Subversa

Quase nada no paraíso | Fábio Maciel Pinto (Joinville, SC, Brasil)

Ilustração: A. Mimura


“Há quase nada no paraíso. Uma ninfa liberta, talvez, vagueie por lá. Ninfa – mulher jovem, esbelta e de traços divinizantes. Ninfa – espírito que habita as águas, as fontes, o seio dos bosques. Sinto-me como o homem velho, moribundo, a agonizar enrolado nos lençóis do leito de morte. Quão ardentes são as lágrimas dos meus olhos, dos olhos do homem corrompido, cujas carnes dissolvem ao toque? Ele chora, pois árduo é o caminho até alcançar os lábios supremos do anjo – das trevas, da morte. A última paixão.” Escrevi essas linhas no diário da vovó – margaridas, rosas, ursinhos e um jogo de canetas coloridas e fosforescentes. A cada vez que citei o anjo, ou a suprema vontade, puxei um adesivo de estrela cadente da cartela – o Natal trouxe coisas belas. O presente da vovó, as cartelas de adesivos, as canetas coloridas, as bonecas e o ingresso daquele show – quem tanto gosto, amo, morreria, mas prefiro guardar. Quantos nomes são escritos, sem pretensão, mas depois, são julgados – o que ele pensaria de mim? Essa menina, quem é ela? Quem é ela que, jamais senti sequer um cheiro, mas que agora é um peso insuportável?

Prefiro que seja eu – sejamos eu. Não citarei outros, mas volto – me sinto um homem velho. Quem sabe Matusalém, quem sabe uma vítima da peste negra. Miro o meu semblante, no espelho. Aqui estou, miro o semblante pálido, os olhos tristes e úmidos. Conheço a ti, seguro-te nas mãos – eu digo. “A minha boca, no espelho, espasma e urra ao confrontar a única certeza” – escrevi, também, essa frase no diário. Com tinta azul celeste, brilhando glitter, completei com o diálogo de um romance da biblioteca da escola:

–– São dois os maiores momentos de um homem; nascer e morrer. Qual o mais importante?

–– Nascer, eu penso. Que alegria a vida.

–– Penso que é morrer. Uma criança é uma esperança. Nela, nada há senão esperança e o carinho de quem a ama. É vazia, não machuca, não nos dá além da pureza que é a nulidade de coisas. Se vejo um bebê, sorrio, pois deve ser bonito e nada tenho contra ele, pois nada há nele. Se uma criança morre, choramos, pois perdeu um futuro, uma vida. Um homem formado, contudo, é o seu futuro, é a própria vida. A aqueles que amavam, antes, uma bolinha sorridente e babadora de gordura, poderá ter somado mais amores, detratores, admiradores, ou seja lá. Ao final, poderá comover o mundo; levá-lo às lágrimas de amor, ou ódio. Quantos sentimentos hão nas mortes de tirados. Um bebê, por outro lado, é só um anjo de pureza que a ninguém pode ferir.

Demorei pensando cada palavra. Pensei em roubar a biblioteca, ou dizer que o livro se perdeu. Não o fiz – papai leu o meu diário. Vacilei, esqueci sobre o criado-mudo. Vovó aos prantos, tantos abraços e beijos molhados de lágrimas como nem sei se já recebi em algum momento. Achei melhor devolver o livro, antes que o acusassem. Disse a eles que era, tudinho, minha autoria. Deveriam agradecer, afinal, demonstro inteligência. Mas isso não basta e não salva.

Mamãe se trancou, comigo, no banheiro. Tão afobada que quase rasgou as minhas roupas e a mim mesma – tive que pedir calma. Me machucava. Respirou fundo, cinco segundo – ou cinco horas de agonia. Examinou-me, cuidadosa. Fechei os olhos – sentia os toques das poupas dos dedos dela e as gotas que caiam nos meus cabelos. Quis abrir e olhá-la no fundo da alma – não tive coragem. Imaginei como estaria inchada – mamãe, tão bonita, base, rímel, blush e batom. Mamãe que me ensina a maquiar, como uma Angel, e escolhe os meus sutiãs – mesmo sabendo que os meus peitos ainda não nasceram. Gosto de bonecas e de sutiãs – tenho algum desvio?

