Subversa

Rendição Individual | Norberto do Vale Cardoso


Estas linhas poderiam figurar como elementos de uma biografia caso não encetássemos o relato com um rapaz de dezassete anos que tinha um muro pela frente, relevando-se desde já que as coisas houveram a sua floração bem antes disso, mecânica da vida cujo princípio e fim não podem ser por nós manobrados, sem-fim sem a técnica mas na sua verdadeira pulsão finita, isto é, quando o muro era ainda pedrinhas rarefeitas encontradas pelos caminhos, pés descalços imagoados que, no entanto, as pressentiam já, vias enlameadas das vidas que alguns percorrem com os pés descalços para não gastar as solas dos parcos sapatos, não pedras dispostas emparedando todos os orifícios, não ainda um muro que se não salta, que se não pode saltar, uma vez que a vida etapazinhas que se não podem saltar, bem o sabemos, só o tempo nos escapa, nos ultrapassa, nos engana, e assim daqui para o exame da quarta classe um pulo, e o menino de cabelo negro que tinha um muro pela frente um pouco longe ainda, vero, uma linha imaginária, porventura, mas a perfilar-se já num horizonte que, longínquo, era, porém, ali mesmo, o seu pai, um homem de gravata negra e cabelo branco sentado sobre uma pedra, a casa cheia de gente, a casa cheia de vida lá no Alto, a cidade lá em baixo, a extensão da vinha e o muro a limitação da vida, tudo tão certo ainda e a vinha virgem, contudo alguma coisa a pressentir-se errada, o correio que oxalá não chegue, pensava o pai, o muro que oxalá não chegue, pensava o filho, o gaiato o melhor do liceu no exame, a professora a levantar-se, os seus passos pac pac pac, o eco a esvair-se pela sala, tão imponente, tão importante, a sala a tremer, silêncio, espanto, respeito, e o nome do menino talvez pudesse aqui ser proferido se eu o tivesse encontrado no quadro dos melhores, onde o procurei e acho que, por, entre tantos, não o ter encontrado, devo ter lido na diagonal, erros meus, de certeza, a honra pertence toda aos homens que têm muros pela frente e que ninguém releva, são homens que se sabem render a si próprios quando a vida lhes leva alguns pedaços, o edifício grande da escola, a gente rica nomes dispostos em fila, sem muros adiante, se não falássemos de, pac pac pac, o meu aluno, o meu aluno, eu a professora, mas o nome perdi–o, quem sabe se tresli, a idade não ajuda, as cataratas não ajudam, os meus cabelos brancos, deve-me ter escapado, coisas da idade, agora que tiro a bainha das árvores e, meu deus, desconheço a pantomima da vida, não há crivos por entre as pedras do muro, a melhor redacção não pode ter sido escrita por quem assim poupa os sapatos, tire-se-lhe a figura, o ofício, o nome, e informem-se as autoridades, mas o nome que me escapa, os ricos escrevendo belas composições, isto não é uma biografia, o rapaz encovo naquele tempo viu as pedras esvoaçarem em artes de prestidigitação, elevando-se, rodando, dançando, começando o muro a enformar-se bem à sua frente, e ele começou então a perceber melhor o monstro, lá está ele, um fantasma que circunda, um vulto que paira sobre as nossas cabeças, isto a mim dói-me com toda a força, dói-me com o desalento que a vida tem quando partimos, pedaços de nós nos outros que também somos nós, os tacões desaparecidos, nenhum som, nem ecos do mesmo, que estranho, a professora, esse rapaz não conheço, meu aluno, não não, quem é, deixai-o ir que ele lá vai lá vai, ai ai ai, lá lá lá, os agentes na porta central do antigo convento, onde anda o tal rapaz, pecinhas de teatro censuradas, essas composiçõezitas que não podem ser escritas por quem tão pobre, o homem a quem chamavam louco a lápis azul, o muro a subir, um enxame de pedras, de