Subversa

Só chora quem ama | Saulo Pereira Guimarães


Poucos momentos são mais tensos do que aqueles que antecedem um desfile de escola de samba. Antes de tudo, há um burburinho de gente aflita e ansiosa. Desesperado, o cavaquinho é o primeiro a atacar. Logo atrás, vem a caixa, apressada. E um surdo só, com uma pancada seca, rápida e precisa, vai fazendo a marcação: pumbum, pum, bum, pum, bum, pum, bum… Nena era porta­bandeira. Tem gente que pensa que passista e porta-bandeira é a mesma coisa. Não é. Porta-bandeira tem que ser fina. Saber bailar na avenida. Flutuar. Ter cintura redonda para apoiar o estandarte. Quadril bonito para sustentar as anáguas. Sorriso largo para encantar jurado. Saber girar como uma estrela. No fundo, toda porta­bandeira é uma orixá.

A mãe era lavadeira. O pai, vagabundo. Mamãe sempre me dizia que ficasse longe. Lavadeira ela também. Pai, se eu tive, não conheci. Mamãe dizia que era marinheiro e, com os olhos molhados, me mandava esquecer. E assim, fomos criados juntos, eu e ele. Eu e Manuel. Eu e Mané. Eu e Nezinho.

De lazer, só a bilha. Isso aqui tudo terra batida. Nezinho e eu. De calça curta e camisa de botão. Disputando com o moleque da rua de cima e o Castilho, sempre muito sério. Estávamos assim um dia quando Nena chegou. Dona Amélia mandou Nezinho acompanhar. O mal de Amélia é ser boa demais, mamãe dizia. E lá ia Nezinho, apresentando à Nena os lugares disso aqui: aqui é o Júlio; aqui é a bica; Mãe Cantuária, ela é baiana que nem a senhora, viu? Com essa coisa de samba, ele só se meteu mais tarde. Andou um tempo pelo Estácio. O velho ensinou. Nesse tempo, o Castilho já tinha a banca e fazia jogo. O moleque da rua de cima, a gente perdeu contato. E eu queria engajar, para ser marinheiro que nem meu pai.

A escola ia ser a última a desfilar. O cavaquinho nervoso. Desesperado. A caixa de guerra na mão do negro de bigode fino, unhas bem­feitas e cigarro caindo no canto da boca. Ela ataca. Logo depois, o surdo. A pancada seca, rápida e precisa: pumbum, pum, bum, pum, bum, pum, bum…

E, naquele ano, foi Nezinho quem cantou.

Cantou como ninguém nunca vira antes. Cantou como um monstro. Cantou como um gigante.

Cantou com alegria, beleza e elegância. Cantou como um nobre. Cantou mais alto do que todos para que todos pudessem ouvir. Cantou como um passarinho. Cantou como um rei.

Nezinho era nossa voz. Nele, todas as nossas aflições e esperanças. Cada coração era um saco de confete. Cada alma era uma chuva de serpentinas. Era como se todos cantássemos por ele. E cantávamos. Era como se a manhã nascesse é pelo canto de Nezinho.

Na quarta-feira, o resultado: Grupo Especial.

Essa rua aqui ficou tomada. Vinha gente de todos os cantos. Nunca vi isso aqui daquele jeito. Nem antes, nem depois. Era impossível entrar aqui no Júlio e pedir uma cerveja. A cidade subiu a colina para ouvir Nezinho cantar. E ele cantou tudo de si pela última vez.

Passou carnaval. Nezinho era o cara. Todos queriam ser como ele. Os moleques pediam dinheiro quando ele passava. Os marmanjos pediam dinheiro quando ele passava. As mulheres pediam dinheiro quando ele passava. E ele nunca negou. O mal de Nezinho foi ser bom demais. Nena queria, ele não. Tinha puxado o pai. Ou talvez não, só não estivesse afim. Sei lá. Não queria. Mas Nena insistindo. Nena jovem e linda demais. Cintura redonda. Quadril bonito. Sorriso largo. Nena mulata queimada de sol. Bonita. Girando como uma estrela. Uma orixá. Marcaram a data. Queima de fogos. Saraivada de balas pro ar. Lembro até hoje do sorriso dela na hora dos cumprimentos. E do sorriso dele também. O casal mais sortudo de todos. Ele, com ela. Ela, com ele. Sim, eu estava lá.

No mesmo ano, veio o LP. Virou Nezinho da Nena. “O único nome artístico que é uma declaração de amor”, ele dizia. Na capa, ele desce essa rua aqui mesmo. Isso aqui tudo terra batida. Ele de terno gelo, calça neve, sapato bicolor. Camisa listrada preto e branco. Chapéu de palha. Sorriso no rosto. Cantou até no Chacrinha. E mudou.

