Subversa

Temporada de Andorinhas | Marlon Vilhena (Belém, PA, Brasil)

Ilustração: Neal Pickhaver

Ilustração: Neal Pickhaver

É assim que será. Eu vou pular dessa ponte e abrir os braços. O vento vai me pegar em algum ponto, talvez logo no início da queda. Daí eu caio, caio, e espero que os olhos comecem a lacrimejar forte. Dessa vez é pra valer. Vou ter o baque me esperando no final. Cena de filme, iluminação natural, sem câmeras de zoom. O melhor presente que vou dar a mim mesmo nessa vida. Porque a gente sempre deixa o melhor para o final, é assim que é, assim que será. Porque o cansaço venceu, naqueles minutos finais do jogo. As andorinhas vão me amparar depois, eu sei que vão. É, soa como alucinação, mas eu sei que, no final, elas estarão comigo. Nelas eu tenho fé. Só tenho confiança nos pássaros hoje, têm suas penas, são perfeitos estrutura e esteticamente, e ponto final. Deus não se importa, porque tem mais o que fazer do que prestar atenção a essa ponte. Ele tem muito papel pra despachar, muitos carimbos pra carimbar, agenda lotada, essas coisas. Eu também não tenho muita conversa com ele. Nós nos deixamos em paz, cada um com seu inferno. Eu com minhas misérias, ele com a pilha de processos para serem processados. Fiz o que pude pra levar na boa os dias. Os dias se tornam cinza, bem lá no finzinho, ou melhor, aqui. Tentei ser bom, mas descobri que é preciso ter talento pra bondade, se você não nasce defeituoso. Todos nascem com falhas, alguns têm menos azar que outros. É difícil ser humano no sentido pleno. Na verdade, impossível. Então que se dane. Cansei da hipocrisia. Cansei da minha cara, das máscaras, dos escudos, dos sorrisos. Felicidade é uma propaganda de margarina com balões e um piano ao fundo. Tudo invencionice. Retirei o que tinha na conta do banco, enfiei num envelope e deixei com uma senhora imunda e seus cachorros cobertos de sarna no caminho. Pois que façam melhor proveito do que eu. A leveza é algo a ser admirado. Ninguém escutava o que eu dizia, agora não interessa mais. Que continuem surdos, pra mim já deu. A desistência também requer colhões. O cansaço possui suas recompensas. O cansaço não é para qualquer um. É preciso coragem para se cansar e desistir, firmeza para abrir a mão e largar a corda. Sem julgamento do mundo, por favor, sou apenas o cara de pé sobre a beira da ponte, numa tarde comum. Sinto falta das nuvens. Vou abrir os braços e elas não estarão lá em cima. Dessa vez vou com tudo, a gravidade faz o resto do serviço. Um carro acabou de passar, o motorista diminuiu a marcha, não parou, olhou para mim, seguiu o rumo. Acho até que tirou uma foto com o celular. Tanto faz. A filha pequena dele, no banco de trás, também olhou, disse alguma coisa ao pai, acenou um tchau. Não respondi, não vou me meter na vida dos outros a essa altura. Uma andorinha pousou perto de mim. Parece me encarar com aquele jeito neutro que elas têm de olhar para as coisas. Virou a cabeça, virou outra vez, deu uns passos, parou, pegou uma carona no vento que passava. Um sinal. Vai fundo, serzinho esquisito parado de pé sobre isso que você chama de ponte. Sim, vou fundo, pode acreditar. Aproveita o vento, ela disse, está uma delícia. Vou aproveitar, não se preocupe comigo. O azul ficou um pouco mais cinza. Aparentemente tudo está como devia, menos as nuvens. É delas que vou sentir falta, uma pena.

