Subversa

Sementes | Lizziane Negromonte Azevedo


“Vocês foram regenerados, não de uma semente perecível, mas imperecível, por meio da palavra de Deus, viva e permanente.” (1 Pedro 1:23)

Hoje foi dia de plantar feijão. As crianças acharam a atividade fácil, divertida. A professora distribuiu copos descartáveis, algodão e uns grãozinhos. Fosse por alguns dos meninos da sala, essas sementinhas seriam tomadas de mão cheia e atiradas uns nos outros. Dava pra sentir a bagunça surgindo nos olhos deles, ansiosos na busca pelos melhores alvos. Mas a guerra terminou antes mesmo de começar. A professora era esperta. Deu um feijãozinho de nada pra cada um. E foi logo avisando:
– Esses grãos são mágicos! Só crescerão se forem plantados com amor. Então tenham muito cuidado com eles!
– Eles são iguais aos do João do pé de feijão, professora? O pé vai crescer bem muito como o dele? – Perguntou Luana, com o rosto iluminado pela descoberta.
– Que tal descobrirmos todos juntos se nossos grãos irão crescer? – Sugeriu a professora. Que mal terminou de falar, viu um grão alçando voo e pousando no meio da testa de Ruan.
– Silvaaano! Peça desculpas agora ao Ruan e vá procurar seu grão de feijão! A turma toda caiu na risada. Ruan foi o primeiro. Era o melhor amigo de Silvano. E lá foi ele ajudar o amigo na caçada ao grão de feijão, os dois andando de gatinhas em um bambuzal de canelas e pés, tênis e meias. Fizeram uma ronda completa, fila por fila, para o encontrar aos pés do quadro negro. Só então, todos puderam finalmente plantar seus feijões. Copo, algodão, grão, água, tudo na ordem, como desenhado no quadro. Em cada copo, o nome do seu dono. A professora fazia questão de identificá-los, não queria que houvesse troca. Nem Ruan, os olhos plantados no centro do copo.
Ruan não via a hora de ir pra casa. Doido pra mostrar seu canteirinho ao avô Pedro. Vovô Pedro, como ele chama, é pai do pai dele e pai de Jojó, a tartaruga, e de Pitoco, o pinscher. Moram todos juntos numa casa amarela com varanda, quintal e
jardim. E que jardim! No meio dele um ipê rosa reina sobre todas as outras plantinhas. Tudo obra do vovô Pedro.
– Vô, vô, olha meu feijão, plantei um grão hoje! Vê, vô!
– Que bacana, Ruan! Vamos deixá-lo lá no jardim? Ele vai precisar de solzinho.
Enquanto colocavam o copo perto de um jarrinho de hortelã, o avô de Ruan foi mostrando cada planta que lá existia e ensinando que cada uma delas surgiu de uma sementinha, que ele mesmo plantou. Animado com o assunto, Ruan não perdia um dia que fosse de observação do seu grão de feijão, nem deixava de ajudar o avô nos cuidados diários das plantas. Quando o que se viu no copo foi um promissor pé de feijão, Ruan entendeu as explicações do avô e perguntou:
– Vô, então toda semente morre, né?
– É. Toda semente tem que morrer pra gerar outra coisa maior e bonita. Tá vendo aquele pé de ipê rosa? Não é uma árvore linda? Mas, pra isso, foi preciso plantar uma semente. Que foi sumindo, sumindo, sumindo enquanto o ipê ia surgindo e crescendo e se tornando essa belezura aí.
No dia seguinte bem cedo, Ruan acordou chorando e gritando pelo avô:
– Vôôôô…. Vô Peeedrooo! Vôôôô…
Assustado com os gritos, o avô apareceu no quarto de Ruan com os olhos arregalados, o coração em ritmo de escola de samba:
– O que foi Ruanzinho? O que foi?
Os soluços congestionavam as palavras em trânsito, amontoadas na boca da criança sem que ela conseguisse articular coisa alguma. Nem era preciso. O avô havia percebido o problema. O sono do neto havia sido assaltado por um pesadelo. O remédio foi pegá-lo nos braços e abraçá-lo bem forte. Aos poucos Ruan foi se acalmando e falou, sem levantar o rosto, que havia sonhado com o avô sendo plantado no chão igual a uma semente. Todo encolhido, escondido na barriga da terra. Ele contou e caiu no choro novamente.
– Então não foi um pesadelo, Ruanzinho! Foi um sonho bom! Significa que eu vou virar algo forte e bonito, como o ipê rosa. Lembra?
– E gente é semente, vô?
– Somos, sim. Eu e você.
– Mas, como é que pode, vô? Nunca vi pé de gente por aí.
– É verdade. O problema é que pé de gente não se vê mesmo. É invisível, meu filho.
– Invisível? Como é que a gente vira semente? Todo mundo vira semente? Painho e mainha são sementes? E Jojó e Pitoco, são sementes também?
– Jojó e Pitoco eu não sei dizer. Mundo de bicho é diferente do mundo de gente. Mas, seu pai e sua mãe também são sementes. E um dia, todos nós brotaremos juntos, Ruan. E formaremos o jardim mais lindo que já se viu.
– Então nós temos que cuidar muito bem um do outro, não é, vô? Porque a professora falou que é preciso amor pra uma semente crescer.
– Isso mesmo. Mas nós dois já nos amamos muito, não é verdade? Então, não tem do que ter medo. Tá certo?
Ruan balançou a cabeça em afirmação, secou os olhos e apertou o avô com um abraço forte e quente. – Vô, tô te regando com amor, tá? E foram juntos, mãos dadas, para o jardim.


LIZZIANE NEGROMONTE AZEVEDO | Monteiro, PB / Campina Grande, PB | lizzianeazevedo@hotmail.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Lau Siqueira 16 de outubro de 2019 em 05:37

    Um dos nomes mais admiráveis da nova literatura paraibana, observadora atenta dos fatos do cotidiano ela vai construindo sua história na literatura de forma discreta e segura. Mergulha muito mais na língua em do que na ação midiática – aliás, esse é um defeito grave de muitos jovens escritores que fazem exatamente o contrário

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