rapazes sem sapatos, a Mariazinha para os seus meninos, para o menino, tu vais, mas voltas, o ferro e o fogo nos lábios da cartomante, os meninos que vinham não vinham, o muro fazia coisas às pessoas que só deus sabe e os homens tendem a ignorar, o menino dos cabelos negros a desenhar a avó, as filhós, a avó na elucubração a responsar visando protegê-lo, a vida tão estranha, pessoas que desaparecem da forma mais injusta e que continuam dentro de nós e nos fazem chorar por dentro, sentindo o tempo nas nossas veias, de Chaves a Vila Real, de Vila Real a Tavira, de Tavira para, as cataratas tão belas no meio do anódino, são elas, progressivas, que me impedem de encontrar o seu nome, tu vais, mas voltas, o menino com alguns amigos a fundar uma companhia de teatro, número 10, no fim do país teatro e algazarra a ofender as autoridades a valer quinze dias de prisões baixas, o menino um dos melhores nos testes, especialidade apenas para vinte por ano no Puto e ele o melhor dos putos, não vai para o outro lado do muro, claro, afinal safa-se, só vão os menos bons, o enxame que parte, adeusinho, incapaz de caminhar sobre as águas, enquanto as árvores boas medidas para melhores fatos, correio não, não mais árvores na igreja grande, não mais cortejos na nossa rica cidade, o rapaz chumbado na pauta, pac pac, a senhora professora, meu aluno, quem, não conheço, não boas composições, não o melhor, não saltando etapas, não sabendo mais que os mais velhos, como era isso possível, não sem a  quarta classe porque superando todas as expectativas, isso nunca senhor agente, chamemo-lo ao quadro, não no quadro, óbvio, neguemos a excelência como sua autoria, os agentes da Anastácia, não pode ser, a escreverem uma página e a guardarem num arquivo que se há-de perder na memória, a sua terra tão bonita, eu diria mesmo a sua terra tão pura, aldeiazinhas cheias de vida, gente boa, saudades antes de se perderem as coisas que somos, o cemitério vazio, a vinha virgem, as mulheres alvas, os agentes amigos do cidadão a facultarem uma viagenzita ao menino, a quem chamavam de escriturário, do 13 para o 13 que tal, ha ha ha, um premiozinho para daqui a dez dias, o rapaz do lado de cá do tempo, dez a dias a separarem-no do muro, ele no café do outro lado da rua a ver a polícia no convento, as freiras a pintarem os lábios, os frades a esfregarem as mãos, os pífios tão sedutores, o antigo convento altos tectos, pedras duras, procuram-te pá, foge, mas nenhum muro para saltar, mais pedras nele, fugir nunca, cumprir um desígnio, ser um entre tantos, igual aos seus, o infranqueável sem disfarce agora, alguns desenfiados circunscritos ao lado de cá muro, ele não, ele adeus filho hás-

-de voltar são e salvo, igualzinho ao que foste, hás-de fazer muitos anos, e então adeus, uma mala vazia, uma mala cheia de sonetos e poemas, quando menos se espera aí está o muro, os polícias uma folhinha sobre ele, ele rompimentos no coração, uma voz tu vais, mas voltas, o pac pac inaudível, ele ninguém, nenhuma mão, ele sozinho no mundo, e eu a querer gritar porque, mas não conseguia, a gravata mais negra, as pedras do muro mais fortes, adeus estradas, curvas, caminhos, já não um muro mas vários muros sucedendo-se, reforçando-se em movimentos ensimesmados, é verdade, uns construtores do lado de cá que escrevem boas composições e vêem os seus nomes, pac pac pac, brilhantes alunos sim senhor, a trabalharem em movimentos duros, plantando os seus legumes, coitados, tratando do seus quintais, os pobres, do lado de cá do muro os agentes a visitarem a professora dos tacões, então e o outro, o muro e a gente endurecidos, vis, mas a quem se refere senhor agente, ah sim, um