Subversa

Sacapalhaços | Joana Mourisco (Porto, Portugal)


Conheci Sacapalhaços numa viagem que fiz ao continente africano. Foi nosso guia por um país quente.

Sacapalhaços era um antigo militar, de modos brutos, que ainda se vestia de camuflado e boné verde. Vi-o pela primeira vez quando foi buscar o nosso grupo àquele espaço estranho onde tínhamos ficado a pernoitar. Era uma grande fazenda onde fomos aleatoriamente distribuídos entre tendas e pequenos bungalows pré-fabricados.

Foi também aqui que conheci o restante grupo de cinco pessoas, que iria partilhar a viagem num jipe antigo, rodando nos assentos disponíveis à procura de variações ao desconforto sentido pelo corpo nos percursos de terra barrenta e cascalho grande.

Sacapalhaços tinha um riso aberto e ruidoso e por hábito contava alegremente o dinheiro que lhe passávamos para a mão para pagar os gastos diários. Contava em voz alta nota a nota e abanava no ar o baralho de dinheiro. Raramente nos deixava sair da protecção do jipe ferrugento e passava os dias a contar em prosa as suas estórias de vida. No meio daquela jovialidade e doce loucura, conhecemos a família dele, o café do pai, as irmãs, a sua cortante honestidade e moralidade.

E assim percorremos aqueles dias, pelas aldeias muitas vezes mais povoadas por grandes leopardos do que por pessoas. Assim equilibravam as suas vidas, os felinos alimentavam-se das longas serpentes que subiam pela terra, livrando as populações de uma violenta morte por estrangulamento e lenta dissolução. Para além doutras particularidades, viam-se por aqui, manadas de vacas conduzidas por mulheres que as guiavam puxando cordas presas ao pescoço dos animais.

Para conduzir estas manadas as mulheres vestiam-se de cores garridas e berravam estridentes sons agudos despertando assim a atenção do grupo que se movia lenta e distraidamente.

Dentro do jipe seguíamos 2 raparigas e 3 rapazes, um deles com muita parecença de personalidade à família do meu pai. Tinha uma obstinação rara pelo pormenor e uma sensação contínua de que o estávamos a observar. A rapariga por seu lado tinha um doce trato, irrequieta, mudava de lugar a cada 2 horas despejando perguntas numa ladainha contínua ao nosso condutor de jipe. Os outros eram dois irmãos, gémeos não verdadeiros que contavam as estórias de viagens quase em uníssono. Embora com gostos distintos, um por países quentes e o outro por terras geladas, intercalavam a escolha das viagens entre eles.

Hoje e depois de muita insistência, o nosso guia iria deixar-nos percorrer uma aldeia a pé, mas sempre debaixo do olhar atento dele.

Passamos pelas cubatas, entrando em algumas, bebemos chá de cócoras debaixo de árvores de copa larga, compramos fruta desconhecida que desfizemos com as mãos para que a pudéssemos comer, aproximamo-nos de felinos que dormitavam na sombra das casas e depois desta brincadeira toda entregamos-lhe dinheiro para nos levar a almoçar. Entramos numa das pequenas casas da aldeia e passamos para o terreiro traseiro ladeado por arbustos de ponta afiada. Sentamo-nos em pedras que ali rodeavam um pequeno braseiro e enquanto conversávamos traziam-nos legumes, fruta e carne grelhada naquelas brasas.

E conversávamos pelos meandros dos caminhos que nos tinham ali trazido, as viagens passadas e as experiências pelas quais queríamos passar no futuro. Contamos em detalhe pormenores da nossa vida corriqueira de casa e as expectativas que abraçávamos. Voos futuros de isolamento ou de partilha, afinal tínhamos vidas tão diferentes.

Mas, naquele momento delicioso, entre o vento quente que levanta a terra vermelha e a brasa que ainda crepita partilhávamos novas memórias das nossas vidas.

Guardo comigo uma foto de Sacapalhaços, com os seus dentes brancos num fundo escuro, do riso aberto e estridente. Guardo comigo aquela loucura.


JOANA DE ALMEIDA MOURISCO | nascida no Porto a 6 de outubro de 1978. Com formação em engenharia do ambiente, dedica-se ao processo de autodescoberta, utilizando a escrita como forma de traduzir o que não tem nome. Expõe alguns destes trabalho no blogue pessoal joanamourisco.wordpress.com. |  mouriscojoana@gmail.com

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