            Porque a Lili é minha boneca e minha amiguinha, minha melhor amiga, além da Raquel, eu gosto da Raquel, ela é legal, a gente brinca juntas, a gente estuda juntas, ela gosta de desenho animado, eu gosto de desenho animado, tem também a Juju, a gente brinca, a gente faz bolinho de mentirinha na casa dela, a gente corre juntas na hora do recreio, eu não gosto muito é dos meninos, eles tão sempre esfregando o nariz, se sujando todos, querendo mostrar o piu-piu deles, não sei por que eles têm mania de mostrar o piu-piu pra gente, aquela coisinha feia que parece um amendoim, outro dia eu comi amendoim, na verdade não foi amendoim, foi doce de amendoim, mas tava muito gostoso, mamãe disse que era pé-de-moleque, eu fiquei com medo, não quero comer pé de nenhum menino, não, chorei mas a mamãe riu e explicou que era só o nome do doce, que ali não tinha pé de moleque nenhum, ainda bem, né, que tinha mesmo era amendoim, daí eu falei que se fosse amendoim, eu comia, e comi, e foi gostoso, comi o pé-de-moleque inteirinho, eu gosto muito de doce, dá uma sensação boa na boca da gente, a Raquel disse que já tinha comido em festa de São João, eu também gosto de festa de São João, a hora da quadrilha é bem divertida, tem as fantasias, tem as comidinhas, mamãe disse que eu não posso beber vinho quente, disse que é bebida pra gente grande, eu também nem gostei do cheiro disso, mas o resto é bem legal, tem canjica, tem musiquinha de forró, e na hora que acendem a fogueira, caramba, é muito bonito ver a fogueira bem alta, toda cheia de fogo, dá muito calor, né, se a gente fica muito perto, agora tô com saudade da Raquel, da Juju também, a Lili tá aqui comigo, ela é super minha amiga, só que não responde quando eu pergunto alguma coisa, o papai tá me levando pra casa da vovó, eu não sei bem porquê, ele falou que é aniversário do vovô, eu nem sabia que gente velha como ele fazia ainda aniversário, parece que é muito aniversário que ele já fez, todo enrugadinho, uma vez perguntei se ele tinha tido algum acidente e não tinham colado direto a pele dele de volta e ele riu muito, eu não entendi a risada, eu queria saber mesmo, o vovô tem um cheiro meio estranho, vai ver é a pele que tá descolando da cara e dos braços e das mãos dele, mas eu gosto dele, ele é bonzinho comigo, a vovó também, só que ela sempre fica perguntando se eu já comi, se eu dormi bem, se tá tudo bem na escolinha, tem vezes que a vovó é um pouquinho chata de tanto que pergunta as coisas pra mim, mas é bem legal também, enrugadinha também e até mais bonita que o vovô, a mamãe já tá esperando a gente lá na casa deles e sou eu que vou entregar o presente do vovô, foi o que o papai me disse, o presente tá aqui do meu lado, ele pediu pra eu tomar cuidado, não deixar cair nem amassar, por isso eu olho pra ele o tempo todo, pra não deixar cair no chão do carro. Ei, o papai parece que tá freando, será que aconteceu alguma coisa errada, ele esqueceu alguma coisa e a gente vai ter que voltar pra casa, hum, ele não tá parando, ele tá é olhando pra fora, tá olhando pra beira da ponte onde a gente tá, tem alguém ali, é um senhor que não se mexe, fica olhando pra cima, mas tá de costas pra gente, ah, agora ele virou a cara pra cá, não sei se é normal ter gente parada na beira da ponte assim, eu não fico ali, dá muito medo de olhar pra baixo, não sei bem por que, mas dá, o papai perguntou agorinha o que é que esse sujeito tá fazendo ali, acho que tirou uma foto com o celular dele, olhei bem nos olhos do homem, a cara parece um pouco fechada, mas acho que podia até conversar com ele, não parece uma pessoa ruim, feito aquelas que a mamãe diz que é pra eu evitar na rua ou em qualquer outro lugar, só que daqui de dentro não deve ter problema, né, acho que deve tá se sentindo meio sozinho, não sei como é que posso saber disso se nem nunca vi ele antes, dei um aceno e sorri um pouquinho, só um pouquinho, ele não respondeu, pode não ter me visto, tudo bem, eu sou pequenininha, ainda vou crescer muito, disse o papai uma vez, e vou ser mais bonita ainda do que já sou, não sei se sou bonita, a Raquel é, a Juju também, elas dizem que gostam do meu cabelo, eu também gosto do cabelo delas, agora acho que nem sei se quero crescer muito, é tão legal brincar e correr e fazer um monte de coisa divertida, gente grande não faz isso, não brinca quase nada, não corre, só vi a mamãe correr duas vezes porque tava atrasada pra sair pra algum lugar, acho que gente grande é tudo meio chata, gosto mais é das minhas amiguinhas, da Lili também, gosto de levar ela pra todo canto, gente grande devia brincar pra valer, eles devem esquecer como é isso quando crescem demais, eu sei lá, mas não tenho muita vontade de crescer, não, vai ver foi por isso que aquele homem tava ali na ponte, devia tá muito sozinho, sim, podia tá esperando alguém pra brincar com ele, agora fiquei um pouquinho triste, bem que o papai podia ter parado pra gente brincar com ele, não ia fazer diferença, eu acho, aliás, a gente até podia convidar ele pro aniversário do vovô, é, seria legal, super bacana, o vovô ia gostar, ele gosta de todo mundo, ele ri bastante, podia fazer aquele homem rir também, o papai vai achar estranho, mas será que dá tempo de pedir pra voltar e falar com o homem na ponte.

