Subversa

rumores | Julia Medina


caem deuses, certezas, tantas coisas que pensamos saber nomear ficam agora

 

sem nome

 

………………………………..[estilhaços de céu e solo]

de nossos abismos observamos

………………………………………..a queda

como se não fôssemos também matéria que tomba

as horas e os dias passam de modo incomum

acordo e sinto que as coisas, quietas, me pedem algo que não consigo decifrar

janela
prédio
planta

sombra

……………………………………..[tudo frágil e brutal]

imagino as pessoas em suas casas como

bois parados

………………………………….bem no meio da estrada

a ruminar suas vidas, o mundo depois disso:

……….—  o que vem depois?, a voz pergunta

……….como uma criança que indaga a mãe sobre o que acontece depois que a gente morre. e uma mãe que não sabe como dizer que, na verdade, o fim espreita o começo, pois que reconhecer a morte é também reconhecer a vida,

………………………………………………………………………………………………………………………………e vice-versa

então a mãe, que é também uma coisa, tão frágil e tão brutal,

silencia

(como alguém que escolhe um esconderijo secreto, aloja a pergunta em um lugar entre a boca e o peito)

deixa repousar

ficam ali, duas coisas

– uma que pergunta,

outra que espera –

 

[ouvir os rumores]

 

enquanto isso os dias continuam sempre e continuarão tão estranhos e tão ferozes e ainda tão bonitos

descobriremos talvez

algo aqui termina

algo aqui nasce


Julia Medina | Porto, Portugal | Movimenta-se entre pesquisa e criação nas artes da cena e escrita. Em 2018, co-criou a editora independente ágrafa, construindo a muitas mãos a antologia de poesia tertúlia. Atualmente, reside em Portugal, onde finaliza o mestrado em Comunicação e Artes. | julia8mvo@gmail.com

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367