que se dispusesse à ordem: a não ser que a caoticidade pudesse ser considerada uma ordem. Mas o que tinha de ver com isso, afinal: a casa que se resolvesse; já havia sido construída antes de sua chegada; e ainda estaria construída depois de sua partida. Não; nada tinha de ver com isso. Podia _ e deveria _ vedar o tonel; a sede que se acostumasse a se sentir. Recobriria o tonel que cobria o confim a descoberto; isto amenizaria o desconforto para com os números _ inumeráveis números! _ grafados no tonel.  Era verdade que pensava em desconstruir a casa; só não acreditava que o faria realmente; não lhe pertencia: não absolutamente. O que lhe indicava que a casa, o tonel, os números, tudo podia comprimir-se à equidade do zero ou à nulidade do invisível; era a abstratude _ esta particularidade que a solidez do tonel resguardava, da forma que os buracos espaciais estruturam as galáxias _ a diferença a que se assemelhava; pois bem podia ser que a sede fosse excessiva àquela falta que o tonel ocultava pelo ofício de revelar; e esta mesma diferença lhe assegurava a possibilidade de haver toneis naquele tonel: um para unidades absurdas de fontes inesgotáveis no confim da casa. Não; não devia haver um tonel de Danaides.    

 


LOECY ROSA DAMÁSIO é formada em Letras pela PUCRS. Foi aluna do escritor e professor de Escrita Criativa Charles Kiefer pela Oficina Literária Charles Kiefer e Editora Ltda. Ex-integrante do grupo musical RimaQ’Age, vencedor de dois prêmios em Campinas-SP. Administra o site: loecydamasio.wixsite.com/libreto.

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1 Comentário

  1. Estevan de Negreiros Ketzer 6 de novembro de 2019 em 00:10

    Este conto é genial! Parabéns, Loecy, por iluminar minha noite!

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