            Ora, e essa agora, minha filha quer que eu pare pra falar com aquele sujeito estranho, vê se pode. E convidar pra festa. Não tem o menor cabimento um negócio desses. Falei que podia até ser perigoso, e que ela deve sempre evitar falar com pessoas desse tipo, pessoas que ficam sozinhas são esquisitas, podem ser muito violentas, minha querida, não dá pra confiar. Lembra o que significa confiar, não é. Pois bem, fique longe de pessoas assim. De repente está na hora de comprar um celular simples para ela levar a todo canto. Pode ser bem útil. Hoje não dá mais para se sentir seguro de jeito nenhum, em lugar nenhum, em hora nenhuma. Além do mais, estamos em cima da hora pra chegar à festa. Sem condição de ficar parando pra qualquer um. Acho que aquele cara está pensando em se matar. Tinha toda a pinta. Se é que já não pulou da ponte, daqui não dá mais para vê-lo. Por via das dúvidas, tirei uma foto. Pra ser sincero, sei lá o motivo de ter tirado a foto. Curiosidade, talvez. Quem sabe reconheço ele quando a polícia ou os bombeiros retirarem o corpo do rio e o rosto estiver estampado na página de algum jornal, ou num site de notícias. Olha eu aqui, pensando na morte do outro. Ai, cacete, agora ela está com a carinha triste, conheço essa carinha. Mas não tem jeito, não mesmo. Ela pode até começar a chorar, eu não vou dar meia volta. Minha filha, entenda, a gente não conhece o homem, não adianta voltar lá, ele deve estar passeando, é isso, nada de mais. Vamos deixar o sujeito em paz e vamos pra festa, que o seu avô está lhe esperando. Ele ama você, todos nós te amamos muito, vamos nos divertir bastante hoje. Aquele homem tem a família dele, deve brincar com os filhos dele e gosta de olhar o rio correndo lá embaixo. Não, não sei onde os filhos dele estão, não sei quem são, eu não o conheço. Vamos deixar assim. Ótimo, parece que ela se conformou. Voltou a brincar com a boneca. Que cada um cuide da própria vida, pombas. Olha, quer saber, o cara que se dane pra lá. Mas vou ficar atento nas notícias de amanhã.


MARLON VILHENA é natural de Macapá, Amapá, Brasil. Em 2013 lançou a coletânea de contos As Horas Todas da Carne (All Print, 2013). Viveu em Minas Gerais e São Paulo, trabalhou como garçon e professor; fez bicos como segurança e músico. Formou-se como químico. Já colaborou com textos em diferentes mídias eletrônicas. Atualmente mora em Belém, Pará, Brasil. | http://marlonvilhena.blogspot.com/ | M.ITSARI@GMAIL.COM

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