aluno, aqui entre nós muito fraco senhora professora, é verdade senhor agente, o rapaz a caminho do horizonte e a Mariazinha, para onde vais, o rapaz a responder, vou para lá do muro, então boa viagem, ela que sabia para onde ele ia sem que ele lho dissesse, a noiva a acenar, hei-de ir lá ter, as irmãs a acenarem, sempre juntas, o pai acabrunhado, com medo, a escrevinhar sem mostrar a ninguém, a sentir sempre por dentro, o menino dos cabelos negros a partir sozinho, os outros tinham ido na frente, mas ele havia de partir sozinho e chegar sozinho, o pai, que sou eu, a saber que do lado de lá muros e muros, mas ao chegar lá a surpresa de uma rede a proteger alguns das coisas que podiam cair do outro lado, isto entre os dois lados do muro, e depois muros e afinal não bem muros, morros e depois mais morros, estes mais espessos, sei o nome, juro que sei mas não sei se o vou escrever, ele e outros do outro lado do muro, planeamentos, operações, interrogações, coisas hediondas, uns sons mais ou menos parecidos com longínquos pac pac pac, mas mais firmes, um jipe, como dizer, um jipe isto, um rapaz aquilo, uma coisa aqui, outra acolá, isto aqueloutro, ele coisa e tal, em Sala, uma carta para a irmã que talvez se pudesse chamar a treva como o título de um poema que havia de escrever regressando, querem dizer na Sala de jantar, enquanto isso outros cá por casa e nada de novo entre eles, os pífios cá cá cá, num riso bêbado de prazer, a casa na mesma, tudo na mesma como se nada fosse, nada acontece por estes lados, Chaves uma ald, uma vila do interior onde nada acontece, as pessoas a comerem croissãs no cine-parque como a senhora de Verdurin, sem receio da pletora, porque o mal sempre distante, a lamber os beiços rapando o tacho com a salazar, eu disse que isto não era uma biografia, estas palavras tão-só ficções que se não tomam com fiabilidade, uma carta desaparecida enviada de Dalat, a mulher a fazer as malas para ir para Ang, as cataratas de uma beleza incomensurável, e subitamente qualquer coisa a acontecer do outro lado, ou seja, ele em N’Dal e o muro sem fissuras a impedir que se entrevisse com exactidão o que do lado de lá sucedia, uma luz esperançosa talvez, dizem que do outro lado gente nas ruas, alegria, mas o tempo a passar e as pedras do muro igualmente densas, gente fugindo de coisas que começaram a cair para o seu lado do muro, desejando saltar para o outro lado onde diziam que vida, eles encolhidos no meio de algo incompreensível, na terra dos mort, do outro lado parece que as coisas renovadas, ele haveria de escrever que qualquer coisa como um terramoto ao longe, que se não vive, que se não vê, do qual se escuta um eco e as pessoas mais distantes, ele a interrogar a terra onde nado e a terra nada, diziam que uma terra dos sonhos do lado de lá, finalmente, só que havia de passar ainda muito tempo até que voltasse igualzinho ao que fora, intacto, como se nada, chegava 1975 e ele ainda do outro lado a apagar velas de lata, velas de lata, velas de lata, a render-se a si próprio a cada dia, a cada noite, a cada hora, havia de regressar para continuar no lugar onde tinha ficado aquando da interrupção, no entanto murros no ar como se coisas invisíveis visíveis, no entanto uma tensão estranha, tu vais, mas voltas, uma semana depois de passar o muro uma sensação de que o muro ainda ali com ele, já não à sua frente, mas ali num espelho que cai num café em frente ao convento, acho que o muro convertido num espelho, e por isso o muro fragmentos de muitos rostos desconhecidos, insignificantes, que os croissãs fizeram por esquecer, um mendigo nas ruas aonde ia para tirar um curso e ser alguém, um filho que nasce, e agora, um