Subversa

Terra Prometida | Marco Aurélio de Souza (Ponta Grossa, PR, Brasil)

Ilustração (aquarela e nanquim): Raysa Ricco Pavão

Ilustração (aquarela e nanquim): Raysa Ricco Pavão


Nem sempre a tua pronúncia desengonçada

Cheia de gaguejos e consoantes fora de lugar

Fez coadunar com os meus erros de caligrafia calejada

Pelas ameaças cotidianas da língua

E o terrorismo velado dos bancos escolares.

 

Contra o abismo das gerações

E dos estrangeirismos e migrações da época

Havia entre nós, entretanto

O discreto milagre

Da comunicação.

 

Embrulhando em histórias as panelas de ferro

Pesadas de repolho e polenta

Teu tronco baixo e largo agremiava orações

E no teu encalço se reuniam

Mil matilhas

A farejar as ratazanas

Decepadas

Do porão velho e mal iluminado

Onde se escondem os segredos das crianças

Assustadas, de braços dados com as patas úmidas

Dos cães que uivam à espera

Da sua hora:

O cabo liso da enxada

Revela a morte

Nos corações fragilizados

Da infância

O sacrifício do amor

Coagulado.

 

Enquanto Carol Woitila me acena

Do lado de dentro dos quadros e retratos

Da tua fé

Nas paredes da casa que cresce

Feito um organismo vivo

Sua dicção centenária

E balbuciante

Contorna todos os erros

Da vida

Proliferando ortografias ofegantes que se corrigem

Por filhos e netos

Para além da cozinha em horizontes de pinheirais que verdejam

Em festa

E inaudíveis gargalhadas.

 

Repousa no baú tornado banco teus membros frágeis

Carcomidos pela idade

E assiste ao desfilar das frivolidades

Das novas já tão velhas e vazias gerações

Cheias de uma coragem dispersa

No mundo contingente e tomado por inteiro

Pelas garras

Da tolice.

 

O eco perfumado

De um catalisador dos traços

Que se reparte em rugas pelo espaço ao redor

Espraia nas sombras murmurantes

Do teu sótão empoeirado

Colônias de minúsculos insetos

E lagartos

Em fotografias vivas de linhagens maternas

Exaustas, porém nunca

Exauridas.

 

Tão logo a solidão se amansar pela morada

Teu rosto capturado pelas máquinas

Delirantes

Descansará ao lado de antigas memórias esquecidas

Como a relíquia de uma terra prometida

Recém-fundada

Na existência pura e plena

Da Eternidade

Enfim reencontrada.


MARCO AURÉLIO DE SOUZA é natural de Rio Negro/PR. Autor dos romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Participa das antologias poéticas 29 de abril (2015) e Patuscada (2016). Travessia, seu primeiro livro de poemas, tem lançamento previsto, pela editora Kotter, para 2016.

Marcado com:

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. João 1 de outubro de 2016 em 20:55

    Fiquei emocionado

  2. carmela 10 de outubro de 2016 em 22:23

    Muito lindo mesmo Marco ..me fez sentir um clima de final de tarde sozinha em campos verdejantes !

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367