Sucesso. Sabe lá Deus o que é isso. Um golpe de sorte ou um jogo de azar. O fato é que Nezinho pirou na grana, nas mulheres, na bebida. Tudo era muito mais do que ele podia esperar. Para quem matava cachorro a grito. Para quem passou fome. Sucesso. Tudo muito. Tudo demais.

Era domingo. Nessa época, já tinha o campinho. Depois do jogo, vínhamos todos para cá beber. Beber não resolve os problemas, mas faz a gente esquecer. Então, aos domingos a gente vinha aqui no Júlio. E bebia, bebia, bebia…

Estávamos todos aqui. Eu, Júlio, Castilho. Castilho sempre muito sério. Castilho não jogava bola para não se sujar. Enquanto a gente jogava, ele recebia as demandas. Uma perna mecânica para o meu filho. Uma vaga para o meu sobrinho na Rede. Um disco de Nezinho. Uma vitrola. Ia anotando e despachando. Só cobrava uma coisa. Lealdade. E foi isso que o moleque da rua de cima não teve. Ele sempre foi meio errado. Na primeira oportunidade, se envolveu. Todos sabiam, mas ninguém falava. Isso naquele tempo ainda não era assim.

Havia nobreza.

As famílias não tinham nada além de nobreza. Não é pose, pompa. É diferente. Um sujeito jamais roubava alguém daqui. Castilho era errado, mas andava na linha. Só por isso era respeitado. Tudo tinha assim um respeito maior.

Na escola, ensinam que os brancos vieram da Europa e os negros da África. Que os brancos que viraram nobres eram pé-rapados, bandidos, degredados. Que os negros que viraram pobres eram médicos, sacerdotes e até reis. Não sei, acho que isso chegou de algum jeito na gente. Que a nossa nobreza é só um traço que levamos adiante.

Mas ele não.

Chegou no Júlio. Pediu uma cerveja. Todo mundo calou. Onde Castilho estava, não era digno que ele estivesse. Mas veio. Ficou aqui bebendo, sossegado. Porque mais errado está sempre quem começa uma briga. É a lei. Sempre. Castilho contando dinheiro.

Pediu uma cachaça. Sol de meio-dia. Campo vazio. A cachaça no fundo do copo. Alguém leva a mão até a cintura. A cachaça enchendo o copo aos poucos. Um calor estúpido. E o campo vazio. Quem sacou primeiro, eu não sei. A cachaça já pelo meio do copo. Era coisa para ser usada só em último caso. O copo quase transbordando. Começaram os dois. Um estrondo. O copo se espatifou. Gente correndo apavorada.

De repente, uma rosa nasceu no peito de Castilho.

E, como uma folha seca, ele começou a cair. Lentamente. Uma rosa vermelha manchou de morte a camisa branca de Castilho. Ninguém em volta acudiu, nem nada. Ficamos todos em ali, vendo a rosa desabrochar. Era o fim. Naquele dia, ninguém mais bebeu.

Nena não durou dois meses fora. Não aguentava mais o pó, os porres, as puladas de cerca. Lembro até hoje dela chorando na sala lá de casa, linda, num vestido branco, dizendo assim à mamãe:

— Subiu à cabeça, Dona Maria, subiu à cabeça.

Ficou combinado que Nena ficaria lá em casa. Ficou combinado também que qualquer assanhamento meu seria alvo de punição. Com Dona Maria, era melhor não arriscar.

Mas não deu.

Nena era jovem e linda demais. Eu era jovem e vivo demais. Em agosto, ela me contou. Nasceu em pleno carnaval. Ela escolheu o nome. Manuel. Mané. Nezinho.

Nena não saiu porque estava grávida. O samba era difícil. A bateria atravessou. Nunca mais voltamos ao Grupo Especial. Cinco anos depois, a Só Chora Quem Ama enrolou a bandeira.

Às vezes, quando volto do trabalho, vejo Nena na janela. Desde que mamãe morreu, ficamos com a casa. Sei no que ela está pensando. Mas deixo. A vingança é o medo de perdoar. Nena podia ser tanta coisa. Mas é só mais uma moça triste na janela. E o pior é saber que não posso resolver isso.

Nena quer Nezinho. Nezinho de Nena. Por onde anda Nezinho? Não sei. Dizem que passaram por cheirar demais. Que perdeu tudo no jogo. Que arrumou uma mulher que desgraçou sua vida e que agora, só faz beber. Então, agora venho aqui para o Júlio e tomo alguma coisa até juntar coragem para os olhos molhados de Nena e pedir a ela que bote o jantar.


SAULO PEREIRA GUIMARÃES | Rio de Janeiro, Brasil | sauloguimaraes90@gmail.com

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2 Comentários

  1. Jacqueline 16 de fevereiro de 2020 em 14:14

    Lindo .

  2. Eliete 17 de fevereiro de 2020 em 20:21

    Linda crônica! Relato feito com criatividade e muita sensibilidade. Amei!

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