dos meninos do outro lado também cá mas sem sapatos, que ninguém aceitara de volta, porventura fantasmas na cabeça de ambos, e agora, coisas nos lugares esconsos das portas, vultos por detrás das cortinas, quem, luzes que configuram sobras nos corredores, o quê, o vento que uiva, onde, não sopra, como, os foguetes na festa da aldeia que retardam a corrupção do muro interior, que susto, o pai que escreve, o filho que há-de vir lá mais para a frente, é ele quem há-de encontrar este texto sob o colchão, e, deus queira, há-de dá-lo à luz para que conheçam o meu filho, e então cinco em três anos para ser alguém, como se houvera aprendido a ser mais rápido que a sombra dos muros, curvas a levarem-no para longe de novo, tão difícil ser homem e ele a ter de se render a si mesmo, compreendem, sem tempo para ter o seu quintal, a sua frisa de onde observaria com parcimónia o que acontece aos outros num palco que lhe não diz respeito, como muitas outras entretanto emergindo na sua cidade natal mas em forma de muros altos, e ele curvas, o tempo muros, e pac pac pac, alguns desenfiados, subtis, a repararem o muro sem que ninguém desse por isso, perdoai-lhes que não sabem o, e ele de novo no palco, a poesia e o incómodo livres, não é isso a liberdade, e o amor à que era a sua terra, e as palavras nos jornais, ele dirigindo a redacção do semanário da que devia ser a sua terra, ele incómodo como Régio e a professora desvanecida, a sua cidade afinal só bola e prédios, a sua cidade afinal um rio de ervas e burros na ausência do caudal, como o quintal de alguns, a sua cidade um muro imóvel, que dor no peito, e as lágrimas a caírem nas minhas mãos mobilizadas por coisas que não esperava encontrar do lado de cá, as suas palavras a trabalharem com picareta no muro, ele um anão gigante, as palavras na morosidade de vencerem muros, coisas a caírem pela primeira vez, talvez a sua terra finalmente uma terra, nas suas mãos calos, mas pela terra vale o esforço, vale as curvas, vale o outro lado do muro, e ele artigos nos jornais, e ele crónicas, e ele poemas, e ele mestre religiosamente seguido pelos aprendizes, que assumia como seus, especialmente os sem sapatos, que diria a professora disto, a cidade a mudar com a sua coragem, um contingente que não se inibe de enganar, pac pac pac, não propriamente mais rápido, mas de certeza que mais, no meu escopo, traidor, a escola um outro edifício, mas preparado para não o lembrar, as palavras rapidamente esquecidas, e novos muros, cravos, coisa lhana, labirintos, debaixo do sol um novo dia tão idêntico a outro como se não houvesse havido outro tempo, disse-me o poeta em que o menino do tempo ao lado se tornou, todo ele a render-se a si próprio, como poeta foi à guerra, como poeta veio da guerra, tu vais, mas voltas, a tentar regressar, a ser ele de novo, como Ulisses, só uma estranha terra não quereria este homem como seu filho, os bons vi ai ai ai, só uma terra ladeada de muros não o desejaria, mas a terra a responder, quem, qual, meu filho não, a negá-lo quantas as vezes necessárias, quem sabe se três antes de o sol se pôr, amanhã o dia igual para todos não é, quais vidas variegadas, coetâneas, o galo a cantar, a mesma geração sem fissuras nos músculos do tempo, as uvas da vinha pisadas, a cidade que reivindicaria se este homem fosse verdade, e se eu pudera, eu, que apenas me limitei a encontrar estas linhas amareladas sob um colchão vazio, eu quereria ter o seu nome, sem aniquilação, e di-lo-ia agitando do templo os mercadores, se estes não censurassem mesquinhamente este texto.


Norberto do Vale Cardoso | Chaves, Portugal | norcardo@gmail.com

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