Subversa

série recôncavos, rizomas e encantados | Gabriele Rosa


(primeiros experimentos a partir do livro Terra sonâmbula de Mia Couto, desdobrados em contos curtos)

[ser-tão]

meninar. chover dentro. nuvens menines circulam livremente. sopro. respiro quente os dias avulsos. guardo pedras. cada pedra é uma memória. aqui as folhas verdes crescem longe. as cores se escondem nos olhos atentos. os frutos brotam das fendas. as mãos fraturadas são farol nas noites desaluadas. essa pedra cinza encontrei numa noite minguante. fazia calor. a estrada vazia corria em silêncio. ouvi um vulto. caminhei afluente olhando atento para os lados. arrepio. podia ser bicho, vento, vulto, gente… era árvore regando o corpo do mundo. aroeira. baraúna. barriguda. catingueira. imbiruçu. ipê-roxo. jatobá. juazeiro. mangabeira. monzé. mororó. mulungu. pau-branco. pereira. são-joão. sete-cascas. veludo. tem essa outra pedra, verde. essa guardo desde o dia que nasci. lembro de quase tudo. terra contraída. expandida em meses. o vento se concentrou quente num redemoinho de pó, afetos e palavras. as nuvens murcharam e o céu azulou imenso. tecido na brisa arenosa. corpo-renda. dancei juntinho do tempo. a vida ecoou no tímpano fraturado.

[miúdo]

amamentado no bico das artesanias. terra batida. retina-espelho. o cordão estica do ventre aos dias. laço infinito. me-ninado. o destino cisca teias. rizomas vascularizados na língua-lixa-bifurcada. antídoto. carne-encruzilhada. pés enredados em mar distraído. minguado. desaluado. costelas esfaceladas na agulha das horas. encontro. vértebras distorcidas. embaçados. descabidos. cerzidos. afago peles ígneas e longínquas. a velhice me percorre. perfura. acolhe. desenrolo vultos e ruídos e ausências. apalavramento a conta-gotas. no passador marrom manchado, a fuligem marca o tempo. tudo é carbono e ocre e nada. reza. três gotas de memória. seis colheres de fé. avessos umedecidos. desviventes. vermelho-seco-oco-torto-corpo. como vestir infância num céu impossível? linhas carbonizadas. vida costurada em ponto baixo, baixíssimo. carrego comigo todos os que vieram antes. devorado. não engulo palavras. fluido. derivo. des-cresço.

[flutuador]

a sombra cresce. quase não sonho. despupilado. carne-baobá. dias eclipsados. enjoo com a maré dos pensamentos. enxáguo a fome. sorrio amarelo-amargo. amarro as noites em nós. fogos brotam do esterno. facas afiadas entre peles. paixão costurada nos átrios. vetores desgovernados. linhas cruzadas em rede. esquina. balançamos sementes no semiárido. trêmulos delírios. sussurros e poeira e voos largos. urubu-rei observa em silêncio. rito. travessia. cordão umbilical esgarçado. calçadas imaginadas. onde coloco os meninos crescidos faz tempo? veias abertas no índico. labuta. atravessados nas dobras do vento. queimo lágrimas de tempo escasso. nos músculos relapsos as palavras-nascente. jorro. bússolas quebradas. o mundo se reinventa nas correntes elétricas dos encontros. território vigiado. garrafas embaçadas no grito, na luta. tampas abertas. lacres rompidos. dor. raízes profundas se enchem de ar. expandem. sente?

[delírio]

antepassados. porto. rascunho. raízes. caminhos. chave. quase não sonho. fruta. freira. frasco. terra. capela. mar. costelas. baleia. corpo. cobra. sombra. des-cresço. guerra. ventre. linhas. estrelas. semente. substância. pele. chumbo. velho. durmo. cadernos. cansaço. criança. abrigo. coice. casco. cauda. casca. guerra. carcaça. barriga. maleta. panela. panelinha. fruta. risco. peixe. poeira. chão. no meu punho cabe gente. savana. espuma. luta. areia. cabelo. vela. escuro. caroço. aldeia. formiga. trilhos. mortos. mãe. amargo. grãos. tradição. estrada. corda. faca. sol. saliva. como meninar o tempo? guerreiros. fogueira. petróleo. capim. guerra. andarilho. ‘é preciso riscar as pessoas para saber se elas queimam, ou explodem’. barco. pedras. desejo. atalho. dentes. encantos. santos. sangue. céu. dedo. orelha. rio. ferida. canção. clarão. intuição. gêmeos. enxada. frio. memória. folhas. fogo. lagoa. ervas. Virgínia?


Gabriele Rosa | Rio de Janeiro, Brasil | graduada em História pela UFRRJ. Autora do livro de contos Fendas extraordinárias [editora Patuá]. Atua como dramaturga e dramaturgista na Bonecas Quebradas Teatro (RJ). | gabrielerosa20@gmail.com

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