Subversa

Reféns Perpétuos | Eric Costa (São Luis, MA, Brasil)

₢ Luciana Belinazo

₢ Luciana Belinazo

Que é a vida senão a busca incessante por um emplastro Brás-Cubas?

Aquele mesmo: o de alívio imediato às dores do corpo e sobretudo às da alma.

Que é a busca de muitos por glórias e aplausos além de um mero convite a se tomar de assalto os ventos carregados das enfermidades de corpo e alma?

Ah , mal sabem estes que a vaia é mil vezes mais nobre, forte e engrandecedora! Ainda que esta ora entre pelos ouvidos ora, como quase sempre nos introspectivos, seja de dentro da própria consciência, como um barulho do diálogo entre o pensar e o sentir.

É nobre, mesmo que seja a estrondosa vaia da inteligência contra a emoção. Diálogo que nada! Dicotomia muito menos. Pensar e sentir precisam um do outro, mas quase sempre guerreiam.

Hoje é apenas mais do mesmo. Os muros da mente estão falando alto. Alto demais. Caos. E dele ao menos a criação.

A literatura e a música, além de nos fazerem pensar o pequeno dia-a-dia, levam-nos a escavar, para a ordem, desordem e surpresas desagradáveis, o próprio eu, além de criarem personagens e questionamentos atemporais a partir de recortes específicos de outrora e de diálogos entre realidade e ficção.

Livros de outros tempos falam tantas vezes mais a respeito da mente conturbada dos fiéis leitores e de sua visão de mundo do que de seu próprio eu-lírico. Não é questão de desconfiar disto. É crer plenamente.

Machado, que era de Assis. Nelson, que era de Rodrigues. Humberto, que é de Gessinger. Seres verbais. Logo, eternos. A palavra, quando “pega”, é aplicável para sempre.

Nossos sonhos humanos são os mesmos há muito tempo. Os problemas também. Sempre existiram. Nenhum deles é o primeiro ou último acorde. Todos são quase sempre refrão. Vão e voltam ao sabor de si.

Que liberdade eles têm, não? Inveja justificada. Somos apenas quase livres. Ora, isso é pior que a prisão.

Apropriado: na gaiola psicológica, somos os presos. E os livres problemas, os carcerários com suas chaves.

As chaves nos próprios problemas! Tá aí a solução! Ocorre que o braço e o pensamento, você sabe, às vezes são curtos demais.

Somos detentos. Reféns perpétuos de nosso próprio eu.

Do caos, vem a criação. E não é que deu certo? A inspiração é de linhas tortas até demais. Às vezes, é bem melhor que ela não venha.


Eric de Medeiros Costa (São Luis, MA, Brasil) é acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Maranhão. Vê o escapismo de seus dias, às vezes solitários, no futebol, na música, literatura e em sua própria introspecção

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