Subversa

Recordação de Jonas no dia em que soube de suas bodas | Gabriela Ruggiero Nor


Mas não era ótimo? Eu saía da minha última reunião na sexta-feira à tarde e parava no posto perto do escritório. Descia para comprar o suprimento de Marlboro vermelho para o fim de semana e já levava duas Heinekens geladas no carro. Ia bebendo uma enquanto dirigia, se o trânsito estivesse muito ruim iam as duas, mas geralmente gostava de esperar até chegar em casa para beber a segunda, sentada na varanda olhando o caos que ia se formando em São Paulo sexta às 18h, enquanto eu já estava refugiada. Saía cedo, era bom. Você perguntou se nunca fui parada no trânsito, bebendo, mas é claro que não; além de não ostentar a lata, nós dois sabemos que não seria parada, a polícia tem muitos coitados para intimidar antes de resolver que eu sou uma ameaça. A única vez em que me atrapalhei no carro por ter bebido foi culpa sua, por causa da ilha, você se lembra? Aquela ilha de concreto, menor que uma rotatória, que separa um farol do outro, você quase enfiou o carro lá, agora tão nebuloso, não me lembro se chegamos a subir e sair dela ou se desviamos a tempo. Era madrugada. Depois desse dia você passou a me dar lições de moral.

Tive notícias suas recentemente. Ângela me disse que você estava para casar com aquela fulana que parece que saiu de uma igreja. Qual é a dela com máquina fotográfica? Sempre de máquina pendurada no pescoço. Cafona. Além disso parece turista. Soube que você parou de fumar (meus parabéns), que está bebendo muito menos etc. Ela disse que você tinha melhorado e tal. Eu falei: ah, você sabe como o Jonas é, bom moço, reticências. Comigo você não tinha desses pudores e modéstias no copo, no corpo. Mas tínhamos vinte anos. Agora temos trinta. Eu estou casada, tenho meus filhos, três meninos, e também quase não bebo mais, e também quase não fico mais com meu marido, por falta de tempo, por sono, e pela intimidade que depois que fica excessiva parece que separa o corpo do desejo e vira tudo um bolo de gente enrolada na coberta, torcendo para o bebê não acordar. Estou cansada, também, tão cansada. Meu marido era muito mais louco que você, mais louco que você jamais foi, e ele também está cansado.

Nosso bar secreto faz tempo não é mais secreto. Você levou seus amigos lá. Eu comemorei um Natal lá, com meus pais e irmãos. E meu marido. O garçom acertou meu nome – Catarina América, ainda por cima. Nunca mais pude voltar pra lá, um lugar que era pra ser nosso. Veja o que tempo faz, a distância. A distância entre o desejo e a inconclusão. Você, que mora em mim. Seu puto.

Depois de aberto o portão do prédio, eu subia até seu andar. A familiaridade dos vasos de plantas pelos corredores, como se eu vivesse ali; essa paisagem não sai nunca de minha cabeça. Você me guiava pelos corredores até o elevador, dizendo para eu não tropeçar na planta da Dona Coisa que morava ao lado. Por isso vigiava sempre meus passos, tentando não pisar em nenhuma folha de samambaia. Calculando cada movimento.

Breve retorno à cena do crime (a última vez):

é noite sempre, ou quase

já em seu andar, das diversas portas idênticas, prossegui sem ter dúvida sobre qual era a sua: guiada pela música, caminhei ansiosa. A porta estava aberta. Bati de leve, entrei. Você estava sentado, em frente ao computador. Olhar surpreso, e o longa metragem dos nossos encontros clandestinos passa – eu vejo – numa espiral de medo. Em todos os nossos anos de revoluções (resoluções) sôfregas e decisões de abstinência um do outro, sempre aparecíamos. Com a cara lavada como se nossos encontros tivessem sua clandestinidade aprovada por algum plano divino; autorização especial e sagrada.

(Agora parece que acabou, mesmo, de fato, mas não quero voltar a esse presente agônico em que você não está)

O rosto que se vira em câmara lenta. O rosto que se denuncia antes que dê tempo de inventar uma nova paixão. A boca que se desdobra em dor e alívio.

  • Você ainda consegue me deixar sem ar, quando chega, sabia?

Eu sabia, Jonas, eu sei.

– Bonsoir, chéri. – Fingia meu francês só para compor o drama. Adorava compor meus dramas com você. Eu me movia em preto e branco.

Abraço longo. Cheiro de cerveja, cigarro e banho.

(eu só queria voltar a ser quem eu fui ali dentro tantas vezes – viver pra sempre no mito que você fez de mim)

Mais um sorriso. Meu desconcerto, por quê? Por que desconcerto com aquele homem (era você, um garoto apenas) sob meu insuspeito domínio? Talvez o reconhecimento humilde de que os meses em que eu o havia mantido cativo em meus braços terminaram por ceder a ele o mesmo tipo de poder ambíguo sobre mim. Aquele menino que qualquer família aprovaria se tornara uma pessoa atormentada e endemoniada que nem eu mesma, que nem eu mesmíssima que chegava ali com o corpo todo meticulosamente preparado para ele, embora eu soubesse, no auge controlado e irrevogável da minha postura adúltera, que iria prorrogar o momento até que chegássemos confusos e bêbados, praticamente desacordados, até a sua cama. Pra poder justificar, mas mais pra não precisar pensar.

Porém naquele dia, aparentemente, ele tinha outros planos para mim.