“Meu anjo, meu anjo”, gritavam loucos. Não distinguia as vozes. Troquei o diário – o psicólogo disse que não deveriam me privar dos meus pensamentos. Eu deveria superá-los. Aceitar-me, defender-me. Disse a papai que aquela não era eu. Cada página que relia nas sessões me libertava de um demônio. Ao final, pedi que ele trancasse o diário no cofre do escritório – lá meus demônios estariam enjaulados para sempre. Um dia iríamos ler, nos lembrar e nos emocionar. Quem sabe aos trinta anos. Passei a escrever poesia e a ir à igreja com a vovó. Escrevi preces, tão rebuscadas que as palavras me confundiam. Quando estava com preguiça do dicionário, inventava o que descreveria a minha angústia e a minha libertação. Saí, pouco a pouco, do “Mas que horror!”, ou a encarnação do horror, e retornei ao “Anjo da minha vida”. Que medo e apego à prisão de sangue que eles têm – sou um cachorrinho, perdido e doente, mas consegui voltar. Todos voltaram a sorrir. Mamãe está se maquiando novamente – comprou um delineador. Irá me ensinar a usá-lo. Prometi a mim que irei aguardar e aguentar o máximo que conseguir. Meu aniversário chega – papai anda bobo, rindo de qualquer besteira. Vem algum presente bom, mas não consigo lembrar o que pedi. Deveria ter escrito no novo diário – sei que o que pedi é difícil, caro, especial. Não é assim? Se é caro, é especial? Bobo – quando me ajoelho ao pé da cama, fingindo rezar ou agradecer, percebo as cicatrizes dos braços. Sumindo. Ao sumirem totalmente, talvez levem a melancolia – ainda tenho vontade. Não me livrei da faca, mas a guardo em lugar escondido. Acaricio as lâminas toda a noite e choro debaixo do cobertor – são minhas as lágrimas! É meu o direito à lamentação! Minha cabeça desamparada, na sombra, cheia de lamentos egoístas – às vezes esqueço de dormir. Vou jogar a faca fora – decidi. Eles não podem encontrá-la, nunca – sempre existirá a dúvida. Talvez peça para papai queimar o diário. Tenho que aguentar, sorrindo. “É dever que a existência termine pacífica, afastada da glória da tragédia, mas não com essa paz de armistício”. Cito aquela paz do coração resignado, o qual compreendeu que o Sol também se põe. Queria, outra vez, o livro:

–– Não ensinam os mestres que devemos morrer iluminados, mesmo quando atirados ao fogo da pira, ou cravados por lanças?  Meu querido pai, recorda-te de Sócrates. Ele que bebeu da taça do veneno num único gole e incompreensíveis são aqueles que lamentaram tal fim.

Tudo dói. Se sou um anjo, por quê? Por que quero cortar as minhas asas. Quão poucos anjos hão de existir no paraíso…

 

Eis uma Ninfa caminhante de estrada.

Sobre os seios dela, desnudos, deitei as chagas,

entre os tão róseos mamilos e beijei-os. Orvalho nos lábios.

 

–– Vós é que viestes caminhando entre as tumbas,

acompanhada de guardiães fiéis que seguram as tuas escápulas.

Eis mãozarronas sustentando a ti; eles, os bons carregadores.

 

Senti o doce e o amargo, o apimentado que queima a boca,

tempero egípcio às margens do Nilo,

nos seios. Mulheres, prazeres e juventude.

 

Disse –– Sou velho. Cadáver endurecido, arrastado pela Grécia.

Jovem era Ariadna. Pergunta, a tua mente de ninfa,

ao pai e à mãe se Ariadna não é um velho.

 

É meu. Preparei um a papai. Esqueça o resto da carta. Queime e enterre as cinzas. A ele, eles, somente:

 

Pai, esta é a hora. Estás quase a levantar,

não te agites. Sinto remorso pela tua desgraça.

Encontras o cadáver do velho. Preparas a ele

um túmulo, como se para Ariadna, menina,

e escolhe a ele uma bonita oração. Beijos.


FÁBIO MACIEL PINTO é curitibano, radicado em Joinville, Santa Catarina. É um quase escritor. O resto é desimportante. | FABIOMACIELPINTO@GMAIL.COM

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