Subversa

Quem sabe, não? | Caroline Fortunato (São Paulo, SP, Brasil)

Ilustração: tela de Jaime Ferreira


Levava uma vida normal, aquele.

Contava dezesseis anos – agindo como se já tivesse vinte e cinco.

Frequentava a primeira série do Ensino Médio, pois havia repetido a mesma no último ano. Mas não se incomodava muito com isso. Não tinha lá grandes perspectivas para seu futuro. Na verdade, como muitos de sua idade, era “árcade” (carpe diem): vivia o momento.

E era feliz, em sua medida.

Tinha uma namorada, a qual supunha gostar. Tinha amigos com os quais muito se divertia e praticava as maiores transgressões que a pequena cidade em que morava conhecia e se inquietava.

Era carinhoso com a família. Com sua mãe em especial. Ao contrário de sua fama de menino rebelde e impossível, era, em verdade, bastante sensível.

E assim aquele garoto cresce, torna-se adulto. Ficou mais sério; a euforia adolescente passara.

Casou-se, teve filhos, estabeleceu-se em dado emprego.

O tempo transcorre ainda mais, e ele tem netos e até bisnetos.

Porém, em certo momento estável de sua velhice, de repente desperta (não, nossa personagem não está falecendo).

Simplesmente acorda. E vê que não tem corpo. Que não tem casa. Que não tem companhia.

De certo modo avançando, observa assustado que tudo é um nada. E que não existe ninguém. Nem coisa alguma.

Então soube que aquele Planeta Terra no qual um dia vivera era apenas criação de sua mente – e conseguintemente sente um asco instantâneo por si mesmo, por ter sido capaz de imaginar tantas e tantas atrocidades.

 

Agora, adianta-se ao real.


CAROLINE FORTUNATO (21 nos, natural de Mococa-SP) vive atualmente em São Paulo, onde cursa Letras na FFLCH/USP. Colunista nos sites Obvious e IdeaFixa, contista na revista Labirinto Literário, além de possuir um livro publicado, de forma independente, pela editora Livrorama.

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