(Mi niño malo. Eu estava lendo o livro do Vargas Llosa naquela época e vivia cheia de ideias a respeito de quem poderíamos ser, as aventuras que viveríamos – eu confiava num futuro que seria sempre de encontros. Que saudades do meu menino.)

Naquele dia, após pouquíssimas doses ele me pegou numa de minhas caminhadas estratégicas pelo apartamento – caminhadas em que eu desfilava estúpida e feliz, formando um campo gravitacional qualquer que só a nós dois dizia respeito (nos seus ímpetos de fidelidade ele me havia suplicado que eu não me levantasse, que eu permanecesse sentada, que eu não descruzasse as pernas, todas súplicas às quais eu respondia com uma inocência criteriosamente planejada, rindo, rindo, tão leve) – ele me pegou com os braços no meio de uma das minhas interpretações mais elaboradas da mulher fatal que não sou. Ele me pegou de maneira um tanto quanto desajeitada. Os beijos que não encontravam os meus lábios, as mãos que se perdiam no desejo de tocar meu corpo inteiro de uma só vez, os olhos que se abriam e fechavam repetidamente sem escolher um ângulo de mirada confortável, os dedos. Ele era um menino magrinho com caráter de um homem bom. Eu era um corpo maior que as palavras e vivia pra tirar vantagem dos olhares que me apareciam, pena que Jonas era tão bom.

– Hoje não vamos esperar – foi o que ele disse. Com uma sobriedade que não lhe cabia.

Eu sabia exatamente do que ele estava falando, do que você falava Jonas, hoje não vamos esperar que a embriaguez nos justifique o erro; hoje não vamos esperar você esperar que eu fique quase imprestável para tentar me enfiar dentro de você com o hálito já viciado de uísque querendo crescer em você sua diaba, você que sempre me faz beber mais do que devo, você que me escutou juras de amor com os ouvidos impassivelmente frios sem nenhuma resposta me dar, você que se vira de quatro pra mim esperando esperando esperando sabendo que no fim das contas eu vou tentar no fundo você sabe que eu nunca tive mulher melhor que você e você é má, você é ruim, você que me fez ruim, você que se diverte dizendo que não deixa homem que você não ama…, você que sabe que eu te amo e isso não é suficiente pra você, você que vê que a cada viagem estúpida que faço eu te trago um agrado e são pulseiras indianas e são vestidos de renda e são lingeries que você vai usar com ele e são livros dos quais depois você vai encher a boca linda pra me falar, porque você sabe que eu não vou conseguir ler os livros que eu te dou, você que me humilha devagar com o seu vocabulário, você com a sua pose chegando do trabalho toda vestida de preto com as calças esticadas lisas os saltos altos e a cara de anjo escondendo o que você é mas você sabe bem que todo mundo está o tempo todo olhando é sim, você sabe, e você sofre e às vezes faz a cara de choro, começando com os soluços baixos, porque você sabe que cada homem até onde a vista alcança pode até te tratar bem mas só quer … e você sabe também que por mais que me apareça aqui toda perfumada e com a pele gosmenta dos cremes trilhardários que você compra, com os brincos pequenos às vezes querendo fingir de boa moça, com a blusa abotoada, mas você se denuncia, você se denuncia a cada gole que dá de bebida, você sabe que no final você bebe como um homem, um homem até mais homem que eu, dizem que eles bebem assim, você fuma como se para poder respirar, você trepa como uma puta, não, não, não, não como uma puta, porque as putas estão sempre alheias, e você por mais que finja, por mais que finja estar alheia a tudo e todos, por mais que finja esta pose indiferente, por mais que tente, eu que te conheço há tantos anos, eu que te conheço acho que melhor do que os outros que te aparecem pelo caminho, eu sei que você fode com a vida inteira gemendo por dentro – “vulcânica vida na vulva” – você gostou? Também sei fazer poema, também sei fazer poema, eu sei que quando eu entro seu grito vem forte e honesto, demônia, vaca, mentirosa, mentirosa, vou colocar esse poema dentro de um biscoito da sorte e te entregar no dia em que te encontrar de novo, num lugar muito pior.

 

Única vez que te vi com ódio de mim.

Não te recusei naquele dia em que havia tanta raiva escorrendo do teu pescoço. Ali estivemos juntos pela última vez.

Faz tanto tempo.

Soube que você se casou, afinal. Mas como você pode já ter se casado? Como poderia você jamais se casar, se você habita um tempo distendido dentro da lembrança, um tempo em que nos vemos, revemos, voltamos para nossas vidas, um tempo em que minhas unhas estavam sempre esmaltadas, um tempo em que meu sorriso vinha por trás de cabelos longos, como eu era feliz, e eu sabia sim, que era feliz. E te via. De alguma forma há cercas espessas murando este ínterim alegre dentro da minha cabeça. De lá você não sai, e ali ninguém mais entra. Vivemos. Sábado depois de sábado. Sextas e domingos. E mais todas as potenciais viagens planejadas. Falávamos de filmes. E de música, acho, mas falávamos principalmente de tudo o que sobrava. Queria voltar à cena do crime e fazer o que eu tinha de ter feito – segurar sua cabeça jovem e loira, guardar ali uma trouxinha de roupa pra passar meu resto de vida.

Um dia mi niño, será? Será que um dia, de mãos dadas.


Gabriela Ruggiero Nor | São Paulo, Brasil | gabriela.ruggiero@gmail.com

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1 Comentário

  1. Felipe 23 de março de 2021 em 14:40

    Gente, q coisa mais maravilhosa

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