Subversa

Seu Nome | Gabriela Ruggiero Nor (São Paulo, SP, Brasil)

Foi outro dia que seu nome foi parar na minha língua, quase seunomesaindo da boca, quase invadindo ar e mundo. Mas eu, que num instante sentira o estômago se retorcer em falta, busquei alento no gosto fervido em memória e segui caminhando; mas eram seus passos que eu repetia, após cada esquina cruzada, um sinal, e mal sei como cheguei em casa depois de tanto lutar contra as letras que escorriam cálidas, uma após a outra; mas eu disse:
– Eu moro na rua Flórida número 165 – procuro a rua Flórida número 165 – o senhor pode por favor me ajudar?, num soco só, letra atropelando letra.
Ele me indicou o caminho e com as mãos tremendo eu girei a chave do meu apartamento, que é no prédio da Rua Flórida, no décimo andar.
Ninguém mais me viu entrar em casa fugida.
No meu quarto há estantes de livros meus e há também os livros que você deixou. Eu os guardo debaixo da cama e quando não posso dormir folheio as páginas que discutimos juntos. Ali está sua letra, seu nome, sua caligrafia vacilante, torcida para a esquerda, seus floreios para as letras maiúsculas e as diferentes cores para marcar as passagens mais bonitas. E quantas vezes não estávamos tão cansados depois do trabalho, mas ao chegar em meu quarto, quando você vinha me ver, e eu cozinhava para nós dois, e você abria o vinho, e eu fingia não saber usar o saca rolhas, só para elogiar sua perícia, e depois deitávamos e o abajur cintilava em suas pálpebras calmas de homem calmo, e nós, mesmo cansados, líamos algumas dúzias de frases e o encanto se fazia, a pele tocava o livro que tocava o corpo que tocava a cama. De madrugada era tropeçar na pilha de livros, ao beber água, e lembrar dos momentos anteriores enquanto os goles gelados iam lavando o vinho do corpo, e lá fora um ônibus anunciava o recomeço do dia; assim foi que diversas páginas dos seus livros ficaram marcadas, mas também eram seus dedos enterrados em mim que depois passavam pelas margens enquanto você alcançava a taça ao lado da escrivaninha, e depois os cheiros se misturaram às folhas dos livros e hoje é difícil ler certas coisas sem lembrar de você, sem que eu mesma não me sinta como a personagem infame de um romance de banca.
Às vezes, também viajávamos e então era a música que ditava a nossa postura, e íamos das odes melancólicas ao som mais pesado e insuportável. O sol entrava quente pelos vidros do carro. A pele arrepiava e os corpos se tornavam informes. Uma massa de gente grudada. E por mais fundo que você viesse, nunca era suficiente: havia um ponto qualquer que não se podia alcançar. Muita fome, muita sede, muita dor, e o deslumbre contínuo do corpo, que saciava e anestesiava, até o ponto em que as palavras abafadas quase não faziam mais diferença. A indiferença entre o sim e o não. Você sabia que eu nunca havia sido tão apaixonada: você adivinhava, pelas minhas pálpebras que pulsavam e tremiam continuamente. Eu pensava que éramos de outros tempos. O seu nome explode ainda em mim. Ancestral.
Quando não havia desejo, eu duvidava de nós, mas suas mãos calmas pegavam nas minhas e sua cabeça repousava cansada em meus braços, e de pouco o choro vinha manso, você não precisava explicar, mas mesmo assim tentava, balbuciando nomes e ocorrências. Ah, você dizia, “ele”, “ela”, “a minha família”, “quando eu era mais jovem”, “o meu trabalho”, “aquele dia em que você”, eu te ouvia no desespero de não ajudar, pois não se compreende inteiramente o sofrimento do outro, eu não entendia, mas eu sofria tanto junto, e você se afogava no meu peito, naqueles momentos eu me sentia cuidando de você, mas você sempre soube que éramos uma dupla de elos frágeis, como é difícil o encontro de iguais. Eu também tentava te dizer da minha dor, eu também tentava te falar da minha angústia, ou da sensação perpétua de observar o mundo sem estar de fato nele. Você estava nele, tanto. Não pôde me guiar para dentro. Esta não é a responsabilidade de um homem. Eu tentava te dizer o que era ter crescido à sombra, o que era estar sempre à margem, mas as palavras que saíam de minha boca eram “minha avó”, “o meu pai”, “houve um dia”. E a frase permanecia incompleta no silêncio. Infinitamente suspensa.
O nosso entendimento sempre foi de corpo, veja como a vida é, os dois tão apaixonados pelas palavras e pelos sons, eu dizia, “encantamento”, e você me chamava de bruxa, cada palavra que eu dizia era um gozo a mais na boca, cada sílaba formando uma nova pessoa e um novo continente, mas quando eram espontâneas machucavam: você dizia, “dor”, eu entendia que era eu, e assim se formava um zumbido, amor, foi se formando um zumbido que ensurdeceu o que havia de real, a parede foi ficando cada vez mais espessa, ao ponto de não podermos mais trocar palavras, mas só carinhos, ou ler a literatura que era sempre segura; sempre segura porque apesar de ser nossa não eram nossas palavras, assim como quando você me chamava de cachorra, de putinha, e dizia impropérios e absurdos, e segurava minha cabeça, e rompia feliz meu corpo como se eu fosse virgem – não éramos nós – e eu sofregamente ia a seu encontro, porque era seguro, porque era bom, porque não era exatamente você. Mas era o que eu tinha, afinal. Pedaços seus.
Um dia a parede ficou difícil demais de se atravessar, eu ouvia ao longe alguns ruídos, minha voz eu sei que te chegava subterrânea, minha figura embaçada, sem que nos pudéssemos ver direito. O para sempre preso novamente na incompreensão. E em vez de sentir aquela descarga de energia que rotineiramente me toma com as rupturas, senti o despegar leve de um membro: lá se foi a perna, lá se foi meu corpo, lá se foi ao longe. Imagino você caminhando anônimo pelo mundo que te pertence: caminhando anônimo, ninguém te conhece, ninguém sabe os atalhos, ninguém sabe seus inícios. Com o desabar do muro o seu nome veio morar em mim. Você vaga com meu endereço jorrando dos dentes, e eu caminho perdida pela cidade que tem só seu nome como sinal.

 

 


Gabriela Ruggiero Nor (São Paulo, SP, Brasil) é professora de línguas e doutoranda em literatura brasileira. Escreve também sobre maternidade consciente e humanização no atendimento da mulher.

Marcado com:

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367