Subversa

Sede | Felipe Fleury


Conheço o infinito desde pequeno.

Cresceu dentro dos meus ossos,

me esticando ao máximo

no tempo incrustado

no meu infindável alento:

papai e mamãe eram para sempre.

 

Pelo leito do silêncio, no entanto,

sob um sol branco e sutil,

o infinito corre de volta

ao ventre sidéreo,

até à medula dos seus campos de sal.

 

E a imperecível tristeza principia

sobre a minha sombra sem nome.

Nada sei dos mortos, senão que desaparecem.

Me confortaria imaginar que respiram

noutros sítios mais distantes.

 

Em busca do incompreensível,

se a vida se traslada e é só isso,

amealho pedras até ao horizonte,

por caminhos demasiado compridos.

 

Desfaço a metáfora da inatingível linha:

o céu se põe cada vez mais perto.

 

E agora, que o tempo me incinera

como fogo no estio dos olhos,

é possível avistar a imensidade de sal.

 

O primeiro minuto já revela o todo:

o infinito é só o cocuruto do eterno

e é na morte que jaz o morto.

 

Quanto a mim, tenho sede.

O único sentimento que há.


Felipe Fleury | Petrópolis, Brasil | Formado em Direito, é funcionário público. Tem poemas publicados no e-book do concurso de poesias da Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ-2018), e em revistas literária. Além de ter sido selecionado para integrar a antologia, “quantos players hoje – poemas do árcade ao console”, organizada pelas Editoras Patuá e Fractal. Coorganizador dos saraus poéticos: Saracura e Sarauema. Instagram: @felipefleuryffc. |

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Laurinha 16 de março de 2021 em 11:34

    Lindo, profundo.

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